Campanha de Lula tem bate-cabeça para acertar tom com evangélicos

*Arquivo* São Paulo, SP, 20.08.2022 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante comício com apoiadores em São Paulo (Foto Marlene Bergamo/Folhapress)
*Arquivo* São Paulo, SP, 20.08.2022 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante comício com apoiadores em São Paulo (Foto Marlene Bergamo/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Se você digitasse no Google "Lula vai fechar igrejas", o primeiro link que aparecia neste sábado (27) era um anúncio pago do PT. "A verdade é que Lula é cristão -- Lula não vai fechar as igrejas", dizia a chamada para o site da campanha do ex-presidente.

A preocupação em desmontar a fake news que mais tem ganhado tração nas igrejas evangélicas, déjà vu de um boato que rondou o petista em 1989, coloca na berlinda um tema espinhoso no partido: como dialogar com os evangélicos nesta eleição?

Nos bastidores, petistas admitem certo clima de barata-voa. Ainda não há fórmula eficaz para deter o avanço do presidente Jair Bolsonaro (PL) sobre o grupo. A campanha está tentando baixar a temperatura do debate religioso, e líderes do PT chegaram, inclusive, a aconselhar que o ex-presidente não aborde esse tema em discursos.

Não que ele escute sempre. Um exemplo é sua fala no comício no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, que desagradou ao comando da campanha.

O petista disse que, quando quer conversar com Deus, não precisa "de padres ou de pastores", declaração agora usada contra ele por líderes bolsonaristas. Correligionários acham que Lula deveria ter defendido o Estado laico e parado por aí.

O QG lulista prefere focar na economia e remover a fé do tablado eleitoral, mas ela continua lá. Redes sociais do candidato destacaram no sábado que ele assinou a Lei da Liberdade Religiosa no primeiro ano de seu mandato, e em 2009 sancionou a lei que criou o Dia Nacional da Marcha para Jesus.

Lula ainda evocou Deus na estreia de sua propaganda eleitoral no rádio, pedindo que Ele "ilumine esta nação e nos ajude a reconstruir o Brasil".

Para parte de sua equipe, melhor seria se o petista se esquivasse da arapuca bolsonarista e não reagisse a cada provocação, deixando a agenda moral em segundo plano.

O argumento: o eleitor evangélico também sofre com a carestia, o desemprego, e precisa ser relembrado de que se vivia melhor sob o governo Lula.

Não há, contudo, confiança de que só bater na tecla econômica vá bastar. Aliados batem cabeça aqui, sem saber se vale a pena reativar canais com pastores que, no passado, ficaram ao lado do PT, mas hoje dizem abominar o partido.

O nome do bispo Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira, foi citado em reunião do conselho político da campanha, no mês passado. Ele, que a princípio marcha com Bolsonaro em 2022, teria interesse em conversar.

Lula ainda avalia se o encontro não teria justamente o efeito que tenta evitar, de trazer o tema religioso para o centro da disputa.

Alguém sugeriu que a interlocução ficasse a cargo de Geraldo Alckmin (PSB), vice de Lula apoiado, nos tempos tucanos, por vários pastores que hoje orbitam o bolsonarismo. Alckmin disse que colaboraria, mas que não teria condições de coordenar essas articulações. Lembrou que era católico.

Segundo um integrante da cúpula petista, não existe uma pessoa em especial escalada para fazer a ponte com evangélicos. Há ações pulverizadas, como a criação de perfis virtuais endereçados ao segmento, nenhum deles com engajamento relevante por ora.

Há ainda vídeos em que Lula pede que o eleitor "não se deixe levar por falsos profetas" e crava: "Quem acredita em Deus não precisa ficar falando toda hora".

Mas a máquina bolsonarista não tem a menor intenção de tirar Deus da reta eleitoral.

Foi-se o tempo em que evangélicos eram tidos como trocado eleitoral. Essa fatia populacional já responde por 1 em cada 4 votos e dá a Bolsonaro 17 pontos de vantagem nesse segmento no primeiro turno sobre o petista, segundo pesquisa Datafolha.

Mesmo no eleitorado mais pobre, onde lidera com folga no quadro geral, o petista consegue no máximo um empate técnico com Bolsonaro entre os adeptos dessa fé.

Lula não tem muitos evangélicos em seu entorno, o que atravanca a comunicação com esse eleitorado. O deputado André Janones (Avante-MG) entra na cota da exceção.

