Caravanas bolsonaristas do 7 de setembro têm patrocínio de empresários e movimentos de direita

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Patrocinadas por empresários ou subsidiadas por movimentos de direita, muitas das caravanas para o 7 de setembro começaram a ser organizadas há meses e pretendem levar milhares a Brasília, Rio e São Paulo para demonstrar apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL).

Muitos oferecem ônibus de graça, bancados por empresários, ou com preço bem abaixo do cobrado em viações comerciais.

De Bauru (SP) sairá uma caravana para a avenida Paulista com 230 pessoas, em cinco ônibus, segundo Everton Borges, um dos organizadores, ao lado de Fátima Pletti. "O valor da passagem é de R$ 120 ida e volta" disse Borges.

"Mas conseguimos fechar cinco ônibus, dois ônibus particulares, e três ônibus de doações de empresários", afirma. Com isso, estão oferecendo três ônibus de graça aos manifestantes, e dois pagos.

Também houve doação de garrafas de água para as pessoas levarem na bolsa para a manifestação.

Indagado se fazia parte de algum movimento, Borges afirmou: "Não pertencemos a nenhuma organização, somos patriotas de grupos de WhatsApp".

Uma passagem semelhante em viação comercial não sai por menos de R$ 240 ida e volta.

O engenheiro Diego Formenti, presidente do grupo Patriotas Itapira, ajudou a organizar uma caravana com quatro ônibus com destino à avenida Paulista. "De graça, 46 pessoas em cada ônibus", disse. "Indo de livre e espontânea vontade. E tenho mais 30 pessoas na lista de espera."

Formenti também conseguiu doações "de empresários que preferem não se identificar". "Arrumamos patrocínio para três ônibus, e o quarto foi vaquinha", disse. O frete de cada ônibus saiu por R$ 2.800, segundo ele.

O engenheiro ainda tinha esperanças de que o presidente Bolsonaro iria aparecer na Paulista, embora o mandatário só tenha confirmado presença em Brasília e no Rio. "Eu tenho convicção de que o presidente vai. Ele falou da importância de as pessoas irem para as ruas pela última vez."

Segundo Formenti, o objetivo da ida à Paulista é pedir democracia, respeito à liberdade de expressão e mostrar a indignação com o STF. "Hoje são os togas que mandam no Brasil."

Grande parte da convocação para o 7 de Setembro e para a organização das caravanas foi feita pelas redes sociais.

Segundo levantamento da Palver, empresa de tecnologia que monitora mais de 15 mil grupos públicos de WhatsApp e elabora análises, as mensagens com convocações para caravanas tiveram um pico em 2 de setembro, com 73 a cada 200 mil mensagens abordando o assunto. Na comparação, eram 5 a cada 200 mil em 5 de agosto.

Já pelo Crowdtangle, os posts no Facebook chamando para caravanas no 7 de Setembro tiveram pico em 27 de agosto, com 1.500 interações, e na mesma data no Instagram, com 1.900 interações.

Lista que circula por grupos de WhatsApp e Telegram afirma que há 240 ônibus, 7 micro-ônibus e 6 vans confirmados para a avenida Paulista. Contatado, o responsável pelo cadastramento das caravanas não quis falar com a reportagem.

Calculando pela ocupação de cerca de 40 pessoas por ônibus (abaixo da capacidade máxima), 22 em micro-ônibus e 12 em cada van, seria um total de 9.826 pessoas rumo à avenida Paulista.

Na lista que fornece contatos para as caravanas, os organizadores avisam: "O presidente convocou principalmente para a PAULISTA,_ _mas quem não puder,_ é pra ir para Brasília ou para Copacabana (RJ) antes de qualquer outro lugar. "

Eles também dão orientações sobre locais de estacionamento e dicas de como organizar as caravanas. "Levem faixas em inglês, espanhol, francês e outros idiomas com a data completa. _As fotos de seus cartazes irão para os jornais de todo o mundo._ LEMBREM-SE não é uma festa, _estamos indo "lutar" pela nossa liberdade e contra o comunismo! _Exemplo:_ _"WE TRUST ARMED FORCES"_

_(eles sabem o que fazer para termos eleições limpas,_ a nossa intervenção já foi feita democrática pelo voto em 2018, _temos apenas que_ confiar e mostrar que acreditamos realmente neles)".

De Uberlândia sairão pelo menos 180 pessoas em ônibus rumo a Brasília, subsidiados por movimentos como o Direita Minas e Voluntários Uberlândia. "Começamos a organizar um mês atrás através de vaquinha e ajuda de apoiadores", disse por WhatsApp Janaína, uma das organizadoras.

A passagem da caravana ida e volta Uberlândia Brasília sai por R$ 100 –bem abaixo do peço normal de uma passagem semelhante, que está em R$ 300 ida e volta em ônibus executivo.

Recentemente, organizadores enviaram mensagem de WhatsApp festejando: "Pessoal conseguimos alguns investidores para financiar parte de nossa caravana para Brasília no dia 7SET22, portanto conseguimos diminuir o valor do ônibus."

Em uma caravana de Porto Alegre, cerca de 380 pessoas irão enfrentar 36 horas de viagem em dez ônibus para participar da manifestação de 7 de Setembro em Brasília. A passagem sai por R$ 650, com lanches no veículo incluídos.

"Em breve iremos comemorar por vivermos sem interferência entre os poderes", dizia mensagem de Marcelo Buhler, líder do movimento Direita Parobé. Uma passagem ida e volta de Porto Alegre para Brasília sai por, em média, R$ 800, em ônibus sem ser leito.

Segundo Buhler, a caravana começou a ser organizada em março deste ano e não houve patrocínio de ninguém. "Cada passageiro responde pelos seus custos, não fizemos vaquinha e não temos patrocinadores. Se existe alguma colaboração entre os passageiros, não chegou ao nosso conhecimento."

Só de Nova Mutum (MT), cidade agropecuária, saíram quatro ônibus rumo à Brasília, com 170 pessoas. De acordo com Zequina Duffeck, ativista pró-Bolsonaro, a caravana está cheia de pessoas ligadas ao agro, mas não tem nenhuma empresa grande à frente da comitiva.

"As pessoas estão indo e pagando por livre e espontânea vontade. Muitas conseguiram negociar folga porque nessa época o agro é mais tranquilo", disse.

Já a ativista Reggiane Otero, que ajudou a organizar a caravana de Lucas do Rio Verde, perto de Nova Mutum, diz que empresários do agro e comerciantes ajudaram com doação para a caravana, sem especificar quanto.

"Eles doaram, mas isso não quer dizer que o pessoal que está indo não tenha condições financeiras para pagar", disse, acrescentando que "nunca viu nada igual" sendo feito pelo presidente.