'Capitólio candango' mostra essência do bolsonarismo. Por que alerta não foi ouvido?

Supporters of Brazil's former President Jair Bolsonaro demonstrate against President Luiz Inacio Lula da Silva, outside Planalto Palace in Brasilia, Brazil, January 8, 2023. REUTERS/Ueslei Marcelino
Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Gestada durante meses, a versão calanga da invasão do Capitólio, neste domingo (8), era pedra cantada e contou com a omissão e o endosso de autoridades de todos os níveis da federação.

A começar por Jair Bolsonaro (PL), presidente até outro dia e responsável por incutir a violência e a paranoia na corrente sanguínea na ala mais radical de seu eleitorado, alimentada há anos por falsas acusações sobre fraude nas urnas e a suposta perseguição da imprensa, da classe política e do Judiciário.

O ataque às sedes do governo, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal dão materialidade aos sopapos diários produzidos pelos próceres do bolsonarismo, que até outro dia louvavam as manifestações de caráter golpista como “democráticas”.

Elas acontecem num momento em que agressão a jornalistas já não choca nem rende manchetes. Virou algo normal, de tão recorrente.

O barril de pólvora em forma de acampamentos e mensagens com pedido de intervenção federal está montado desde outubro na frente de quartéis generais do Exército, que nada fez para convencer os lunáticos a voltarem para casa. Talvez porque remetentes e destinatários dos pedidos se confundam na tolice e no desejo.

Um observador da cena havia resumido a situação, dias atrás: “se alguém acampa na frente da sua casa e pede algo que você não quer e/ou não pode fazer, quanto tempo você levaria para explicar para eles que aquele pedido é inconveniente e que precisam sair de sua casa? Uma hora? Duas? Pois as Forças Armadas estão há dois meses recebendo pedidos absurdos e ninguém foi à porta dos quartéis pedir para a turma sair de lá”.

Quem passou perto disso foi o senador recém-eleito Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que aproveitou a fuga de Bolsonaro para os EUA para, em rede nacional, dizer, sem citar nomes, que a postura dúvida do ex-chefe de Estado jogou o peso da responsabilidade sobre os militares. Como se os militares não fossem parte já indissociável da figura do presidente que os empoderou.

Uma mostra do que poderia acontecer foi registrada em 12 de dezembro, quando Lula foi diplomado e radicais promoveram quebra-quebra pela capital. O pretexto era a prisão de um dos seus.

Eles tentaram invadir a sede da Polícia Federal e mesmo assim ninguém foi preso naquele dia.

Logo depois, na véspera de Natal, foi desmontado um plano terrorista para explodir com uma bomba um caminhão-tanque na entrada do Aeroporto de Brasília. A versão calanga do Riocentro foi adiada, mas ali já estava claro que a turma não estava para brincadeiras.

Lula tomou posse no domingo (1º). Todas as tensões e atenções estavam voltadas para a cerimônia. Tudo transcorreu normalmente, e as notícias até então davam conta da desmobilização, não sem um certo esperneio, dos acampamentos em Brasília e outras praças, como Belo Horizonte.

Tudo no vácuo de liderança de Jair Bolsonaro.

Era um engano.

Quem estava quieto seguia tramando.

A explosão da violência em Brasília escancara o tamanho do erro em confiar a segurança da capital a um secretário de segurança que servia o bolsonarismo até semana passada.

Sim, o ex-ministro da Justiça Anderson Torres era o comandante dos militares responsáveis por garantir a paz e a ordem no Distrito Federal. Mas ele curiosamente estava viajando quando a coisa explodiu.

O governador Ibanêis Rocha (MDB), apoiado e apoiador de Bolsonaro, não teve outra opção se não demiti-lo.

Lula achou pouco e decretou intervenção federal no DF. Não era isso o que pediam os radicais?

Da negação do presidente derrotado em aceitar a derrota à fúria de multidão idiotizada e, de certa forma, subestimada pela ridicularização de memes e pelo noticiário, a invasão do Congresso brasileiro seguiu todos os passos do movimento “original” do dia 6 de janeiro de 2021, em Washington.

Lá uma grande investigação foi aberta para apurar as responsabilidades dos atos que terminaram em tragédia, com cinco mortos.

Essa tragédia estava desenhada com tinta de sangue se o presidente não tivesse, no mesmo dia, viajado para o interior de São Paulo, onde verificaria de perto os estragos das chuvas em Araraquara.

O que teria acontecido se estivesse no palácio no momento da invasão?

Ao fim do dia, centenas de terroristas haviam sido presos, mas a tensão continuava enquanto as cenas dos destroços começavam a vir a público. Era como se um furacão tivesse passado por salões e gabinetes oficiais.

Um dos objetivos dos atos era produzir mártires para seguirem mobilizados – diversos ônibus com extremistas devem chegar à capital na segunda-feira (9/01).

Não é difícil rastrear os grupos, quem os (des)informa, que os organiza e quem os financia.

Os atos foram prontamente repudiados pelas principais autoridades do país. As cenas correram o mundo e mobilizaram a atenção até mesmo do presidente francês, que em suas redes se colocou à disposição para ajudar o país.

Bolsonaro e o núcleo-duro do bolsonarismo seguem calados, em cúmplice silêncio.

O trabalho de remoção e identificação dos terroristas mal começou. Mas será como enxugar gelo enquanto as cabeças do movimento seguirem induzindo impunemente parte da população a uma luta armada e alimentado com ódio e notícias falsas.

Bolsonaro e seus braços-direitos levaram o Brasil ao caos. Um caos construído e subestimado durante meses. E que ficará como marca de pneu nas costas do país durante muitos anos.

O pedido de extradição do principal responsável por isso é só o começo do trabalho de remoção do caos.