Campo para refugiados etíope é construído às pressas no Sudão

Abdelmoneim ABU IDRIS ALI
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Uma cabana em construção para refugiados etíopes no campo Um Raquba, Sudão, em 15 de novembro de 2020

Campo para refugiados etíope é construído às pressas no Sudão

Uma cabana em construção para refugiados etíopes no campo Um Raquba, Sudão, em 15 de novembro de 2020

Em um enorme terreno baldio coberto por grama seca, trabalhadores sudaneses cavam valas para construir cabanas que irão abrigar cerca de 25.000 refugiados etíopes que fugiram da guerra na vizinha região de Tigré.

Diante do grande fluxo de expatriados, as autoridades sudanesas decidiram reabrir o campo Um Raquba (leste), a cerca de 80 km da fronteira com a Etiópia.

Fechado há 20 anos, este acampamento serviu para hospedar muitos etíopes que fugiam da fome em seu país.

Mas, desde então, apenas dois edifícios sólidos permaneceram de pé, uma velha escola que perdeu seu telhado e um dispensário em péssimas condições.

Cercado por dunas e alguns campos semi-abandonados, o campo é isolado, pois a primeira vila habitada fica a dez km de distância.

Abdel Basset Abdel Ghani, diretor do local, não sabe a quem recorrer dada a urgência dos problemas que surgiram. Até para ele, que participa pela segunda vez da construção do campo.

“Em 1985 fiz minha estreia na Comissão Sudanesa para Refugiados e agora faço o mesmo trabalho de responsável. Naquela época recebíamos etíopes que fugiam da fome e agora da guerra”, resume.

- Trabalhar "sem trégua" -

Entre 1983 e 1984, a Etiópia sofreu uma das piores fomes do século XX, forçando centenas de milhares de pessoas a fugir de seu país. Foi o resultado de uma grande seca que teve como pano de fundo uma guerra entre a ditadura de Mengistu Haile Mariam e os guerrilheiros da região etíope de Tigré.

“O mais urgente agora é construir abrigos. Nossa ideia é criar três setores que possam acomodar cerca de 8 mil pessoas cada um. Vamos usar o terreno do antigo campo e, se pudermos, vamos expandi-lo para terras vizinhas”, disse Ghani no domingo.

No local, dezenas de trabalhadores começaram a trabalhar.

Alguns cavam a terra para instalar canos de água, outros traçam as fundações de madeira dos escritórios na entrada do acampamento, onde serão instalados os funcionários encarregados de registrar as entradas e administrar o local.

Outros começaram a construir cabanas, também de madeira, onde ficarão as famílias.

“A eletricidade acaba de ser instalada hoje e vai demorar pelo menos sete a dez dias, trabalhando incansavelmente, para que tudo esteja no lugar”, disse Adam Mohamad, um dos trabalhadores.

Diante da emergência, as autoridades não esperaram pelo término da construção do acampamento. No sábado, 1.105 pessoas foram transferidas para lá e no domingo outras 1.300 eram esperadas.

- "Não há nada" -

De acordo com as autoridades sudanesas, quase 25.000 etíopes se refugiaram no país uma semana depois que seu primeiro-ministro, Abiy Ahmed, em 4 de novembro, enviou o exército federal para a região separatista de Tigré.

No campo de Um Raquba, o Vermelho Crescente instalou uma tenda para seu dispensário, enquanto o Unicef preparou tanques de água.

A comida, composta basicamente de sorgo e lentilha, é fornecida pelo Programa Mundial de Alimentos (PAM) e distribuída por funcionários da Comissão sudanesa para os refugiados.

Estes já se aglomeram à sombra das poucas árvores que existem para se proteger do sol escaldante.

“Estou sentado no chão com minhas três filhas pequenas. Acreditávamos que as autoridades haviam nos transferido para cá porque havia abrigos, mas não há nada e nos disseram para esperar”, diz Gabriel Hayli, 37 anos.

Ele não é o único que está desapontado.

Dahli Burhan, 32, está com medo. “Os sudaneses estão fazendo muito por nós e eu agradeço, mas estamos muito perto da fronteira e o lugar é muito isolado. É muito perigoso se a guerra se espalhar”, diz ele com grande preocupação.

ab/sk/vg/tp/age/zm/mr