Cantor Jau é barrado por 'dress code' em restaurante de Salvador e alega racismo: 'Faltava-me talvez olhos azuis e cabelos loiros'

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SALVADOR — O que era para ser apenas um jantar, na noite desta quinta-feira (2), em Salvador, na Bahia, acabou se transformando em desentendimento por conta de um código de vestimenta e acusação de racismo. Eram por volta das 22h43 quando o cantor baiano Jau decidiu parar no badalado restaurante Sette, acompanhado de outras três pessoas. Ainda no wallet, teria recebido orientação do manobrista de que não conseguiria entrar no local por conta do dress code da casa. Na mesma noite, após insistir sem sucesso para entrar no estabelecimento, ele gravou um vídeo nas redes sociais, onde contou ter sido vítima de racismo, não por sua roupa ou a de quem o acompanhava, mas pela sua cor.

Logo na porta, ao lado de orientações importantes, como a obrigatoriedade do uso de máscara e a proibição de entrada para menores de 18 anos, o cliente do restaurante, inaugurado em agosto deste ano, mas que já virou uma espécie de point da elite soteropolitana, já encontra a placa do dress code. Segundo ela, boné, biquini, camiseta regata (de mangas curtas) e chinelo são proibidos dia e noite. Já a bermuda, é item não tolerado durante a noite.

O restaurante nega que tenha acontecido qualquer episódio racismo, e afirma que o cantor de MPB, que tem mais de 224 mil seguidores no Instagram e 87 mil ouvintes mensais no Sporify, teve o acesso permitido após colocar um paletó por cima da blusa regata, mas que acabou desistindo porque estava acompanhado de um rapaz que estava de bermuda jeans e boné — itens proibidos pela casa.

— Com toda humildade do Planeta Terra, acho que um cidadão vestido dessa forma pode entrar em qualquer ambiente, independente da cor dele. Ele, vestido dessa forma, só pode ser barrado num ambiente se houver algum problema racial — disse Jau na gravação. — Ou se houver algum problema de índole, ou se houver algum problema com a pessoa, que não émeu caso. E eu ainda sou artista da terra.

Indignado, o cantor diz acreditar que, se fosse branco, loiro e de olhos claros, teria sido atendido pelo restaurante, e, além da acusação de preconceito, afirma que teve seu direito de ir e vir privado pela casa.

— Fui no restaurante Sette e fui barrado, impedido de entrar porque estava vestido assim — disse, mostrando sua roupa no vídeo. — Não, gente, não é a indumentária. Faltava-me talvez olhos azuis e cabelos loiros. Não os tenho. Não culpo quem os tem, mas não quero ter. Mas preciso da minha liberdade de ir e vir. Hoje, o restaurante Sette foi preconceituoso comigo e com a minha equipe, não deixando a gente adentrar no espaço. Então, não é um lugar democrático, frequentável, é um lugar racista.

Nesta sexta-feira (3), O GLOBO tentou entrar em contato com Jau, mas não obteve resposta. Os donos do restaurante Sette, os empresários Steve Saback e Lucas Queiroz, indicaram o advogado Rodrigo Machado como porta-voz do estabelecimento. Segundo ele, o restaurante possui um código de vesimenta por se tratar de um lugar "um pouco mais fino" e que, à noite, se transforma numa espécie de balada.

— O nosso restaurante tem um código de vestimenta, algo que é normal em capitais como Rio, São Paulo, e em restaurantes um pouco mais finos. Ontem, o cantor esteve aqui, devidamente trajado, não tinha problema com ele, mas havia mais três pessoas que o acompanhavam e, desde o momento em que ele chegou, o manobrista já havia orientado: "A casa não permite que se entre de bermuda, boné e sandália" — narrou o advogado. — Ele tentou argumentar, dizendo que não tinha problema. Dentro do estabelecimento, a recepcionista e o segurança disseram que não seria possível que esse rapaz de bermuda entrasse, porque o nosso código não permitiria. É uma regra que vale para todos, não vale para anônimo e deixa de valer para famoso. Inclusive, foi com muito espanto que a gente se deparou com o vídeo dele alegando que foi alvo de racismo. Os funcionários ficaram extremamente chocados com essa declaração.

Segundo o representante do restaurante, os ânimos não chegaram a crescer durante a confusão. Questionado, disse que, por enquanto, não foi notificado sobre qualquer processo do artista em relação ao estabelecimento e, também, que tampouco houve ação para processar o cantor pela gravação. O advogado acrescentou que a regra existe porque o local tem uma "proposta diferente", de funcionar como uma espécie de boate após determinado horário.

— Não houve discussão, de forma alguma. As imagens de câmeras de segurança mostram isso — afirmou Machado. — Nós divulgamos amplamente essa questão do dress code, está em destaque na nossa rede social, e há, na porta do restaurante, uma placa informando sobre. O conceito do nosso restaurante é um pouco diferente. Não é um local apenas para você sentar e comer à noite, ele vira depois uma balada. E, por esse motivo, a gente opta por colocar um regramento para que não fuja do controle. É uma situação que é muito chata para o estabelecimento e, também, para um artista do calibre do Jau, que a gente tem muito respeito e admira muito. A gente não entende porque ele fez esse vídeo.

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