‘Cara e coragem’ chega a seus capítulos finais exaltando a representatividade negra com personagens bem-sucedidos

Em 2004, “Da cor do pecado” apresentava ao Brasil, no horário das sete, a primeira protagonista negra de uma novela contemporânea e urbana na tela da Globo. Era Preta, interpretada por Taís Araujo. Dezoito anos depois, o feito se repete e se multiplica: a mesma Taís vive não só um, como dois papéis de destaque em “Cara e coragem”, Clarice e Anita. A trama de Claudia Souto ainda evidencia todo um núcleo familiar e de amizades em torno de Clarice com personagens negros bem-sucedidos. A novela chega a seus últimos capítulos celebrando, principalmente, essa representatividade.

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Curiosamente, Paulo Lessa, estreante como protagonista em “Cara e coragem” na pele de Ítalo, vértice do triângulo amoroso formado com Clarice e Anita, também marcou presença em “Da cor do pecado”.

— Eu fiz figuração (em 2004) e hoje tenho a oportunidade de fazer um personagem tão importante. Passa um filme na cabeça, porque lembro todos os dias de cada caminho percorrido e das escolhas que fiz ao longo desse tempo. De figurante a protagonista é algo muito especial. Vi que todas as minhas escolhas valeram a pena — reflete ele, completando: — Outra conquista é saber que agora eu represento tantas outras pessoas, que Ítalo tornou-se um espelho para muita gente. Isso é muito importante. Fiquei animado com esse negócio de protagonista (risos), espero que seja o primeiro de muitos. Ítalo é um ex-segurança que se tornou empresário. Tenho essa semelhança com ele na minha história pessoal: é possível chegar onde a gente sonha.

Matriarca da família Gusmão, a todo-poderosa Martha mostrou-se todo o tempo como uma mulher livre e dona de si. Claudia Di Moura, sua intérprete, considera essas características como “um avanço na construção dos artistas negros”.

— É uma personagem única na minha carreira televisiva. Martha exigiu de mim um outro lugar na atuação, uma sutileza, uma delicadeza. Ela não está a serviço da subserviência, é uma mulher que passa longe dos estereótipos. É muito importante também para a construção da imagem do povo preto na televisão, e eu espero que depois desta venham outras e outras nesse lugar de poder para que a gente possa mostrar mesmo o nosso potencial e a nossa soberania — enfatiza.

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A diretora artística Natália Grimberg conta que, desde a leitura da sinopse e da história, ela e a autora Claudia Souto definiram que a família Gusmão — formada por Martha, Clarice e Leonardo (Ícaro Silva) — tinha que ser uma autêntica família brasileira.

— Seguimos essa ideia naturalmente, com a intenção de ter a representatividade no ar através de personagens importantes e de um grande elenco como o que conseguimos reunir. Primeiro, com Taís fazendo duas personagens. Depois, convidamos Ícaro e Claudia Di Moura trazendo toda essa alegria e potência que ela tem. E Paulinho Lessa, que se destacou demais nos testes e brilhou como Ítalo — elogia.

Acostumada a liderar histórias com representatividade negra, Taís diz que “deu um trabalhão” se dividir entre Clarice e Anita, “mas foi bom pra ganhar mais experiência”:

— A gente se divertiu demais também nos bastidores e criou um grande vínculo. Em tantos anos de televisão, eu nunca tinha feito uma novela em que equipe e elenco fossem tão integrados. Uma turma divertida, animada, afetuosa... Foi ótimo!

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Jeniffer Nascimento conta que as delícias de viver Jéssica já estavam escritas nas estrelas:

— Quando eu fiz meu mapa astral, no ano passado, minha astróloga falou: “Olha, vem aí uma personagem que você tem que mergulhar de cabeça nas loucuras dela”. Jéssica é exatamente a definição disso. Foi um mergulho muito divertido. Eu e meu parceiro “de milhões”, Kiko Mascarenhas (Durte/Bob Wright), não nos conhecíamos. E eu saio desse projeto com um amigo que vou levar para o resto da vida.

Mulher trans e negra, Gabriela Loran também ganhou destaque na novela como Luana, secretária confidente e braço direito de Clarice, a única que sabia do paradeiro da empresária enquanto todos acreditavam que ela havia morrido no atentado fio-condutor da história. A sexualidade da atriz, no entanto, não foi abordada. E ela chega aos capítulos finais formando casal com Armandinho (Rodrigo Fagundes).

— Quero ter a chance de viver papéis complexos, que não tenham só questões sobre ser trans, fujam do estereótipo. Com Luana isso foi possível. A personagem cresceu e ganhou até um par no fim da novela. É um grande avanço porque, acima de tudo, sou uma atriz, com a possibilidade de viver diferentes tipos e personalidades — sublinha.

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