Caminhoneiros viram a noite por água mineral no Rio após crise no abastecimento

Arthur Leal
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86515698_CI Rio de Janeiro RJ 15-01-2020 - Produção de água na fonte Cascatai aumenta após contamina.jpg

Reportagem contou pelo menos 38 caminhões em fila para receber água mineral de empresa fornecedora nesta quarta-feira

A crise no abastecimento de água da Cedae na Região Metropolitana do Rio, com a presença de pelo menos uma substância, identificada como geosmina, tem causado um aumento instantâneo na procura por água mineral. Enquanto nos mercados as prateleiras do produto tem esvaziado acima do comum, o mesmo também acontece onde são distribuídos os galões. Nesta quarta-feira, a reportagem do GLOBO encontrou pelo menos 38 caminhões parados em frente à fábrica da Cascataí, em Cachoeiras do Macacu, uma das principais fornecedoras do Rio.

— Está uma doideira! a fila aumentou muito. No verão costuma ter fila por aqui, mas não tanto. Agora está demais. Eu cheguei ontem (terça-feira) à meia-noite para abastecer meu caminhão com os galões e saí hoje (quarta-feira) às 9h. Outros quatro caminhões da minha empresa nós não sabemos se vão conseguir os galões — conta o caminhoneiro Ricardo Alexandre.

Ricardo afirma que, com toda a incerteza que paira sobre a água fornecida pela Cedae nos últimos dias, os clientes têm feito pressão maior pelos galões, e que a demanda aumentou de forma gigantesca.

— Tem que ter paciência. Meus clientes que normalmente gastam 200 águas por semana agora estão gastando 200 por dia — afirma, e diz que, por enquanto, não mexe no preço — Eu vejo que nos mercados o preço tem aumentado muito. Mas a própria fábrica da Cascataí não mexeu no valor ainda, e nem eu mexi no preço com os meus clientes, porque eu acho que não é justo fazer isso com eles.

Do lado de dentro da fábrica, a coordenadora administrativa da Cascataí, Aline Nogueira, não para um só minuto. Ela diz que, mesmo com o planejamento para o aumento na procura por água mineral nesta época do ano, do verão, está difícil ter galão para todo mundo.

— Aumentou muito a procura, cerca de 30%, mas não aumentou tanto a produção porque nós já temos um planejamento para trabalhar no verão, quando normalmente já temos um movimento intenso, e não é do dia para a noite que a gente consegue mudar. Há caminhoneiros aguardando desde madrugada em frente à empresa. Atender a todos a gente não consegue, mas temos procurado atender com prioridade a nossa carteira de clientes mais antigos. Infelizmente, muitos estão acabando ficando sem o produto.

O Procon-RJ afirma que começou nesta quarta-feira uma operação de fiscalização para verificar denúncias sobre o aumento desproporcional do valor da água mineral devido à crise no abastecimento da Cedae. Uma destas denúncias relata um aumento de 400%.

O presidente do órgão, Cássio Coelho, determinou que o setor de Estudos e Pesquisas realize um levantamento dos preços praticados em 2019 e após a crise que se instaurou na cidade. O objetivo da pesquisa é servir de referência quando o consumidor realizar a compra.

Apenas no primeiro dia, o Procon informou que fiscais encontraram aumento de 40,62% no galão de 20 litros (água e vasilhame) em um estabelecimento localizado em Jacarepaguá, na Zona Oeste. O produto era vendido por R$ 32 em dezembro e foi vendido por R$ 45 nesta quarta. Já em uma distribuidora em Botafogo, o galão de 5 litros da marca Passa Quatro aumentou 42,85%. A água era comercializada por R$ 7 em 2019 e passou para R$ 10. A fiscalização vai continuar atuando para verificar as denúncias recebidas. Após a constatação dos fiscais, foi instaurado um processo administrativo e as empresas poderão ser multadas, com fundamento no Instituto da Lesão e Código de Defesa do Consumidor.

Fernando Blower, presidente do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio (SindRio), e dono do Meza Bar, em Botafogo, afirma que, por enquanto, não há impacto relevante nos estabelecimentos. Ele explica que a Vigilância Sanitária obriga que eles possuam um filtro a carvão na entrada de água, além do filtro da torneira.

— No geral os restaurantes são muito dependentes de água, mas também, por outro lado, os estabelecimentos para serem legalizados junto à Vigilância Sanitária precisam ter filtros internos da água que entra na casa, que são filtros mais parrudos. O que preocupa a gente não é a qualidade da água, é o fato da população ficar mais reticente, mas até agora não tivemos problemas, e nem ouvimos queixas sobre esta crise — esclarece.

Blower diz que, por enquanto, o preço da água mineral segue intocado, pois, diferente do público, que busca em sua maioria os galões, as lojas adquirem garrafinhas menores. Ele afirma que, se a situação no abastecimento de água da Cedae perdurar, pode ser, no entanto, que os estabelecimentos passem a ser impactados.

— Claro que o ideal é que a água chegue perfeita, mas a população precisa entender que o restaurante correto, legalizado, que tem todas as certidões necessárias, ele tem necessariamente este filtro de água na entrada de água, que é trocado periodicamente. Mas sabemos, também, que se a situação perdurar, é possível que sejamos impactados de alguma forma.

O Ministério Público, em nota, afirmou que o Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente (Gaema/MPRJ) está analisando os dados divulgados nesta terça-feira pela Cedae. Os relatórios foram publicados após recumendação do órgão, que diz, aguarda também o envio do laudo com o resultado da água colhida durante vistoria realizada na última segunda-feira. O MP afirma que, só depois, irá se manifestar sobre as medidas que serão adotadas.

Procurado para comentar o assunto, o Procon não respondeu à reportagem.