Cardápio variado e temporadas curtas marcam retomada do setor teatral em 2022; veja retrospectiva

Peças de diferentes tamanhos, cores e nomes se espalharam pelos tablados. Desde 2020, o público não via uma programação tão robusta (e diversa) nos teatros do país, em especial de São Paulo e Rio de Janeiro. Profissionais avaliam que 2022 marcou, enfim, a retomada do setor, um dos mais afetados pela pandemia. O final feliz, porém, ainda está longe.

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A volta dos espectadores às plateias acontece em ritmo lento e gradual. Nos cálculos de produtores ouvidos pelo GLOBO, pouco mais da metade do potencial público pagante tem saído de casa para esquentar os assentos. A despeito do cenário instável, espetáculos superlativos — de alto custo e com elenco numeroso — puxaram o retorno do setor, no início do ano.

Houve um boom de musicais, a maior parte com obrigações contratuais que expiravam em 2022. Destacou-se a nova safra de títulos biográficos, filão que vem ganhando fôlego há uma década. Engrossaram a lista produções como “Clube da Esquina — Os sonhos não envelhecem”, dirigido por Dennis Carvalho; “Marrom, o musical”, idealizado por Miguel Falabella, sobre a cantora Alcione; “Sidney Magal: muito mais que um amante latino”, celebração às cinco décadas de carreira do cantor; e “Brenda Lee e o Palácio das Princesas”, que recompôs a trajetória da ativista travesti. Nenhuma das montagens, no entanto, encontrou facilidade para encher as salas.

— Para agradar patrocinadores, muitos podem dizer que estão fazendo bilheterias lotadas. Mas isso é equivocado. Foi um ano de mais investimento do que retorno. O teatro ainda não voltou em sua magnitude — comenta Renata Borges Pimenta, que produziu, em São Paulo e no Rio, “Cinderella”, “Madagascar” e “Peter Pan”. — Nosso exercício agora é recuperar a plateia em sua totalidade. O público não está mais receoso. Ele está preguiçoso, com a comodidade do controle remoto em mãos.

Escassez de espaços

Em solo carioca, existe um problema mais profundo. Diferentemente de São Paulo, que concentra a maior quantidade de salas no país e também de empresas apoiadoras, o Rio vê hoje uma escassez de palcos. Vários equipamentos públicos seguem fechados — como o Teatro Glauce Rocha, no Centro, o Teatro Villa-Lobos, em Copacabana, e o Teatro Carlos Gomes, atualmente em reforma. Os que estão abertos nem sempre oferecem a estrutura necessária aos artistas.

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A reinauguração do Teatro Copacabana Palace, que permaneceu fechado por quase três décadas, trouxe alívio. Totalmente restaurado, o endereço onde Fernanda Montenegro fez sua estreia profissional em 1950, recebeu, em seu primeiro ano reativado, peças bem-sucedidas, como “Três mulheres altas”, com Suely Franco, Deborah Evelyn e Nathalia Dill, e “Ponto a ponto”, estrelada por Luiz Fernando Guimarães. Foi um contraponto raro num cenário com tantos espaços à míngua — a perda mais recente foi o Teatro Petra Gold, antigo Teatro do Leblon, que cerrou as portas e foi leiloado, neste mês.

— A gente vive o momento de repensar os espaços — argumenta Eduardo Barata, presidente da Associação dos Produtores de Teatro (APTR). — Teatros particulares, em geral, viraram apenas espaços para locação e perderam o interesse em criar um perfil artístico. A preocupação desses lugares, após a crise gerada pela pandemia, é só ganhar dinheiro. O resultado é uma cena teatral confusa, com temporadas cada vez mais curtas. Isso acaba afastando o público.

A maior parte das salas serviu, neste ano, a um rodízio veloz de espetáculos com linguagens contrastantes. Do pastelão ao drama “cabeçudo”, o cardápio foi vasto. A programação pautada por critérios artísticos — com uma curadoria que prezou a qualidade — chamou a atenção, especialmente, no Teatro Firjan Sesi, no Centro do Rio, e nos equipamentos da rede Sesc, na capital paulista.

Maiores sucessos

Em meio às temporadas reduzidas — quase sempre com durações máximas de um mês, em apresentações apenas aos fins de semana —, houve exceções. Os maiores sucessos da temporada fincaram os pés nos tablados por cinco meses ininterruptos.

Montagem baseada em texto do romeno Matéi Visniec e dirigida por Enrique Diaz e Márcio Abreu, “O espectador” reuniu ninguém menos do que Marieta Severo, Andrea Beltrão, Renata Sorrah e Ana Baird no Teatro Poeira. De junho a novembro, teve ingressos esgotados. A peça volta ao endereço no dia 5 de janeiro, com as sessões das duas primeiras semanas já lotadas.