Ex-presidenciável que saiu do páreo para ajudar o petista, com destaque nas redes sociais, ele se converteu em 2016. Sua igreja, a Batista da Lagoinha, já recebeu três Bolsonaros em púlpito só neste ano: Jair, Michelle e Eduardo.

Janones, portanto, tem o conhecimento de causa que falta à maioria do núcleo duro lulista. E engrossa a turma dos que preferem que Lula não seja tragado para pelejas religiosas. A melhor estratégia na internet, diz, "é não responder nada, porque o algoritmo não sabe se você fala bem ou mal, só sabe que você está falando desse assunto".

Quando você entra na pilha do seu adversário --ainda que para desmentir que Lula vai fechar igrejas--, colabora para que a pauta moral continue em evidência nas redes. Exatamente o que o bolsonarismo deseja. Lula tem que pautar Bolsonaro, e não ser pautado por ele, afirma.

O deputado dá como exemplo a live que fez com o ex-presidente na véspera do Dia dos Pais. O petista prometeu ali continuar com o auxílio de R$ 600 caso vença, e foi esse trunfo econômico, segundo Janones, que dominou as redes --isso no mesmo dia em que Bolsonaro se juntou aos pastores Silas Malafaia e Cláudio Duarte na Marcha para Jesus carioca.

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, também acha cilada enveredar pelo discurso religioso. "Isso seria até desrespeitoso da nossa parte, se a gente entrasse nessa pauta do Bolsonaro de discutir o valor e a crença das pessoas."

Tanto Gleisi quanto Janones, contudo, compartilharam a montagem de alta carga proselitista que, entre uma foto em preto e branco do presidente e outra iluminada do seu oponente, diz: "Bolsonaro usa Deus, Deus usa Lula!".

A imagem teve recepção interna cautelosa. Além de arrastar a religião de volta para o debate, tudo o que a campanha não quer, há o temor que soe inautêntico entre evangélicos.

A deputada Benedita da Silva é o quadro mais histórico do PT no segmento. Não raramente dirigentes petistas empurram a discussão para seu colo, justificando que quem tem "lugar de fala" é ela.

A presbiteriana Benedita não circula tanto pelo meio pentecostal, que alavanca a popularidade de Bolsonaro nos templos. Ela define o bolsonarismo como "uma seita, e com seita não tem diálogo", e não acredita que é preciso dar tratamento diferenciado para o voto evangélico.

Gosta da agenda econômica. "Na igreja tem muitos pobres", diz. "Tem muita gente que não compra gás nem come carne há muito tempo."

Soaria forçado, segundo a deputada, se Lula adotasse um palavrório evangelizador a essa altura do campeonato. "Ele vai falar de religião, discutir gênese e apocalipse? Ele não é teólogo."

Benedita sugere que o ex-presidente reforce como sua gestão tratou os mesmos evangélicos que hoje lhe viram as costas.

"O homem ficou oito anos governando e não fechou uma igreja. Será que o mal que ele fez foi sancionar a [Lei da] Marcha para Jesus, ou levar o Bolsa Família, para muitos evangélicos que precisavam?"

"Não vamos usar os mesmos métodos bolsonaristas nem cair na armadilha da guerra santa entre o bem e o mal", diz o pastor presbiteriano Luis Sabanay, da coordenação nacional do Núcleo de Evangélicos do PT.

Há, contudo, dúvidas sobre o alcance dessas iniciativas evangélicas que partem da legenda e de aliados da esquerda. Haveria vícios de militância em alguns casos, ou mesmo linguajar progressista sem eco nas igrejas. Como falar em "desgoverno fascista" em atos voltados a religiosos.

O pastor Paulo Marcelo Schallenberger é um dos que critica a falta de um projeto mais focado nos evangélicos. Ele vem do Gideões Missionários da Última Hora, congresso pentecostal que projetou vozes como a do deputado Marco Feliciano, seu amigo.

Em fevereiro, a Folha o acompanhou numa reunião na sede nacional do PT. Dois meses antes, ele se encontrou com Lula. Combinaram que ajudaria na campanha. Veio a ideia de fazer um podcast voltado a evangélicos, que nunca foi para frente.

Candidato a deputado pelo Solidariedade, partido na coligação lulista, sua presença gerou ruído no PT. Há quem questione se sua influência entre pentecostais é tão relevante quanto dá a entender.

Fato é que ele tem sido escanteado, e propostas que tenta colocar de pé, como levar Lula a um culto pentecostal, ainda não prosperaram.