Capitã Cloroquina, a última novidade nas eleições brasileiras

Carl DE SOUZA, con Rodrigo ALMONACID en Sao Paulo
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Regina Bento Sequeira, advogada de 59 anos e candidata às eleições municipais
Regina Bento Sequeira, advogada de 59 anos e candidata às eleições municipais

Regina Bento Sequeira adotou nomes de heroína para ganhar superpoderes nas urnas. Ela falhou oito vezes. Agora, em sua nona participação eleitoral no país, se autodenomina Capitã Cloroquina, em uma estratégia tão controversa para atrair eleitores quanto o medicamento para supostamente tratar a covid-19. 

Poucos dias antes das eleições municipais de 15 de novembro, Regina, uma advogada de 59 anos, já se reconhece como perdedora. 

"Você tá brincando?", diz, rindo. "Quem vai ganhar? Os mesmos!", conta à AFP de sua casa na Barra da Tijuca, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde concorre ao cargo de vereadora. 

Com poucos recursos para sua campanha e sem o apoio de máquinas partidárias, Regina é uma das muitas candidatas no Brasil que opta por um apelido ou personagem bizarro para ganhar votos nas eleições desse país desigual. 

"Desde que sou candidata, em 2004, sempre procuro chamar a atenção, porque é a única forma de aparecer. (...) Não tenho trabalho político, não tenho apoio, não tenho dinheiro. Por isso eu escolhi esse caminho", afirma a candidata. 

Libertário Punk, Aspirina, Corinthians, Grêmio, Super-Homem, Batman, Mulher Maravilha, Flamengo, Bin Laden, Trump ou Obama também vão disputar neste domingo contra outros 576 mil candidatos pelas 58.208 vagas para vereador e 5.568 prefeito do maior país da América do Sul. 

Antes, o Raio Paralisante, Boca Aberta, Bola de Farinha, Cachorro, Estrela Brilhante, Homem-aranha ou o 'Chegou o papai' fizeram  o mesmo. 

A cientista política da Universidade Federal de Minas Gerais, Nathalia Aguiar, explica que "o fenômeno dos nomes irreverentes poderia ser visto como um sintoma da supervalorização dos candidatos em detrimento das legendas partidárias, favorecendo a personalização da política", acrescenta.

- As mil caras de Zefa -

Antes dessa disputa, em suas fracassadas participações em eleições estaduais e municipais, Regina se apresentou com o nome que utilizou como anfitriã de festas, Zefa, e que adaptou de acordo com o foco de sua campanha. 

Em 2016, optou por "PokéZefa", como o desenho animado Pokémón. Há uma década, decidiu por "Branca Zefa, contra os anões do orçamento", em referência a Branca de Neve e os sete anões. 

Em 2008, utilizou "Zefa das cavernas", com a estética dos Flintstones, para criticar "o atraso" do seu município São João de Meriti, que também tem buscado representar. E em 2006, como "Super Zefa", obteve sua maior votação: 5.713 votos. 

Agora percorre as ruas com um boné policial e um carro conversível no qual expõe suas informações eleitorais. Em uma montagem fotográfica para as redes sociais, circula com a roupa de Capitã Marvel ou recebendo um beijo do presidente de extrema direita Jair Bolsonaro, que afirma adorar. 

"A Cloroquina era o tema mais difundido no momento... todo o mundo estava falando da cloroquina seja negativa ou positivamente. Era o que eu queria", explica. 

Despreocupado com a covid-19, que já deixa mais de 163 mil mortos e 5,7 milhões de infectados no país, Bolsonaro incentivou com insistência o uso do medicamento para tratar o vírus, apesar de não ter eficácia comprovada.

- Tradição -

A especialista em Comunicação Política e Cultura Janaine Aires lembra que a mudança de nomes e sobrenomes é tradição na sociedade brasileira e a lei eleitoral permite. 

"É uma característica da cultura brasileira de tentar ter uma certa aproximação com os nossos interlocutores", diz esta professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 

Mas analistas concordam que não há evidências de que a estratégia de se passar por super-heróis rende votos nas urnas, que eles atribuem à máquina partidária e ao investimento na campanha. 

Regina Sequeira sabe disso, mas apesar das oito derrotas em sequência, continua acreditando que só assim será possível derrotar a classe política. 

"Sempre os mesmos voltam, e cada vez mais malfeitores ocupam as vagas que deveria ser de quem é honesto, altruísta", defende. 

Como Dom Quixote, que luta contra os moinhos de vento, essa mulher diz que continuará concorrendo a cargos políticos enquanto tiver força para fazer campanha nas ruas.

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