Canibalismo é instrumento de terror para cartéis mexicanos, diz antropólogo chileno

Quando o antropólogo chileno Claudio Lomnitz, de 65 anos, propôs o canibalismo como parte de sua série de palestras no prestigioso Colégio Nacional, a equipe da instituição cultural e científica mexicana ficou insegura e quis saber se a abordagem que o professor daria ao assunto seria histórica. Mas não era exatamente sobre o passado que ele queria falar. O antropólogo mostraria a ingestão de carne humana como um fenômeno antropológico que diz algo sobre as sombras do México contemporâneo. “É realmente um acontecimento muito atroz, mas que não é suficientemente compreendido”, assegura.

Tráfico: Polícia apreende US$ 25 milhões em drogas com donos de 'narcotúnel' na fronteira entre EUA e México

Veja fotos: Polícia descobre 'narcotúnel' de 300 metros que ligava os EUA ao México

'A Chefa': Exército do México prende mulher de El Mencho, o traficante mais procurado do país

O membro do National College e professor da Universidade Columbia, nos EUA, se propôs a refletir sobre um "novo canibalismo" presente no país desde a década de 1980 e ligado aos narcotraficantes. A prática é, segundo Lomnitz, uma forma de selar um "pacto de lealdade" dentro das quadrilhas do crime organizado e de assustar os inimigos.

— O canibalismo se tornou um instrumento de terror e de competição entre os cartéis de drogas — explica o antropólogo, que cresceu na Cidade do México.

O ponto de partida Lomnitz é o caso dos Narcosatânicos, que ocupou as primeiras páginas nos anos 1980. Esse grupo criminoso, que operava em Matamoros e na Cidade do México, sacrificou e desmembrou dezenas de pessoas. Com as partes mutiladas, realizavam rituais em que se bebia um caldo que prometia invisibilidade perante as balas. Seu líder, Adolfo Constanzo, era um feiticeiro cubano-americano ligado ao Cartel do Golfo que aprendera o culto de Palo Mayombe com sua mãe.

No México: Guerra às drogas deixa 39 mil corpos sem identificação em necrotérios

Vídeo: Perseguição no mar que terminou na apreensão de 3 toneladas de cocaína no México

Em 1989, o grupo sequestrou um estudante americano, Mark Kilroy. A pressão dos EUA levou as autoridades mexicanas a apertar o cerco. Durante uma operação antinarcóticos, a polícia descobriu 12 corpos enterrados em covas em um rancho, vários esfolados, incluindo o de Kilroy. No complexo havia também um santuário, um caldeirão ritual com sangue e miolos humanos queimados e um barril onde algumas das vítimas pareciam ter sido cozidas. Constanzo e seu amante morreram alguns meses depois na Cidade do México em um tiroteio com a polícia.

Os Narcosatânicos dividem em duas eras a prática do canibalismo no México. Lomnitz distingue este caso de outros, como sociopatas agindo por conta própria ou marinheiros à deriva forçados a comer restos humanos, ou o apetite do muralista Diego Rivera por esse tipo de comida como uma dieta saudável e exigente do México pré-hispânico. Pelo contrário, nos Narcosatânicos não houve desespero nem foi uma ação puramente individualista.

Mais: México intensifica patrulhamento da zona de Cancún por violência de gangues

Veja vídeo: Tiroteio entre gangues deixa dois mortos e um ferido em resort de Cancún

Para Lomnitz, esse "novo canibalismo" buscava selar a cumplicidade e o silêncio dentro de uma rede de crime organizado. O dinheiro e a ameaça não foram suficientes para alcançá-lo; era necessário um elemento cultural ou psicológico.

— Os Narcosatânicos são outra coisa. Trata-se de sacrifícios humanos, mas a serviço de uma organização criminosa. Não há precedente, que eu saiba, na história do México — diz.

Com base em depoimentos de narcotraficantes e de pessoas próximas a Constanzo, o antropólogo acredita que o chefe e um dos clientes do feiticeiro era o líder paranoico do Cartel do Golfo, Juan García Ábrego.

Centralização

A ascensão da seita ocorre em um contexto particular, justamente quando os cartéis mexicanos unem forças com os colombianos para traficar cocaína para os EUA. Vinte anos antes do início da guerra às drogas, o Estado, enfraquecido e incapaz, já está sobrecarregado pelo crime organizado.

— É um Estado que se caracteriza por muita centralização, muita ênfase na soberania e muito pouca capacidade de regular a economia ilícita e de usar a violência para regulá-la. Essa retirada de certas funções clássicas do Estado deixa o campo aberto para essas organizações — explica Lomnitz.

Vídeo: Cartel de drogas do México ameaça jornalista de morte

Perseguição: Jornalista é assassinado no Sul do México, o quinto este ano no país

Contexto: Mexicanos marcham em dezenas de cidades em protesto contra agressões e assassinato de jornalistas

Os Narcosatânicos são os precursores, segundo essa análise, de uma prática que se difundiu nas últimas décadas, chegando até os dias atuais. Em agosto de 2020, o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) divulgou um vídeo em que um assassino encapuzado come o coração de um membro de um cartel inimigo.

—Nós vamos exterminar todos eles! — comemoram outros traficantes de drogas, de acordo com alguns relatos da mídia.

Intimidações

O CJNG, considerado o grupo criminoso mais poderoso do momento, está acostumado a fazer demonstrações públicas de força, como desfiles com armas de alto calibre, para intimidar as autoridades ou adversários.

Leia mais: México processa 11 empresas nos EUA por facilitarem tráfico de armas

Lomnitz vê no vídeo do CJNG um sinal de que a prática canibal do narcotráfico evoluiu desde suas origens na década de 1980.

—Embora os rituais dos narcosatânicos fossem altamente secretos, a evolução foi para o uso do canibalismo como instrumento terrorista. O vídeo do CJNG é um ato público de intimidação de um grupo para outro. São peças que começam a ser adotadas competitivamente entre os cartéis —diz.

Sugestão: 'Única solução para a violência é legalização de todas as drogas', diz ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos

No entanto, o canibalismo vai além de sua utilidade terrorista e mergulha no metafísico. Por trás disso, há também uma “comunhão” em torno de uma moral paralela, separada da sociedade e do Estado, diz Lomnitz.

— Nesses lugares onde estão forçando os membros a transgredir um aspecto muito básico de certas ideias de civilidade para entrar, a sensação é de que está sendo feito um corte com a moral da sociedade e do Estado —diz.

O sacrifício humano foi, lembra Lomnitz, um elemento importante do México pré-hispânico até que a missão "civilizadora" dos conquistadores cristãos o desmantelou. No entanto, ele descarta que esse tipo de canibalismo não tenha nada a ver com o retorno às raízes astecas, mas com a ascensão do crime organizado e a retirada do Estado.

—Tenho certeza de que alguém vai dizer que isso está relacionado à genealogia asteca —prevê.

Crime: Tiroteio em arena de briga de galo deixa ao menos 20 pessoas mortas no México

Será que a proximidade do Colégio Nacional com o Grande Templo dos astecas lhe causou uma certa superstição. Ele brinca:

—Espero que os mortos não se levantem falando de sacrifícios humanos.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos