As mulheres carregam o mundo nos ombros - e os homens não sabem

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Happy mother holding cute newborn daughter and working on notebook at home stock photo
Woman with baby son (6-11 months) working on laptop at home
A carga mental faz com que as mulheres desenvolvam depressão mais comumente que os homens (Foto: Getty Creative)

Neste texto, você encontra:

  • O que é a carga mental;

  • Como ela se manifesta;

  • Formas de reverter esses efeitos no âmbito familiar e social

Comprar o presente da amiguinha da escola. Marcar o retorno no pediatra. Comprar pão. Colocar a roupa para bater antes de sair para o trabalho. A ração tá acabando, melhor já pedir outro pacote. A luz da cozinha tá piscando um pouco, melhor já comprar uma lâmpada nova. Precisa comprar também algumas besteirinhas pras crianças comerem no parque, no fim de semana. É bom levar um repelente, vou passar na farmácia no horário do almoço, entre uma reunião e outra, e enquanto as crianças comem.

Antes de dormir, listas mentais como essa podem aparecer com frequência na mente de uma mulher. Aliás, esse é um movimento mental que fica bem gritante no filme 'Não Sei Como ela Consegue', de 2011. Deitada na cama, a personagem Kate, interpretada por Sarah Jessica Parker é uma executiva de sucesso que age como chefe do lar de todas as maneiras possíveis, e passa os minutos antes de cair no sono criando checklists mentais com tudo o que precisa fazer no dia seguinte.

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A imagem também ficou bem clara em um vídeo produzido pela criadora de conteúdo Andressa Reis. Deitada na cama com o marido, aparentemente vendo televisão, a sua mente não para de listar tarefas que precisam ser cumpridas nos próximos dias. "Esse trabalho invisível e pouco valorizado de planejamento e tomadas de decisão que garante o bom funcionamento da casa é o que faz com que mulheres, sobretudo mães, estejam sempre 'on', pois a quantidade de esforço mental necessário para alcançar um resultado concreto, recai majoritariamente sobre elas", escreveu na legenda.

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Os dois exemplos têm nome e sobrenome: carga mental. O termo, que ganhou popularidade em 2018, depois que a artista francesa Emma Clint ilustrou, de maneira precisa, como funciona a mente de uma mulher, sempre ocupada com inúmeras tarefas que vão além da profissão ou do trabalho doméstico, têm a ver com a gestão da vida como um todo - o que é extremamente cansativo e exaustivo.

Durante a pandemia de coronavírus, em que as escolas fecharam, as crianças ficaram em casa 100% do tempo, assim como os parceiros e as próprias mulheres, esse grau de ocupação mental chegou a níveis absurdos. Segundo uma pesquisa feita com três mil voluntários pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, as mulheres foram mais afetadas emocionalmente durante os períodos de quarentena do que os homens: 40,5% reportaram sintomas de depressão, 34,9% relataram sintomas de ansiedade e 37,3% disseram lidar com estresse.

A pesquisa não especificou o porquê, exatamente, as mulheres demonstraram mais sintomas que os homens, mas não é difícil entender o motivo. Tanto a medicina quanto os estudos sociais entendem que as mulheres, via de regra, vivem uma jornada dupla, quando não tripla: trabalham fora de casa (ou em esquema home office), são as principais responsáveis pelo trabalho doméstico e ainda pela criação dos filhos. Tanto que, na cultura brasileira, erroneamente acredita-se, e até se elogia, que os homens "ajudam" com as tarefas de casa, indicando que elas são majoritariamente uma função das mulheres. Mas vamos falar sobre isso mais adiante.

Segundo relatório divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano passado, a divisão de trabalho entre homens e mulheres é muito desigual: são mais de 21 horas semanais para elas e 11 horas para eles. De fato, olhando para essa divisão de tempo é como se as mulheres, realmente, tivessem um segundo emprego de meio período, com uma média de quatro horas de trabalho por dia útil.

Gestão de projetos, só que dentro de casa

A visão de Kate, a personagem citada no começo do texto, faz mais sentido do que se imagina. Um estudo da Universidade de Harvard, desenvolvido em 2019, com 35 casais, mostrou que, mais de uma vez, os homens se referiam às parceiras como "gerentes de projetos". E, na prática, é como se isso acontecesse mesmo.

