Campos Neto diz em carta a Haddad que inflação acima da meta é culpa de fenômenos globais e retomada de serviços

Em carta dirigida ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse que a inflação do ano passado ficou acima da meta estabelecida pelo governo por conta de cinco fatores. São fenômenos globais, como alta do preço do petróleo, e a retomada dos serviços e do emprego após o auge da Covid-19.

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No documento, Campos Neto culpa a inércia da inflação do ano anterior; a elevação dos preços de commodities, em especial do petróleo; o desequilíbrios entre demanda e oferta de insumos e gargalos nas cadeias produtivas globais; o choques em preços de alimentação, resultantes de questões climáticas; e a retomada na demanda de serviços e no emprego, impulsionada pelo acentuado declínio da quantidade de casos de Covid-19 e consequente aumento da mobilidade.

O IPCA, índice da inflação, fechou o ano passado em 5,79%, segundo o IBGE. A meta para 2022, por sua vez, era de 3,5%, com intervalo de tolerância até 5%. Por regra, quando há um resultado fora do intervalo de meta da inflação, o Banco Central precisa justificar em carta pública os motivos de um nível fora do limite, além das providências e dos prazos para trazer a inflação para o teto estabelecido.

Desde a adoção do regime de metas em 1999, sete anos ficaram com nível de preços não desejados: 2001, 2002, 2003, 2015, 2017, 2021 e 2022.

O resultado acima do desejado ocorre no segundo ano consecutivo. Em 2021, o IPCA acumulou 10,06%, a maior elevação desde 2015. Assim, ficou acima do teto da meta de 5,25%.

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A crise na cadeia de oferta de alimentos e energia, impactada pela guerra na Ucrânia, e os resquícios da pandemia também impactando exportações, são alguns dos fatores esperados como centrais nas justificativas do Banco Central que serão apresentadas hoje.

— A gente já vinha de um 2021 de custos em geral prejudicados por conta dos entraves nas cadeias globais de produção, com dificuldades no acesso a matérias-primas (...) Há também fatores climáticos, prejudicando muitos setores da agricultura. Esse ano foi sobretudo nos hortifrutis e nos laticínios — avalia o economista Matheus Peçanha, da FGV/Ibre.

A expectativa é que a autarquia monetária reforce a perspectiva de manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em escala elevada, almejando conter um novo estouro da meta em 2023. Essa sinalização, no entanto, é um dos pontos de cisão com o atual ministro da Fazenda, que vê a taxa de juros praticada no Brasil “anômala” e defende uma política monetária mais expansionista.

Peçanha vê, ao longo de 2023, pressão para baixar a taxa de juros, olhando para o nível de atividade econômica. A previsão do Focus, até o final desde ano, é de uma redução de um ponto percentual (1p.p) na Selic.

— A gente espera um ano bem difícil para o nível de atividade, vários mercados maduros ensejando recessão, como China, Europa e EUA. Com esse receio, pode vir alguma pressão para reduzir um pouco a taxa de juros, mas, nesse cabo de guerra, acredito que ela se mantém neste patamar pelo menos no primeiro semestre inteiro — diz.