Candidatura de Alckmin esbarra em dificuldades de comunicação e resultado ruim em pesquisas

Por Marina Ogawa

A poucos dias da convenção que definirá o nome do PSDB para a disputa pela Presidência, é dado como certo – ao menos pela maioria dos políticos e analistas – que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin será o candidato ao Palácio do Planalto.

Já definido que se desincompatibilizará do cargo no dia 07 de abril, o tucano tem algumas dificuldades pela frente: baixa intenção de votos em pesquisas e falta de carisma.

Além disso, apesar de sua candidatura parecer óbvia para alguns, ele terá pela frente ainda a determinação do prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, que quer prévias no partido para a definição do nome que disputará a sucessão de Michel Temer.

Aparentemente sem grandes alternativas aos dois nomes citados, a maioria do PSDB aposta que o presidente nacional do partido vencerá as prévias e superará o fator “pesquisas eleitorais” para conseguir chegar ao cargo mais alto da República após mandatos consecutivos como oposição ao Governo.

Falta de carisma e falhas na comunicação

O prefeito de Manaus foi direto ao falar sobre o companheiro de partido, e nítido rival nas prévias: “eu não vejo que ele seja eleito. Ele deveria acordar para isso. Ele é muito fraco. Quando ele fala que não é showman e não tem carisma, é porque ele simplesmente não é carismático. Ele não consegue”.

Já o também pré-candidato à Presidência pelo Podemos, senador Álvaro Dias, evitou opinar sobre a falta de simpatia do governador, e deixou claro que é preciso ter uma capacidade de comunicação e empatia: “é imprescindível para se ganhar eleição, estão aí os indicativos”.

Mas é na comunicação que está a falha de Alckmin, segundo o cientista político Valdir Pucci. “Ele tem dificuldade de falar, primeiro com a população mais carente, sua forma de se empostar, de falar, ainda mais se concorrer com candidato mais verborrágico na sua forma de falar, de lidar. Acho que essa comunicação do Alckmin é prejudicial a ele”, explicou.

Sócio da Tendências Consultoria, o cientista político Rafael Cortez foi contra a ideia de que o carisma faça diferença na disputa eleitoral. Para ele, a variável é superestimada e “tem efeito menor que a definição da estrutura da competição política”.

Há ainda as divergências quanto às falas do governador paulista como presidente nacional do partido, como citou Arthur Virgílio: “Geraldo fechou questão em cima da reforma da Previdência, mas depois disse que não ia haver punição. Então ele não fechou questão, ele abriu questão. Não sei se vai cortar sobremesa dos deputados. É nisso que o povo não vai votar”.

Estagnação com baixa intenção de voto

Nas últimas pesquisas, Alckmin tem aparecido atrás de nomes como Jair Bolsonaro (PSC), Lula (PT) e até mesmo de Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT).

O diretor do Instituto Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, indagou, entretanto, se o PSDB teria outra alternativa, e disse que só seria possível se o partido buscasse um nome novo, já que nem o prefeito João Doria e nem o senador José Serra disputarão as prévias. “Tem Arthur Virgílio, que está tentando disputar, mas tem pouca densidade eleitoral. Não conseguimos enxergar um nome no PSDB para colocar nas pesquisas e gerar mais votos que o Geraldo Alckmin”.

Para Hidalgo, a insistência na candidatura de Alckmin está na aposta de que o ex-presidente Lula cairá na Lei da Ficha Limpa após sua condenação ser confirmada em segunda instância no TRF4 e que Bolsonaro não conseguirá manter a dianteira até a eleição. Mas, para ele, uma troca poderia existir. Um dos nomes que foram citados foi o do apresentador da TV Globo Luciano Huck. Entretanto, nos últimos dias, este afirmou que não sairia como candidato à Presidência.

Para Cortez, a aposta do PSDB em outro nome não necessariamente traria resultados diferentes dos vistos pelos tucanos neste momento: “essa é uma eleição que relativiza a importância das pesquisas sob o ponto de vista da cristalização da preferência dos eleitores. Ela é naturalmente muito importante, ajuda a dar barganha política, mas os nomes da centro direita enfrentam dois dilemas que vão levar a resultados negativos. Primeiro, é a pequena avaliação do Governo, que tem muita rejeição, o que abre espaço para oposição. O segundo grupo de efeito é o sentimento de desgaste da política tradicional”.

Vale ressaltar ainda que pesquisas recentes não mediram o impacto da condenação do ex-presidente Lula em segunda instância, como reforçou Valdir Pucci. Para ele, as pesquisas são confiáveis no sentido de que veem um momento da análise e, como a campanha ainda está longe de seu início, “o cenário hoje descrito por elas é momentâneo, o que pode inverter com o passar do tempo”.

“Não posso dizer que os números hoje de uma pesquisa vão representar o resultado de uma eleição presidencial que acontecerá em outubro”, lembrou Pucci.

Aposta em legado e na boa administração em São Paulo x Crítica da oposição

Valdir Pucci avaliou que Alckmin deveria ser forte e incisivo na defesa de seu legado: “ele não deve repetir os erros de 2006 quando se acovardou, foi para o ringue e deixou-se ser atacado sem se defender ou até mesmo defender o legado anterior”. Para o cientista político, o tucano deve mostrar em sua campanha que pode garantir a continuidade de ganhos sociais, mas com mudança na defesa dos legados defendidos pelo PSDB.

A favor de uma agenda reformista, Alckmin sofre ainda por conta do contexto político. A rejeição alta ao Governo Temer e o sentimento de desgaste da política tradicional devido às constantes denúncias de corrupção ainda são pontos a serem superados pelo atual governador do Estado.

“PSDB e Alckmin, em particular, enfrentam esses dois tipos de desafio (…) O problema menor do PSDB é o Alckmin, o maior foram as escolhas partidárias que deixaram o partido com custo associado à má administração com rejeição elevada, somado ao fato de que o partido também não resistiu à crise de representação, sobretudo por conta das acusações envolvendo o senador Aécio Neves”, explicou Rafael Cortez.

Mas o sócio da Tendências Consultoria ponderou: “Alckmin é aquele, no PSDB, que pelo menos tem algum potencial decorrente do bom desempenho em São Paulo (…) Acho que ele não tem desempenho ruim, ele teve desempenho eleitoral bastante significativo em 2006, mas com erro estratégico do primeiro para o segundo turno”.

Apesar dos elogios ao seu desempenho no governo de SP, o que poderia ajudá-lo na candidatura ao Planalto, Alckmin sofre com a oposição forte no Estado. Deputados petistas criticam o “legado” do governador e mantêm apostas no ex-presidente Lula – mesmo que condenado em segunda instância – e reforçam que farão o que for necessário para que o partido saia com o petista como candidato a um terceiro mandato.

*A reportagem tentou contato com o governador do Estado, Geraldo Alckmin, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem