'Capitã cloroquina' mostra que obsessão de Bolsonaro não veio do gibi

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Secretary of labor management and health education of Brazil's health ministry, Mayra Pinheiro attends a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil May 25, 2021. Picture taken through glass. REUTERS/Adriano Machado
Mayra Pinheiro em seu depoimento à CPI. Adriano Machado/Reuters

A não ser que em algum momento da vida tenha tomado a estrada de Damasco e se convertido sem que ninguém percebesse, Jair Bolsonaro ainda é o soldado convicto de que, em uma guerra, inocentes podem morrer e tudo bem.

Bolsonaro é daqueles que declaram guerra até quando dá bom dia. Em 4 de março de 2020, o IBGE, uma das muitas instituições públicas sob ataque do presidente, divulgou que a atividade econômica do país cresceu 1,1% no primeiro ano de mandato do capitão.

A frustração vinha como promessa de revide e algumas desculpas sobre herança maldita.

Bolsonaro e equipe viam no segundo ano de governo o momento exato da expansão do Produto Interno Bruto.

E então veio a pandemia, declarada em 11 de março pela Organização Mundial da Saúde —organismo multilateral também sob ataque do capitão e subordinados.

Como o “se” não entra na história, não se sabe se a chegada à Terra Prometida se confirmaria em 2020 em condições normais de pressão e temperatura sanitária.

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Na dúvida, Bolsonaro fez o que todo comandante atávico faz diante de um ponto de inflexão: manteve os planos e mandou a máquina acelerar, mesmo com os trilhos em frangalhos.

Para isso foi à guerra. O inimigo era todo mundo que defendia medidas de restrição social. “Se acabar a economia, acaba meu governo”, declarou o presidente, para quem a pandemia não era “tudo isso que dizem”. “Que vai ter problema vai ter. Quem é idoso, quem tem deficiência”, minimizou.

Um ano e dois meses depois, o país soma hoje 450 mil mortos. Os depoimentos de dissidentes e fiéis escudeiros do capitão na CPI da Pandemia ajudam a organizar a linha temporal até o caos.

A CPI está muito perto de comprovar que a aposta do governo, desde o começo, era na imunização do rebanho. A ideia era manter o país no trilho que Bolsonaro e equipe haviam traçado antes das condições serem alteradas. A prioridade era a economia.

Enquanto morressem idosos e deficientes — os inocentes da guerra, lembra? — não havia motivo para pânico. Ao menos nos pronunciamentos do presidente, que em lives e encontros com apoiadores seguiu minimizando a mortalidade do vírus e defendendo que o Brasil não poderia parar. O slogan espalhado em órgãos oficiais e adesivos de apoiadores criava um falso dilema entre saúde e economia.

Das testemunhas dessa história, dois ex-ministros da Saúde deixaram claro, em seus depoimentos à comissão, que preferiram deixar a trincheira a rasgar os diplomas em medicina e colocar a vida da população em risco com engodos.

Um desses engodos era o discurso político de que o coronavírus “não era tudo isso”.

Outro era que, em caso de emergência, poderíamos sair de casa em paz porque havia uma salvação. E a salvação era uma carteira de cloroquina ou hidroxicloroquina, medicamentos incensados como uma grande bola luminosa para onde nós, como insetos, poderíamos deixar nossas tocas e correr ao redor.

A bola luminosa a convencer um país inteiro a sair de casa (e se morrer inocente, tudo bem; eles nem eram úteis para a economia) poderia ser uma solução de vinagre com sal se esta fosse a receita indicada por Donald Trump, o pioneiro do engodo.

O copia-e-cola dos pastiches brasileiros fez com que o Brasil se tornasse o segundo país com o maior número absoluto de mortes por covid-19. Os EUA são ainda os primeiros.

Não, a cloroquina não nos salvou. Era no máximo um relaxante muscular para desmobilização social. Sua validade antiviral não deveria nem estar em discussão, como não está em nenhum país que levou a emergência sanitária a sério, mas está. A culpa não é dos ignorantes que chegaram ao poder. Não só.

A essa altura, parece claro que a propaganda de medicamentos ineficazes serviu apenas como discurso para levar um país inteiro a relaxar e manter a rota normal de sua vida anterior à pandemia.

O presidente estava convicto de que, para a grande maioria de nós, sobretudo os com histórico de atleta, o vírus, se nos infectasse, provocaria no máximo uma gripezinha. E estava no finzinho. A melhor vacina, ele defendeu, era pegar o vírus, como ele, e desenvolver anticorpos naturais.

Bolsonaro não se convenceu desse roteiro enquanto lia gibi. Gente graduada estava ali para alimentar a ideia.

O plano bolsonarista ruiu quando começaram a morrer pessoas com histórico de atletas, usuárias ou não de cloroquina, chefes de família em idade produtiva, sobretudo depois que a aposta descarada na imunização de rebanho transformou o Brasil em um criadouro de novas variantes, e não de cidadãos naturalmente vacinados.

Os dois primeiros médicos escalados para puxar a fila do enterro não aceitaram a missão. O general Eduardo Pazuello, sim.

Mas nem ele nem o chefe —um manda, outro obedece, lembra? — poderiam acelerar como aceleraram a estratégia mortífera sem um verniz científico, por mais frágil que fosse, como ficou evidente no depoimento de Mayra Pinheiro, secretária de gestão do trabalho e educação do Ministério da Saúde. 

A postura da “capitã cloroquina”, como é conhecida, foi recheada de tecnicismos e convicções médicas que podem convencer os ouvidos leigos, mas foram desmontados em seus pontos principais pelos pares. Um exemplo foi o estudo citado aos senadores que não foi sequer revisado como deveria e nunca se tornou referência para ninguém —a não ser ao governo, engajado a escoar a produção de cloroquina até com ajuda de inteligência artificial, como o famigerado app que saiu do ar como entrou: sem salvar ninguém.

Para quem ainda se impressiona com a capacidade humana de falar bonito mesmo quando espalha bobagem, é preciso lembrar que não existe tragédia humanitária na história que não contou com endosso de doutores de sua época. Josef Mengele era tudo, menos ignorante.

Sim, o julgamento da história é implacável.

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