Cantora lança EP que fala sobre identidade de gênero e Aids

Giorgia Cavicchioli
“A arte é um importante espaço de disputa política”, afirmou cantora. Foto: Andrey Haag
“A arte é um importante espaço de disputa política”, afirmou cantora. Foto: Andrey Haag

Com o EP A carne, a língua, o vírus, a cantora Maria Sil quer apresentar um manifesto sobre travestilidade e Aids no Brasil de 2019. No trabalho, ela apresenta performances visuais para propor reflexões sobre a construção social da Aids e o papel da imprensa na criminalização dos corpos trans e que vivem com HIV/Aids.

Em entrevista ao Yahoo, a cantora diz que a arte é um trampolim para que discussões políticas importantes aconteçam na nossa sociedade. “Vivemos nesta estrutura social racista, transfóbica e também sorofóbica. Acredito que a arte é um importante espaço de disputa política, um lugar para refazer os imaginários criados sobre os corpos minorizados em direitos, um lugar de tomada de posse e também de normatizar estas vidas, torná-las possíveis”, explicou.

Segundo a cantora, é importante que alguns estigmas sejam quebrados sobre pessoas trans e que vivem com HIV/Aids. Para ela, o mais importante é que as pessoas recebam as informações corretas e sem preconceitos.

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Me conte um pouco como foi o processo de criação do EP.

Maria Sil: Lancei meu primeiro EP (Húmus) em 2017 e, nele, eu já falava abertamente sobre Aids. De lá pra cá, muitos retrocessos relacionados ao tema ocorreram no País, como o fim do departamento de ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), Aids e Hepatites virais. Então, o processo de criação deste EP inicia com uma ânsia de, como Plínio Marcos falava, ser uma repórter de um mau tempo, de dizer sobre o nosso tempo. Assim surgiu a ideia de criar este EP. A partir disso, fui criando junto ao produtor musical Gustavo de Albuquerque, o coprodutor Dom Lino e ao diretor do vídeo Andrey Haag.

Por qual motivo achou importante falar sobre transexualidade e HIV? Por qual motivo você acha que ainda existe tanto preconceito em relação aos dois assuntos?

Maria Sil: Sou uma travesti que vive com HIV/Aids. Não acredito na arte que não pensa o corpo e seu território e o corpo como território. Vivemos nesta estrutura social racista, transfóbica e também sorofóbica. Acredito que a arte é um importante espaço de disputa política, um lugar para refazer os imaginários criados sobre os corpos minorizados em direitos, um lugar de tomada de posse e também de normatizar estas vidas, torná-las possíveis.

Você usa como exemplo desse problema como as narrativas preconceituosas são tratadas pela mídia. Como melhorar essa situação?

Maria Sil: Com o estudo. Recomendo a todo jornalista a leitura do ensaio "Aids e suas metáforas" da escritora e pensadora Susan Sontag. Ela alerta sobre a responsabilidade da mídia na marginalização das pessoas vivendo com HIV. É preciso entender como doenças podem ser usadas como uma plataforma de discurso político e moral.

Você acha que existe uma criminalização de corpos trans na nossa sociedade?

Maria Sil: Há a criminalização, a falta de apoio familiar, o desemprego e a falta de políticas públicas para a emancipação e inclusão das vidas das pessoas transvestigêneres. Há muito a ser feito e a arte é um lugar de dizer: façam!