Capitão Guimarães: como o ex-agente da repressão na ditadura se tornou bicheiro e presidente de escola de samba

Desde os tempos de capitão do Exército, quando servia no Destacamento de Operações de Informações (DOI), no Rio de Janeiro, uma das principais unidades da repressão política durante o regime militar, Ailton Guimarães Jorge acumula um histórico de acusações criminais, prisões e manobras jurídicas que terminavam por livrá-lo das grades. Os desvios de Guimarães começaram na segunda metade dos anos 1970, quando ele usou o poder amealhado como agente da repressão para extorquir contrabandistas na Zona Portuária do Rio.

Guimarães, oficial de Intendência, ingressou na repressão política ainda tenente, nos anos 1960, convocado a perseguir sindicalistas, especialmente ferroviários, na Baixada Fluminense. Como o Exército pouco entendia de rua, teve de mobilizar integrantes das polícias Civil e Militar para perseguir, localizar e desbaratar os supostos aparelhos subversivos, apontados na ocasião como responsáveis por descarrilamentos recorrentes de trens na Baixada.

Essa parceria, contudo, inoculou na tropa o vírus na corrupção. Não demorou para que Guimarães, já transferido para o DOI (sediado no batalhão do Exército na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca) fosse cooptado para integrar, junto com alguns dos seus subordinados, uma quadrilha voltada para a prática de extorsão contra contrabandistas.

O crime, basicamente, consistia em apreender a mercadoria irregular (uísque, calças jeans, perfumes e outros produtos importados ilegalmente) e revendê-la aos próprios donos ou a seus concorrentes. Porém, para azar de Guimarães e seus comparsas, eles foram flagrados por uma dupla de PMs, que os denunciou e levou o grupo inteiro para a cadeia. A ação judicial, no entanto, acabaria arquivada por abusos praticados pelos investigadores.

Livre, Guimarães foi transferido do DOI para uma unidade burocrática e pressionado a pedir demissão do Exército em 1981. Não foi um desenlace sofrido. Naquela altura, o então capitão já havia conquistado a simpatia e a confiança de um vizinho de cela, o bicheiro Ângelo Maria Longas, o Tio Patinhas, um dos mais poderosos da época, que deu a ele o direito de assumir a exploração de bancas de jogo de um pequeno bicheiro inadimplente.

Foi uma ascensão meteórica no mundo da contravenção. Guimarães abriu caminho a ferro e fogo até a cúpula do jogo do bicho. Seria, anos depois, um dos primeiros presidentes da Liga das Escolas de Samba do Grupo Especial (Liesa). Com o conhecimento adquirido no Exército, ajudou a cúpula do jogo a organizar as extrações e a dividir territorialmente o Grande Rio. Além de assumir uma parcela do jogo em Niterói, Guimarães expandiu os negócios para o Espírito Santo.

Como prêmio pela contribuição, Guimarães ganhou a presidência da escola de samba Unidos de Vila Isabel, removendo de lá para o Salgueiro o bicheiro Miro Garcia e sua família.

De todos os processos criminais abertos ao longo dos últimos 50 anos, Guimarães foi alvo de duas sentenças que atingiram em cheio a contravenção. Em 1993, pelas mãos da juíza Denise Frossard, por formação de quadrilha e bando armado. E, em 2007, pela juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, por corrupção de agente público na Operação Furacão. A repercussão dos dois casos, porém, não foi suficiente para manter Guimarães preso. Por conta de manobras jurídicas que evitam o trânsito em julgado dos processos e a execução das penas, o capitão do bicho continuava circulando livremente pela Passarela do Samba.

Nos corredores do mundo do carnaval, prevalecia a impressão de que “velhos” bicheiros haviam recolhido as armas para viver uma aposentadoria sossegada. A prisão de ontem, contudo, joga por terra a ideia de que a idade avançada é sinônimo de paz.