Campanha sela aliança de Bolsonaro com evangélicos, sua base mais sólida segundo as pesquisas

Membros da igreja evangélica pentecostal Restauração durante culto, em Mesquita, Rio de Janeiro

Por Fernando Cardoso

SÃO PAULO (Reuters) - O presidente Jair Bolsonaro (PL) encerrará no sábado sua campanha à reeleição na qual consolidou a crescente parcela de evangélicos no Brasil como uma base de apoio sólida e estável de seu movimento de ultradireita, de acordo com dados dos principais institutos de pesquisa do país, frustrando esforços de Luiz Inácio Lula da Silva(PT) para avançar no público.

Desde o início do período legal de campanha, em agosto, quatro institutos de pesquisa monitorados pela Reuters --Ipec, Datafolha, AtlasIntel e Quaest-- mostram os evangélicos como o principal grupo de apoio do presidente, onde Bolsonaro tem maior porcentagem e a maior vantagem em relação a Lula na comparação com qualquer outro estrato social ou de gênero.

Nas projeções de todos os levantamentos para o segundo turno, os quatro institutos projetam que o candidato à reeleição obterá votos de mais de 60% dos eleitores evangélicos, estimados pelos institutos como sendo em torno de 30% do eleitorado total.

O número não é uma novidade para Bolsonaro, já que a pesquisa Datafolha às vésperas do segundo turno em 2018 projetava que o ex-capitão do Exército teria uma fatia semelhante de votos evangélicos nas urnas, mas comprova o êxito do atual presidente e de sua campanha em manter esses laços.

Meses antes do início da disputa, Bolsonaro já dedicava parte considerável de sua agenda oficial para eventos religiosos, buscando engajar o público evangélico em torno de sua reeleição.

Em análise feita pela Reuters, Bolsonaro frequentou 33 eventos oficiais fora de Brasília entre julho e agosto. Destes compromissos, 13, ou 39%, foram de cunho religioso, entre marchas, cultos e encontros com autoridades.

Já na campanha, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, evangélica, foi incentivada a aumentar sua frequência em comícios e a quantidade de discursos, inclusive na televisão, para tentar mitigar a resistência de outros grupos, como as mulheres e os mais pobres, à campanha -- Lula sempre liderou nos dois seguimentos, desde o início da contenda.

Durante a corrida eleitoral, Lula também buscou cativar esse público, que foi bombardeado pela campanha adversária, que usou para atemorizar os eleitores a informação falsa de que o petista, se ganhasse, fecharia igrejas.

Na semana passada, o ex-presidente divulgou a "Carta Pública ao Povo Evangélico", em que garante o respeito à crença evangélica, repete que é contra o aborto e banheiros unissex e promete discutir temas importantes ao grupo, como o combate às drogas e a educação infantil.

A medida, entanto, parece não ter tido efeito para o ex-presidente. Os quatro institutos monitorados apontam a estabilidade do apoio de Lula entre o grupo religioso, girando em torno de 30% durante toda a campanha.

O PESO EVANGÉLICO

Apesar da ampla influência do grupo nas eleições, é difícil determinar o peso real dos evangélicos no eleitorado como um todo. Os dados mais recentes sobre as crenças religiosas dos brasileiros são do Censo Demográfico de 2010.

Com o Censo de 2020 adiado e o próximo ainda em fase de coleta, institutos lutam para aferir a mudança nos últimos anos e refleti-las nas amostras de suas pesquisas. O consenso é de que houve um crescimento significativo do público, de todo modo.

No Censo de 2010, evangélicos com ou sem denominações representavam cerca de 22,2% da população brasileira, o que já indicava um aumento de quase 7 pontos percentuais em relação ao levantamento da década anterior, que os situava em 15,5%.

Para os institutos de pesquisa, o crescimento de 2010 até agora é pelo menos do mesmo tamanho. A AtlasIntel realizou sua mais recente pesquisa nacional do segundo turno estimando um total de 27,7% de evangélicos no perfil do eleitorado, enquanto a Quaest indicou 31% de evangélicos em sua projeção mais recente do segundo turno, em 26 de outubro.

No Rio de Janeiro, onde Bolsonaro conquistou mais da metade dos votos válidos nas urnas (51,09%) no primeiro turno, a AtlasIntel projeta que 32% do eleitorado se denomina como evangélico, sendo que sete em cada dez deles pretendem depositar o voto em Bolsonaro, de acordo com pesquisa do instituto divulgada em 16 de outubro.