Candidata do PL diz que partido a discrimina por ser “indígena, negra e bolsonarista”

Candidata bolsonarista alega sofrer preconceito no PL - Foto: Reprodução/Redes Sociais
Candidata bolsonarista alega sofrer preconceito no PL - Foto: Reprodução/Redes Sociais
  • Candidata do PL acusa partido de discriminá-la por ser "negra, indígena e bolsonarista";

  • Silvia Waiãpi concorre ao cargo de deputada federal pelo Amapá;

  • Segundo ela, legenda distribuiu menos dinheiro do fundo eleitoral a ela e não veicula seus materiais.

A tenente Silvia Waiãpi (PL-AP) entrou com uma ação contra seu próprio partido, acusado de discriminá-la por ser “negra, indígena e bolsonarista”. Apoiadora ferrenha de Jair Bolsonaro, que também é do PL, Waiãpi concorre ao cargo de deputada federal, mas diz que não tem recebido o devido apoio da legenda.

Conforme divulgado pela Folha de S. Paulo, a candidata alegou que o partido repassou menos dinheiro do fundo eleitoral a ela do que às outras candidatas mulheres do Amapá pelo fato de ambas serem brancas e ela, negra e indígena.

Além disso, o PL não teria veiculado nenhum material de sua campanha no horário eleitoral gratuito, já que ela se recusou a apoiar o candidato ao Senado Davi Alcolumbre (União Brasil) – desafeto de Bolsonaro, mas aliado do PL no estado – e o candidato ao governo Clécio Luis (Solidariedade), que também conta com o apoio do PT, sendo um raro caso a receber respaldo de partidos rivais.

"A demandante [Waiãpi] está sendo discriminada por ser negra, indígena e bolsonarista. A odiosa discriminação é um grave atentado à ordem jurídica, à democracia e à dignidade da pessoa humana", afirma ela, no processo enviado ao TRE (Tribunal Regional Eleitoral). A tenente aponta abuso de poder por parte do presidente do PL nacional, Valdemar Costa Neto, e do líder do partido no Amapá, Alex de Almeida Pereira.

Procurados pela Folha, o PL nacional e estadual não responderam aos pedidos de comentário.

Fidelidade a Bolsonaro

Waiãpi afirma que os colegas de partido sentem “ciúmes” de sua campanha e, por isso, usam o fundo partidário e o horário eleitoral gratuito para atrapalhar sua candidatura.

Ela ainda explica que as propagandas eleitorais da legenda estão sendo custeadas por uma produtora paga por Alcolumbre e que, por isso, ela decidiu gravar seus materiais em outro lugar. Ao ver que os conteúdos não estavam sendo veiculados, a tenente enviou uma mensagem de WhatsApp – anexada ao processo – para os dirigentes do PL. "Silvia, você não apoia o Clécio e o Davi [...] caso queira pedir votos para os dois, a produtora deles está de portas abertas", respondeu o deputado federal Vinicius Gurgel (PL-AP).

"Eu sou fiel ao Jair Messias Bolsonaro. Acabei sofrendo represália porque eu não quis apoiar uma pessoa que era adversária do meu presidente [Davi Alcolumbre] e muito menos um candidato de esquerda [Clécio Luis]", afirma Waiãpi à Folha.

No processo, ela também destaca que o partido ignorou a proporcionalidade entre as candidatas mulheres, já que distribuiu R$ 1 milhão do fundo partidário a Sonize Barosa – esposa do presidente da Assembleia Legislativa do estado, Kaká Barbosa (PL) – e R$ 500 mil a Mariana Souto. Já Waiãpi recebeu R$ 126 mil.

"Eu não posso ser segregada por ser amapaense, indígena e, principalmente, fiel a Bolsonaro; e não aceitar me envolver com o que possa perdurar os métodos de corrupção que acontecem dentro do estado", defende.

Passagem pela política

No fim de 2018, Waiãpi entrou para a equipe de transição de Jair Bolsonaro, eleito naquele ano. Inicialmente, foi secretária nacional de saúde indígena e, posteriormente, foi nomeada conselheira de promoção da igualdade racial, cargo que é vinculado ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, à época comandado por Damares Alves (Republicanos).

Veja as últimas pesquisas eleitorais para presidente:

Apesar das críticas a Bolsonaro feitas por entidades indígenas, devido ao afrouxamento de regras ambientais e por sua posição contra a demarcação de terras, a tenente seguiu apoiando o atual presidente.

Waiãpi nasceu no Amapá, mas ainda jovem foi para o Rio de Janeiro, onde se tornou moradora de rua. Entrou para as Forças Armadas, foi atleta do Vasco e chegou a trabalhar como atriz nas novelas da Globo antes de sua atuação na política.