Campanha de vacinação uniu políticos oponentes no passado

ANA BOTTALLO
·4 minuto de leitura
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 17.01.2020 - O ex-presidente Lula durante reunião do diretório nacional do PT (Partido dos Trabalhadores), em São Paulo. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 17.01.2020 - O ex-presidente Lula durante reunião do diretório nacional do PT (Partido dos Trabalhadores), em São Paulo. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A animosidade política não impediu, no passado, que oponentes de peso, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador José Serra (PSDB), se unissem em prol de um bem comum: a campanha de vacinação.

Em 2008, o então presidente Lula foi até um posto de saúde em São Bernardo do Campo, cidade onde mora, para o início da campanha de vacinação contra a gripe. No local, o petista encontrou o então governador de São Paulo José Serra.

Uma foto do encontro mostra o peessedebista brincando de vacinar o então presidente. Na realidade, Lula foi vacinado por uma enfermeira, mas a imagem registrou o momento de união dos dois políticos, que haviam disputado a eleição para presidente seis anos antes, em 2002.

Na última quarta-feira (22), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) travou uma guerra contra o governador de São Paulo João Doria (PSDB) e o Instituto Butantan, entidade de pesquisa pública ligada ao governo estadual e que irá produzir a vacina contra o novo coronavíus da empresa chinesa Sinovac no país. Segundo o presidente, a vacina desenvolvida na China não transmite segurança "pela sua origem".

O governo de SP e o Instituto Butantan tinham fechado acordo na véspera (21) com o Ministério da Saúde para compra de 46 milhões de doses da Coronavac, a vacina da Sinovac.

A vacina é uma das dez em fase final de testes antes da aprovação para uso contra o novo coronavírus. No país, o imunizante já foi testado em 9.000 voluntários, coordenado pelo Instituto Butantan.

O evento da vacinação contra a gripe, em 2008, foi um marco na introdução daquela vacina no calendário do Programa Nacional de Imunização (PNI), e contou com 3 milhões de doses naquele ano, voltadas especialmente para os idosos. A vacina da gripe hoje é recomendada para crianças, grávidas e puérperas, idosos acima de 60 anos, trabalhadores de saúde, professores, agentes de segurança e pessoas com doenças crônicas.

"Faz três anos que tomo vacina e três anos que não tenho gripe", disse Lula na ocasião. "Todos nós que estamos chegando na terceira idade precisamos nos cuidar."

Desde 2014, a vacina da gripe foi incorporada ao SUS após um processo longo de transferência de tecnologia. A vacina da gripe hoje é produzida no Butantan, que conta com escala para produção de 70 milhões de doses por ano do imunizante.

Além da gripe, o instituto fabrica também outras vacinas importantes para a proteção de crianças e adultos no país. Junto com a Fiocruz, no Rio de Janeiro, o instituto centenário paulista fornece 75% das vacinas inseridas no PNI, programa elogiado e referência de saúde pública em todo o mundo.

No Brasil, a vacinação é obrigatória em recém-nascidos e crianças até seis meses de idade. Nos últimos anos, porém, a baixa adesão fez com que a cobertura vacinal tivesse redução de até 27% para algumas vacinas.

Por serem dados relativamente novos, ainda não estão claros os motivos para a queda na vacinação. Especialistas argumentam que os fatores no Brasil para a redução na taxa de vacinação são múltiplos, desde problemas na organização da rede, desabastecimento nos postos, falta de tempo dos pais para levarem as crianças --principalmente aqueles que trabalham integralmente e não podem faltar ao trabalho-- até mesmo a falsa sensação de segurança --a ideia de que se todo mundo vacinar, você não precisa vacinar seu filho.

Embora não sejam inexistentes, os movimentos antivacina no país possuem menos força e talvez até menos impacto na cobertura vacinal do que em outros países, como os Estados Unidos.

Especialistas, no entanto, alertam para a disputa política em torno da vacina contra a Covid-19 e como isso pode aumentar as fake news e alimentar o movimento antivacina.

Elize Massard da Fonseca, pesquisadora da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas que analisa transferências de tecnologia no país, acredita ser melhor para o Brasil e para o SUS ter mais de uma vacina disponível. "A disputa entre os laboratórios, algo inédito no passado, dá fôlego para os movimentos antivacina. As pessoas só têm a perder com isso."

Para Luciana Leite, diretora do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do Instituto Butantan, o medo de que as vacinas vão causar doença ou que a população é "cobaia" é infundado. "As vacinas não causam doenças. Cada vez que alguém diz que um imunizante é tóxico, as pessoas precisam buscar informações em fontes confiáveis, como a OMS, os órgãos regulatórios, e especialistas. O processo de produção de vacina, mesmo acelerado, está baseado em muitos anos de estudo, e nunca mostraram toxicidade ao longo de todos esses anos."