Candidatos de ultradireita ganham força e exposição em eleições na América Latina

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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Ao fundo, bandeiras dos EUA, do Brasil e da Argentina. À esquerda da imagem, o ex-presidente americano Donald Trump; à direita, o brasileiro Jair Bolsonaro; no centro, em destaque, o argentino Javier Milei, que neste domingo (14) tem boas chances de ser eleito deputado pela cidade de Buenos Aires.

O cartaz era vendido por ambulantes no parque Lezama, onde ocorreu o comício de encerramento da campanha do economista de 51 anos. Milei chegou ovacionado por um público majoritariamente masculino e jovem. De jaqueta jeans, confundia-se com seus apoiadores, que agitavam bandeiras da Argentina e de Gadsden, com uma cobra, hoje um símbolo do ultraconservadorismo nos EUA.

Embora ainda seja um fenômeno limitado à capital, a ascensão dos chamados "libertários" vem chamando a atenção ao roubar votos da centro-direita e turbinar as críticas ao peronismo que comanda o país.

Sob a inspiração de Trump e Bolsonaro, outros nomes se projetam no cenário eleitoral da América Latina. No Chile, o pinochetista José Antonio Kast, 55, lidera as pesquisas com uma agenda antiglobalista, anti-imigração e focada na segurança --a maior preocupação dos chilenos, segundo o instituto Pulso Cidadão.

A ascensão de Kast parece surpreendente num país onde grandes protestos iniciados em 2019 pediram a troca do modelo político-econômico neoliberal e um plebiscito definiu a reformulação da Constituição.

"O que estamos vendo é a reação de chilenos que resistem a uma mudança profunda no Chile", afirma o analista político Fernando García Naddaf. "Tinha um mal-estar no país havia mais de uma década, parecia que nada mudava, mas agora estamos vendo que uma transformação tectônica está ocorrendo. Como toda transformação gera medo e inquietação, Kast responde a esse setor da sociedade."

Kast foi candidato em 2017 e não chegou ao segundo turno, obtendo 7,9% dos votos. Na época, ficou conhecido por evocar o ex-ditador chileno ao afirmar que, se estivesse vivo, Pinochet votaria nele.

Católico, posiciona-se contra o aborto e a diversidade sexual. Nos últimos meses, alcançou a liderança das sondagens para o pleito presidencial que ocorre no próximo dia 21, com mais de 25% das intenções de voto. Segundo projeções recentes, deve disputar o segundo turno com o esquerdista Gabriel Boric.

Em discursos e debates, Kast destaca o apoio a uma política de segurança linha-dura contra os grupos indígenas mapuche, que defendem a soberania dos povos originários do Chile e, por vezes, provocam protestos violentos. Assim como Trump, o candidato quer a construção de um muro, desta vez para tentar deter a entrada de imigrantes venezuelanos e haitianos pelo norte do país, na fronteira com a Bolívia.

"Num mundo em que o trabalho está escasso, impactado pela pandemia, esse discurso atrai uma classe média mais conservadora, que tem medo de perder dinheiro", afirma o analista Cristóbal Bellolio.

No Uruguai, o general da reserva Guido Manini Ríos, 63, hoje senador, representa um dos importantes apoios políticos do governo de Luis Lacalle Pou. De uma família com tradição na política, com avós e tios que ocuparam cargos em governos do Partido Colorado, Ríos é o fundador do Cabildo Abierto, legenda que reivindica o legado do herói da Independência, José Artigas.

Depois de uma carreira militar, atuando em missões no Irã, no Iraque e em Moçambique, foi escolhido pelo ex-presidente José "Pepe" Mujica em 2015 para comandar o Exército. Desde então, começou a construir seu perfil mais radical à direita, defendendo anistia a militares e desencorajando buscas por desaparecidos e julgamentos de responsáveis pela repressão na ditadura uruguaia (1973-1985).

A curiosa relação de Ríos com a esquerda dos Tupamaros, agrupação da qual Mujica foi parte, é nebulosa, mas passa pela história da luta armada, que teve início antes mesmo do regime militar.

Num período de extrema violência, no começo dos anos 1970, tupamaros e membros de grupos como os Tenentes de Artigas, da qual o hoje senador fazia parte, cultivavam um profundo sentimento nacionalista.

As agendas, porém, eram bem diferentes: os tupamaros queriam uma revolução socialista, enquanto os militares chegaram ao poder por meio de um golpe.

Católico, Ríos é contra os avanços em políticas de direitos civis promovidos pelos governos da Frente Ampla (2005-2020), como a lei do aborto, da regulamentação da maconha e do casamento homossexual.

Em 2019, foi candidato à Presidência e obteve 11,04% dos votos no primeiro turno. No segundo, apoiou o atual líder do Uruguai, Lacalle Pou, de centro-direita, contra o frente-amplista Daniel Martínez.

Mais recentemente, esse fenômeno deu as caras também no Peru, onde o empresário evangélico Rafael López Aliaga, 60, quase conquistou os votos necessários para ir ao segundo turno.

Celibatário desde os 19 anos, Aliaga fez da luta contra a chamada "ideologia de gênero" e a corrupção sua principal bandeira, defendendo a expulsão da empreiteira brasileira Odebrecht do país. Acabou em terceiro lugar, com 11% dos votos, atrás do atual presidente, o esquerdista Pedro Castillo, e de Keiko Fujimori.

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