Canadá concede asilo à jovem que fugiu da Arábia Saudita

A jovem saudita de 18 anos Rahaf Mohammed al-Qanun (C), que obteve asilo no Canadá, é escoltada por funcionários da migração tailandesa e da Acnur no aeroporto internacional Suvarnabhumi em Bangcoc, em 7 de janeiro de 2019, em um foto do escritório de imigração tailandesa

A jovem saudita de 18 anos que fugiu de sua família e pediu asilo quando chegou a Tailândia, divulgando seu caso nas redes sociais a fim de não ser expulsa deste país, partiu nesta sexta-feira (11) rumo ao Canadá, onde o primeiro-ministro disse estar "encantado" de recebê-la.

"Concedemos o asilo. Estamos encantados de fazer isso, já que o Canadá é um país que reconhece a importância de defender os direitos humanos e das mulheres no mundo", declarou o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, à imprensa.

"Quando as Nações Unidas nos pediram que concedêssemos o asilo a ela, aceitamos", acrescentou.

A decisão poderia aumentar as tensões entre Canadá e o reino, depois de que Ottawa criticou, em agosto, a situação dos direitos humanos na Arábia Saudita, o que levou Riade a expulsar o embaixador canadense e a cortar laços comerciais em protesto.

O Canadá também irritou Riade ao exigir a "libertação imediata" de vários ativistas de direitos humanos, entre eles Samar Badawi, a irmã do blogueiro detido Raif Badawi, cuja família vive em Quebec.

Inicialmente, Rahaf Mohamed al Qunun tinha a intenção de pedir asilo na Austrália, afirmando que fugia da violência psicológica e física de sua família na Arábia Saudita. Sua família desmentiu as acusações.

A jovem foi detida no fim de semana passado quando chegou a Bangcoc, a partir do Kuwait, e as autoridades tailandesas ameaçaram, inicialmente, mandá-la de volta a seu país.

Equipada com um celular e uma conta de Twitter aberta às pressas, através da qual comunicava sobre sua situação, a jovem se trancou em um quarto de hotel do aeroporto, o que levou as autoridades tailandesas a mudarem de opinião.

- "Situação precária" -

"A situação da senhorita Al Qunun chamou a atenção do mundo nos últimos dias e deu visibilidade à situação precária de milhões de refugiados no mundo todo", apontou o alto comissário da agência da ONU para os Refugiados (Acnur), Filippo Grandi.

"A proteção dos refugiados atualmente se encontra ameaçada com frequência e nem sempre pode ser garantida, mas nesta instância prevaleceram a lei internacional de refugiados e os valores predominantes da humanidade".

A mulher de Raif Badawi, Ensaf Haidar, também elogiou o Canadá e disse no Twitter que a ministra de Exteriores canadense, Chrystia Freeland, era a "verdadeira heroína" por trás dos esforços para impedir que Al Qunun fosse deportada para a Arábia Saudita.

A jovem tinha indicado que queria pedir asilo a Austrália, onde funcionários do governo afirmaram que estudariam com seriedade o pedido de asilo, que a Acnur considerou legítimo na quarta-feira.

Na sexta-feira, o chefe de polícia de imigração tailandesa disse que a jovem estava a caminho de Toronto, sorridente, e que tinha partido em um voo após as 23H00 locais (14H00 em Brasília).

"Escolheu o Canadá... o Canadá disse que a aceitaria", disse a jornalistas no principal aeroporto de Bangcoc Surachate Hakparn. "Está a salvo agora, e está bem física e mentalmente. Está contente".

Na sexta-feira à tarde Rahaf Mohamed al Qunun indicou por meio do Twitter que tinha "algumas boas e más notícias", sem explicar nada mais. Pouco depois sua conta foi desativada, devido às ameaças de morte que recebeu, indicaram seus amigos.

"Rahaf recebeu ameaças de morte e por esse motivo fechou sua conta de Twitter, por favor salvem a vida de Rahaf", tuitou um de seus seguidores, @nourahfa313.

A fuga da jovem do reino saudita mobilizou as organizações de direitos humanos, e a polícia de imigração tailandesa a pôs sob proteção da Acnur.

A Tailândia não é signatária da convenção da ONU sobre os refugiados, e os solicitantes de asilo costumam ser expulsos ou esperam anos até serem enviados a um terceiro país.

Na Arábia Saudita as mulheres estão submetidas a muitas restrições, como estar sob a tutela de um homem (pai, marido ou outro) que exerce sobre elas uma autoridade arbitrária e toma as decisões importantes em seu lugar.

Uma mulher julgada por ter cometido um crime "moral" pode ser punida violentamente por sua família, incluindo sua execução quando houve o chamado "crime de honra".