Cansada experiências ruins, publicitária cria sex shop para lésbicas e bissexuais

Loja foi criada com o objetivo de dar atenção necessária a esse público. Foto: Arquivo Pessoal

Durante um bate-papo entre duas ex-namoradas sobre experiências de compra ruins em sex shops a publicitária Marcia Soares, de 34 anos, teve a ideia de criar uma loja apenas voltada para lésbicas e bissexuais. Tudo começou como um tipo de brincadeira, mas virou coisa séria em agosto de 2011.

Foi assim que surgiu a theLvibe, sex shop do Rio de Janeiro com plataforma on-line. O objetivo do comércio é poder dar a atenção necessária para esse público e oferecer produtos que não são muito encontrados em comércios tradicionais.

Como já trabalhava com e-commerce, Marcia decidiu largar seu emprego e focar apenas no novo negócio. Hoje, a loja é muito querida entre mulheres lésbicas e bissexuais, mas também atende héteros que estão cansadas do prazer com uma lógica falocêntrica.

“Nós, mulheres, quando meninas, crescemos sem qualquer estímulo para que conheçamos nossos corpos. Muito pelo contrário, somos reprimidas. Posso apostar que minhas avós não souberam o que é um clitóris, afirma Marcia.

Leia a entrevista completa:

De onde veio a ideia de abrir a loja?

Marcia Soares: A ideia veio sem nenhuma pretensão, em um dia qualquer, em um bate-papo entre duas ex-namoradas. Isso era 2011 e falávamos sobre nossas experiências de compra ruins em sex shops. Como a gente já trabalhava com computação e e-commerce, pensamos em “brincar” de criar uma loja melhorando a experiência de compra para mulheres lésbicas e bissexuais. A “brincadeira” ficou séria bem rápido e em pouco tempo eu saí da agência de publicidade para trabalhar só com a theLvibe. A minha sócia trabalha com exclusividade na outra empresa dela. Somos ex-namoradas amigas até hoje e ela está sempre disponível para qualquer assunto da theLvibe.

Acha que as lojas pensam pouco em mulheres lésbicas?

Marcia: Sim. Em 2011, enquanto éramos clientes, a falta de um atendimento que nos representasse foi um dos principais pontos negativos de nossas experiências de compra nesse mercado de sex shops. O mercado melhorou de lá pra cá em relação à comunicação com mulheres lésbicas e bissexuais? Sim, muito. Mas como vivemos em uma sociedade heteronormativa, a grande parte da comunicação/marketing das lojas e fabricantes são direcionadas a mulheres heterossexuais.

Se a mulher não for lésbica, pode fazer uso dos produtos?

Marcia: Sim! A maioria dos sex toys podem ser usados por mulheres que fazem sexo com homens ou com mulheres, além de poderem usar produtos sozinhas. Produtos que são direcionados e/ou mais vendidos para mulheres lésbicas, como por exemplo as cintas, também são usados por mulheres heterossexuais com seus parceiros homens. Nós temos muitas clientes heterossexuais que se identificam com a loja porque são lesbian friendly e/ou porque gostam do atendimento, do serviço, das explicações sobre os produtos, além de também quererem apoiar a loja.

Qual é o diferencial?

Marcia: Como dedicamos a loja à mulheres lésbicas e bissexuais, temos mais opções de cintas do que outras lojas. Já as outras lojas tem, por exemplo, várias opções de bombas penianas e estimuladores de próstata e a gente não. De toda forma, criativas que somos, é possível uma mulher usar um estimulador de próstata como estimulador anal ou vaginal. Sex toy é bom pra todo mundo. Com mais de 18 anos, claro.

Acha que mulheres lésbicas procuram mais qual tipo de produto? Qual a forma de prazer que elas procuram?

Marcia: Além de gel/lubrificante, que é um produto bem procurado por ser um sex toy com ótimo custo-benefício, a cinta é o produto mais procurado por aqui. Aqui no Brasil é muito difícil encontrarmos cintas bacanas, seguras, confortáveis e por um bom preço. A maioria das cintas produzidas no país vem sempre com uma prótese realística em formato de pênis. Lamento informar, mas não é todo mundo que gosta de pênis (risos). A gente costuma brincar que algumas cintas que testamos e reprovamos foram certamente criadas por homens cis e heterossexuais.

Acha que as lojas focam muito em objetos fálicos que não satisfazem o principal órgão de prazer da mulher?

Marcia: Nossa, focam muito! Chega a dar raiva. Mas o mercado está mudando bastante, graças ao feminismo. Os fabricantes e as lojas estão aprendendo que sexo não é só penetração, absolutamente. De uns cinco anos pra cá estão sendo lançados no Brasil muitos produtos dedicados à estimulação do clitóris. Somos muitas mulheres estudando e trabalhando para levar prazer e informação a outras mulheres.

Por qual motivo acha que isso acontece?

Marcia: Nós, mulheres, quando meninas, crescemos sem qualquer estímulo para que conheçamos nossos corpos. Muito pelo contrário, somos reprimidas. Posso apostar que minhas avós não souberam o que é um clitóris. E quantas mulheres hoje ainda não sabem? Quantas mulheres são reprimidas sexualmente a ponto de não saberem que o clitóris tem mais de 8 mil terminações nervosas e é o nosso principal órgão de prazer?

No que a sua loja se diferencia das outras?

Marcia: Uma de nossas propostas é ter um catálogo de produtos enxuto. As pessoas têm muitas dúvidas sobre sex toys, então, se você disponibiliza um número alto de produtos com características bem semelhantes, as clientes ficam com muito mais dúvidas e indecisas sobre qual produto adquirir. Nós também testamos os produtos antes de entrarem no nosso catálogo. Outro ponto diferente é que faço tudo por aqui. Todas as etapas de funcionamento da loja são feitas com um amor tão grande que nem sei explicar. E como não há um fluxo de tarefas entre setores e funcionárias na empresa, eu posso, por exemplo, oferecer um atendimento mais individualizado a cada cliente que faz contato.

Vocês já vetaram um produto?

Marcia: Já aconteceu mais de uma vez de lançarem sex toy com um apelo de marketing muito forte, as sex shops todas vendendo e a gente decidindo não vender porque o produto não oferece o que promete, é caro e ainda tem uma qualidade questionável. Também não entram na loja produtos como géis/lubrificantes/cosméticos super famosos, campeões de vendas nas lojas, mas que são produzidos e comercializados sem os registros sanitários necessários.

Como as mulheres reagem à loja? Ficam animadas em saber que existe uma dedicada a elas?

Marcia: Sim, recebemos mensagens emocionantes! Aquele apoio que dá forças pra continuar. E mulheres relatando ainda hoje as mesmas dificuldades para comprar sex toys que tínhamos por aqui há oito anos. E “vibrando” porque encontraram a nossa loja.