'Capitão, é quarta-feira': Como um meme traduziu a exaustão contemporânea

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RIO — Se você é assíduo nas redes, provavelmente já cruzou ou vai cruzar com alguma variação desse meme hoje. E, se você mora no Brasil, a chance de se identificar com ele é grande. A versão mais comum, que anda circulando com força na internet, mostra dois personagens icônicos do cartunista Hergé, Tintin e o Capitão Haddock, batendo papo em um balcão. Um extenuado Haddock desabafa: “Que semana difícil, hein!” Tintin, ao seu lado, corrige: “Capitão, hoje é quarta-feira”.

A trajetória do meme é sinuosa, como acontece sempre nesta seara. Sua origem remonta a uma série cômica dos anos 2000, “30 Rock”, em que Tina Fey e Alec Baldwin travam o mesmíssimo diálogo. Anos depois, alguma alma esperta teve a ideia de colocá-lo na boca dos personagens de Hergé, dando um novo significado a um desenho aleatório do artista belga (este último, que morreu em 1983, não teve a palavra final na apropriação). Com a perda da noção temporal na pandemia, a carga excessiva de trabalho, as preocupações sanitárias e o ritmo frenético das notícias, a piada ganhou tração. É fácil entender o motivo. Afinal, ela traduz um sentimento que vigora na atualidade: a exaustão.

Um dos responsáveis por popularizar o meme é o perfil @whataweekhuh, que se dedica exclusivamente a postar a imagem em questão toda quarta-feira para os seus 212 mil seguidores. Nas últimas semanas, os compartilhamentos passaram de quatro mil para mais de 30 mil.

— A quarta-feira virou o dia oficial do esgotamento — diz o responsável pela conta, que se identifica como Pepelu, um espanhol de Albacete. — Vendo tudo que aconteceu no mundo desde que eu criei o perfil, no final de 2019, dá para imaginar por que as pessoas acham que a semana está demorando para acabar.

Coincidência ou não, a quarta-feira vem ocupando um lugar especial no noticiário internacional de 2021. A invasão do Capitólio, a votação do segundo impeachment de Donald Trump e a posse de Joe Biden aconteceram, respectivamente, nas três primeiras quartas-feiras do ano. Mas, para o pesquisador Aslan Cabral, criador da página de humor no Instagram como Igreja Universsauria, há ainda um outro fator fazendo o “meme da quarta-feira” girar.

— Acho que quem compartilha faz isso quase como se publicar sobre esse cansaço pudesse dar forças para seguir aguentando — diz ele. — Adoro o conceito de “não aguento mais” e ir aguentando.

O meme foi uma forma de a analista de marketing Helô Coltro, 36 anos, extravasar seu esgotamento. No início do ano, o trabalho em excesso lhe rendeu uma Síndrome de Burnout (de esgotamento físico e mental). A identificação com o diálogo de Tintin e Haddock foi tamanha que ela passou a postá-lo toda quarta. A imagem já virou, inclusive, uma de suas figurinhas de whatsapp mais usadas.

— Com a pressão no home office e a quantidade de coisa que preciso fazer no trabalho, a noção de tempo parece que mudou um pouco — conta Helô. — Mil coisas para resolver e ainda é quarta, sabe?

Sua meta de vida agora é “virar” outro meme de quarta-feira: uma cena do longa “Muito prazer” (1979), de David Neves, em que o personagem de Otávio Augusto, um carioca boa vida, interrompe suas obrigações no seu escritório de arquitetura e anuncia: “São quatro horas da tarde de uma quarta-feira, semana praticamente encerrada!”. O vídeo também é compartilhado toda quarta em um perfil do Twitter (@SemanaEncerrada), pontualmente às 16h, como uma espécie de lembrete de que no mundo da malandragem a semana pode, sim, acabar na metade. E sem nos trazer culpa — pelo menos na versão do cinema nacional.

O sonho de semanas mais curtas, aliás, pode não estar tão longe. Há um tempo que o assunto vem sendo discutido a nível global. Em julho, o governo japonês deu uma de Capitão Haddock e recomendou a empresas que reduzissem sua jornada semanal em um dia. Os governantes previam vantagens econômicas e sociais, e até o aumento da taxa de natalidade.

Pesquisador da UFF e coordenador do Museu dos Memes da universidade, Viktor Chagas acredita que a popularidade do meme da quarta-feira é um sintoma do “nível de desesperança e cinismo a que estamos todos submetidos” nos tempos recentes.

— Dizer que há ainda muito por vir implica, de certa maneira, em sugerir que ainda não atravessamos o pior e, portanto, devemos serenar os ânimos — observa. — É uma reação anestesiada e tipicamente cínica de quem não se surpreende com mais nada, pois generaliza os absurdos...

Para o brasileiro, a quarta-feira tem um simbolismo próprio: o encerramento do carnaval. É quando queimamos o boneco do Momo para marcar o fim do divertimento e o início do descanso da Terra, representado pelas cinzas. Como lembra o carnavalesco Milton Cunha, é também um tempo de renascimento.

— A gente morre toda quarta-feira, extenuado — diz Cunha. — Buscamos a colheita e rapidamente vem o período do recolhe, que anda difícil, com tanta coisa ruim acontecendo. Então, sim, vivemos um eterno recomeço de ciclos que duram uma semana, e isso é pouco. É melhor não abreviar. Ou viramos um labirinto finissecular, todo mundo questionando o fim dos tempos.

O carnavalesco completa dizendo que “tudo que queremos é uma quarta-feira de cinzas que não chegará nunca”. Para quem cansou de esperar por ela, o consultor de liderança americano Greg McKeown, que lança no Brasil o livro “Sem esforço” (Sextante), oferece dicas para lidar com o esgotamento. Especialista em “essencialismo”, conceito que propõe priorizar as tarefas certas para poupar tempo, ele indica exercícios diários como fazer listas, criar hábitos e, principalmente, relaxar.

— A maneira mais fácil de reabastecer nossa energia é fazer pausas curtas continuamente — diz McKeown. — Podemos ser como os atletas de performance, que aproveitam os ritmos naturais de seus corpos dedicando as manhãs ao trabalho essencial. O burnout não é uma medalha de honra, e a melhor maneira de navegar neste período de Grande Ansiedade é cuidar de si mesmo, em primeiro lugar.

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