Tendência em alta nos anos anteriores à pandemia — devido ao baixo custo e à facilidade de deslocamento por diferentes palcos —, monólogos também cumpriram temporadas cheias. “Ficções”, com Vera Holtz, “Eu de você”, com Denise Fraga, e “O pior de mim”, com Maitê Proença, foram alguns dos destaques. Mas não fizeram tanto barulho quanto as comédias. Sim, o povo quis rir. Solos de humor em pé — os famosos stand up comedies — voltaram a arrebanhar multidões no país. Não à toa, casas dedicadas ao gênero se multiplicaram, principalmente em São Paulo.

Fabio Porchat retornou aos teatros, após um hiato de cinco anos, e executou uma proeza com “Histórias do Porchat”, em que repassa causos pessoais vividos em viagens. Entre julho e novembro, o humorista lotou as 926 poltronas de todas as sessões no Teatro Casa Grande, no Leblon. Até Fernanda Montenegro deu gargalhadas por lá. Em março de 2023, a peça aterrissa em São Paulo, onde tem temporada garantida até agosto.

— Acho que o público estava com saudade — afirma Fabio. — Todo mundo tem TV, streaming... Mas teatro ao vivo, não! O público queria voltar a ter essa experiência.

Mais momentos que roubaram a cena

A seguir, relembre outros destaque marcaram os teatros, em 2022.

Diretora brasileira premiada com Leão de Ouro

Christiane Jatahy levou o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, em junho deste ano, pelo conjunto de sua obra. A diretora e dramaturga brasileira foi reconhecida como “uma das figuras mais originais da onda teatral que regenerou o cenário europeu”. Recentemente, ela estreou, no Festival de Viena, “Depois do silêncio”, peça baseada no livro “Torto arado”, de Itamar Vieira Júnior, e no documentário “Cabra marcado para morrer”, de Eduardo Coutinho.

O brilho da geração com 80 e mais

Medalhões com idades acima dos 80 anos mostraram que estão a pleno vapor e voltaram à cena, no Rio e em São Paulo. O público pôde prestigiar, em diferentes montagens, os trabalhos de veteranos como Fernanda Montenegro (“Nelson Rodrigues por ele mesmo”), Zé Celso (“Esperando Godot”), Walderez de Barros (“As três irmãs e a semente de romã”), Renato Borghi (“O que nos mantém vivos”) e Léa Garcia e Emiliano Queiroz (“A vida não é justa”, na foto).

Festival de Curitiba: presente

Após um hiato de dois anos, o Festival de Curitiba, o maior dedicado às artes cênicas no país, voltou a ter edição presencial. O evento celebrou três décadas de existência com uma programação consistente, que incluiu uma exposição comemorativa e a participação de nomes como Gerald Thomas, Grupo Galpão, Denise Fraga e Denise Stoklos, além de duas apresentações concorridas de Emicida. A mostra principal teve lotação esgotada, e o Teatro Guaíra (na foto) ficou cheio em todas as sessões.

Montagem brasileira com sucesso além-mar

Dirigida por Rodrigo Portella e idealizada pelo ator Armando Babaioff (na foto) — também no elenco, ao lado de Soraya Ravenle, Camila Nhary e Gustavo Rodrigues —, a premiada “Tom na fazenda”, que acumula elogios desde 2017, foi bem-sucedida na última edição do Festival de Avignon, na França. A despeito do texto em português (e das legendas, ao fundo do palco, para a plateia gringa), já há apresentações garantidas em Paris, em 2023.

Atriz e também autora

Claudia Abreu lotou teatros em São Paulo e no Rio de Janeiro em sua estreia como dramaturga. O monólogo “Virginia”, inspirado na vida e na obra da escritora americana Virginia Woolf (1882-1941), trouxe à tona reflexões acerca de temas como misoginia, assédio moral, discriminação intelectual e violência psicológica. O espetáculo, com texto publicado em livro pela editora Nós, teve direção de Amir Haddad.

Brasileiro deixa Bolshoi em ato contra a guerra

O brasileiro David Motta Soares, de 25 anos, chamou a atenção ao deixar o cargo de solista líder do Bolshoi, um dos teatros mais famosos do mundo — em Moscou —, num gesto contra a guerra na Ucrânia. Natural de Cabo Frio, o dançarino, que hoje é primeiro bailarino do Staatsballet Berlin, na Alemanha, se apresentou no Theatro Municipal do Rio em maio, como estrela de “O lago dos cisnes”. Outros três colegas dele, também brasileiros, seguiram seus passos e deixaram a Rússia.