Carência de leitos de UTI na Baixada Fluminense pode explicar recorde de ocupação de vagas no Rio

Luiz Ernesto Magalhães
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Quando a autônoma Leila Queiroz Gonçalves, de 60 anos, apresentou sintomas de Covid-19 no início do mês, a família não pensou duas vezes. Moradora de Mesquita, na Baixada Fluminense, que não tem leitos de UTI para Coronavírus, os parentes levaram a pciente para o Hospital Salgado Filho, no Méier, Zona Norte do Rio, a quase 40 quilômetros de distância. Leila acabou morrendo no dia 19, em um CTI da Fiocruz para onde foi transferida. O caso da autônoma está longe de ser exceção. Um levanemaneto do Sindicato dos Médicos (Sindmed) feito a pedido do EXTRA indica que a carência de leitos de UTI, principalmente na Baixada Fluminense, pode em parte ajudar a explicar os recordes de ocupação nas vagas do Sistema Único de Saúde (SUS) da cidade do Rio de Janeiro com pacientes com casos graves de Coronavírus.

Falta de UTIs:

Dos 1.708 pacientes que foram internados no SUS na cidade este ano, 392 (18,7%) não viviam na capital . Destes total quase dois terços (65,05%) vêm de oito cidades da Baixada Fluminense, segundo cruzamento de dados feito pela reportagem. O sindicato observa que a lógica do Sistema Único de Saúde (SUS) é da integração. Por outro lado, observa o presidente do Sindmed, Alexandre Telles, a crise provocada pela pandemia expõe um problema histórico na cidade, de falta de Região Metropolitna de leitos públicos em toda a região metropolitana.

— A Baixada Fluminense sempre sobrecarregou a capital por falta de leitos e não apenas de UTI. Mas no caso de vagas de UTI há uma espécie de deserto de leitos na região. Não há uma solução a curto prazo. A pandemia botou isso ainda mais em evidência — disse Telles.

O fenômeno se repete quando o critério é o total de internações em toda rede (incluindo a privada, entre vagas de enfermaria e UTS). Entre as dez unidades que mais receberam pacientes de Covid em 2020 no estado, cinco ficam na capital. Entre os demais, apenas um fica na Baixada: o Hospital de Nova Iguaçu:

— Quando socorremos minha mãe, sequer cogitamos em procurar socorro em Nova Iguaçu, pois sabemos que costuma estar sempre lotado. Infelizmente, falta infraestrutura e faltam vacinas. Se a União tivesse providenciado vacinas, provavelmente minha mãe estaria viva — conta a assistente pessoal Marcela Queiroz Gonçalves, de 33 anos.

Calendário unificado:

Problemas nos hospitais de Campanha

O Sindmed avalia que no caso do Covid a situação foi agravada porque a maior parte dos hospitais de campanha prometidos pelo governador fastado Wilson Witzel que poderiam minimizar a falta de leitos e cercados por denúncias de superfaturamento e desvio de verbas, jamais ficaram prontos. Apenas a unidade do Maracanã foi entregue — as outras duas unidades abertas em 2020 no Leblon e na Barra da Tijuca eram de gestão privada. No ano passado, a promessa do Estado era abrir vagas em três unidades erguidas na Baixada: o Hospital Modular de Nova Iguaçu, Caxias e São Gonçalo. Dessas unidades, o governador em exercício Cláudio Castro, promete abrir no sábado, 150 vagas na unidade modular, sendo 60 de UTI em Nova Iguaçu.

Em uma série de declarações, o prefeito Eduardo Paes tem dito que a procura de atendimento por Covid vem gerando um esforço extra nas emergências da capital. Mas que não pode rejeitar pacientes e isso sobrecarrega os hospitais da prefeitura. O secretário municipal de saúde. Daniel Soranz, complementa.

— A gente trabalha de forma integrada colocando boa parte dos leitos por integração. E tentamos fazer uma divisão de custos de operação. Seguimos a regra do SUS —diz o secretário municipal de Saúde da capital.

Restrições em Niterói:

Por conta da demanda, a prefeitura do Rio decidiu contratar até 150 leitos na rede privada. Deste total, pelo menos cem em UTIs pagando R$ 2,4 mil a diária — 50% a mais que o valor de tabela do SUS — para tentar atrair interessados, já que um leito privado no mercado é encontrado em média por R$ 4 mil a R$ 5 mil. O ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão, diz que é possível o pagamento extra.

— Mas o gestor público, que tem a autonomia para aplicar os recursos, terá que justificar as despesas aos órgãos de controle. Essa questão de demanda por leitos de UTI mostra que nessa pandemia o ideal era ter uma gestão única de leitos públicos e privados desde o início da pandemia. Foi a sugestão de vários especialistas desde o ano passado. Mas infelizmente não houve uma ação coordenada pela União para isso — diz Temporão.

O prefeito de Nova Iguaçu, Rogério Lisboa, argumenta que tradicionalmente o Rio sempre foi dotado de melhor infraestrutura pública de saúde. No entanto, ele diz que não pode atribuir os problemas apenas a falta de vagas nas cidades. Este ano, 79 pacientes de Nova Iguaçu já foram internados em UTIs Covid da capital. Ao todo, a cidade conta com dez leitos de Coronavírus.

— Alguns bairros de Nova Iguaçu são mais próximos da Zona Oeste do Rio do que das nossas unidades. Além disso, muita gente trabalha no Rio e busca atendimento lá. É natural que isso aconteça. Ocorre que o Rio, assim como Nova Iguaçu, que tem três grandes hospitais atendendo a Covid (incluindo o Hospital Geral da Posse), recebe pacientes de outros municípios da Baixada — disse Lisboa.

Ele cita, por exemplo, estatísticas do Hospital da Posse. Em 2020, 1.446 pacientes do Rio buscaram atendimento na unidade, enquanto outros 233 ficaram internados em UTIs da unidade. A própria prefeitura do Rio se beneficia desse pool. Leitos comuns e de CTIs estão à disposição da prefeitura do Rio em um hospital público de Duque de Caxias. O critério adotado pelo sistema de regulação — a cargo da Secretaria Estadual de Saúde —tem uma série de parâmetros para avaliar as condições dos pacientes, inclusive o estado de Saúde. E não apenas o domicílio de origem.