Candidatos na eleição de 2020 destinaram ao menos R$ 16 milhões para empresas de filiados do próprio partido

Pedro Capetti
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RIO - Os candidatos na eleição do ano passado destinaram ao menos R$ 16 milhões para empresas de filiados do próprio partido. É o que aponta um levantamento feito pelo GLOBO com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e da Receita Federal. A lista de pagamentos inclui ex-políticos, antigos aliados, familiares e amigos, muitas vezes pagos com dinheiro público do fundo especial de campanha.

Há registro desse tipo de contratação em 29 dos 33 partidos ativos atualmente. Ao menos 1.494 políticos e empresários foram beneficiados com esses recursos e, em alguns casos, os serviços podem não ter sido prestados.

A lista inclui aluguel de casas, contratação de escritórios de advocacia, gráficas, postos de gasolina, assessoria de contabilidade, produtoras de conteúdo e outros. Nem sempre a contratação segue o menor preço.

Responsável por uma das maiores fatias do fundo eleitoral e partidário, o PT é o principal partido na contratação de empresas de próprios filiados. Na última eleição, R$ 3,99 milhões foram pagos em serviços gerenciados ou administrados por pessoas ligadas à legenda.

O maior recebedor é o empresário Otavio Augusto Antunes da Silva, que disputou eleições pelo partido em 2000 e 2004, além de ter sido assessor parlamentar na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), entre 2005 e 2016. Através da sua empresa, Urissanê Comunicações, ele recebeu R$ 2,5 milhões. Silva atuou na campanha à prefeitura de quatro candidatos, entre eles Jilmar Tatto, em São Paulo, e João Coser, em Vitória. A empresa é a principal contratada pelo PT. Em 2019, recebeu cerca de R$ 5,5 milhões do fundo partidário para executar a comunicação da legenda.

O PT sustenta que o montante, comparado às despesas totais do partido nas eleições, “demonstra claramente que não há suposto privilégio de filiados”. Segundo o partido, todas as despesas e serviços prestados são confirmados e declarados à Justiça Eleitoral, e não há orientação nesse sentido entre os correligionários.

O gasto do PT com empresas de filiados do próprio partido é o dobro do segundo colocado do ranking, o PSD, com R$ 1,9 milhão. Em Ilhéus (BA), o prefeito reeleito Mario Alexandre (PSD), o Marão, investiu R$ 80 mil no aluguel de oito carros, uma caminhonete e uma van, às vésperas da eleição, na empresa de um filiado em Conceição de Coité (BA), distante 478 km da cidade.

A empresa foi fundada em agosto de 2020 e, segundo dados da Receita Federal, tem como atividade-fim a locação de mão de obra. Procurado, o advogado do prefeito disse que não tinha conhecimento que a empresa pertencia a um filiado do partido e que a escolha se deu por dificuldade de alugar carro na região:

— A coisa mais difícil era conseguir carro pra locar, nós tínhamos uma necessidade de 4x4 e picape. Não encontramos empresas pra locação. É uma notícia que traz surpresa, não conhecia a vinculação. Ter contratado com essa empresa não foi partidário.

Mais de 85% das cidades

Em Coroatá (MA), o ex-deputado federal e ex-prefeito Ricardo Murad (PSDB) destinou mais de R$ 85 mil ao posto de gasolina da filha, Andrea Murad, também filiada ao partido. O gasto foi cinco vezes maior que a segunda despesa na campanha do político à prefeitura. Murad foi procurado por telefone, em sua conta pessoal no Facebook e WhatsApp, mas não respondeu.

Em Cruzeiro do Sul (AC), a campanha do emedebista Fagner Sales investiu R$ 160 mil em serviços de advocacia do presidente do partido e ex-deputado estadual, Jonathan Xavier Donadoni, e de João Tota Soares de Figueiredo, filho do ex-deputado federal João Tota (AC).

Partidos, empresas e políticos afirmam que a prestação de serviços é regular e que não há impeditivo legal na legislação. Mais de 85% dos municípios brasileiros registraram essa prática na última eleição, englobando cidades de todos os portes.