Isso porque a carga mental vai muito além de lavar a louça ou colocar as roupas na máquina. A mente das mulheres, em especial as mães, cuidam de um planejamento macro, como se fossem CEOs de uma empresa. Nesse o caso, o parceiro é visto quase como um funcionário - ele segue o planejamento feito pela mulher. É por esse motivo que falas como "É só você pedir, que eu faço" são tão comuns. E a questão é justamente essa: é mais do que pedir, é compartilhar essa carga mental de uma mente que passa o tempo inteiro pensando em funções relacionadas à casa, aos filhos e ao próprio parceiro.

Essa forma de pensar e agir tem um respaldo histórico, é claro. As mulheres foram criadas, desde pequenas e há muitos séculos, para serem as donas da casa. Quando crianças, elas brincam de casinha e os meninos, de jogar bola ou de polícia e ladrão. Elas aprendem a cuidar da casa, treinam a maternidade com bonecas, passam mais tempo dentro de casa do que fora. Mesmo com a vida moderna, em que o trabalho longe do ambiente doméstico uma realidade para muitas mulheres, essa função como "dona do lar" continua com elas. Aos homens, fica restrito o papel de provedor: a sua função principal é de garantir o sustento para a família.

Seja para elas ou para eles, essas funções são construções sociais - até mesmo a visão de que as mulheres são mais cuidadosas do que os homens. Por mais que a genética e os instintos masculinos e femininos tenham um papel no comportamento humano, a ideia de que as mulheres são melhores com as tarefas de casa é uma construção social tanto quanto a de que homens não devem falar de emoções.

O pronto principal acerca da carga mental é justamente que toda essa administração da vida em família, contenha ela filhos ou não, recai sobre a mente da mulher, que se vê mentalmente sobrecarregada e mais propensa a doenças mentais (um estudo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, comprovou que as mulheres têm duas vezes mais probabilidade de desenvolver depressão do que os homens).

Segundo a pesquisa da Universidade de Harvard citado anteriormente, essa carga mental, também conhecida como "trabalho invisível", pode ser dividida em quatro categorias: antecipar necessidades (por exemplo, perceber que a ração do cachorro está acabando), identificar opções (como pedir a ração por aplicativo ou passar no pet shop depois do horário de trabalho), decidir entre as opções (pedir pelo aplicativo é mais fácil e rápido) e monitorar os resultados (garantir que o pedido foi entregue).

O estudo ainda revelou que as mães fazem ainda mais do que esses quatro estágios. Apesar de muitas decisões a respeito dos filhos serem feitas em conjunto, percebeu-se que as mulheres antecipavam mais, planejavam mais e faziam mais pesquisas em preparação a uma situação. Basicamente: os pais eram informados das decisões, mas as mães faziam todo o trabalho que levavam a elas.

Inclusive, pesquisas como essa explicam a cultura de que os pais são mais divertidos do que as mães. Enquanto um lado é mais presente em atividades recreativas e de descanso, as mães carregam nos ombros, ou melhor, na mente, todo o planejamento em torno da vida da criança. Ou seja, seu cansaço e estresse a mais é absolutamente justificável.

Como diminuir a carga mental feminina?

Aí está a grande questão, já que muitos outros estudos explicam que uma desigualdade muito grande de divisão de tarefas e administração da vida conjunta tem uma série de efeitos tanto na saúde mental e física da mulher quanto do casal - inclusive, levando a uma relação com bem menos sexo e mais brigas e desentendimentos. Como mudar essa cultura opressiva e tornar a vida familiar mais saudável e equilibrada?

Por mais que, a princípio, falar sobre tudo o que passa na mente pareça demais, quanto mais dessa carga for verbalizada e compartilhada com o parceiro, melhor. É transformar o trabalho invisível em visível, de acordo com Allison Daminger, responsável pela pesquisa de Harvard, tanto clareando quem é responsável por qual tarefa quanto os detalhes por trás de planejamentos básicos, como a compra de um presente de aniversário ou a troca de um filtro de água.

Um ponto importante é notar que relacionamentos homossexuais têm, comprovadamente, uma distribuição de tarefas e carga mental mais igualitária do que os relacionamentos heterossexuais, já que não se prendem a papéis de gênero tanto quanto no segundo caso.

Aliás, de forma abrangente, rever a educação de meninos e meninas de forma a evitar essa distribuição desigual de papéis sociais é essencial para que a próxima geração chegue a vida adulta mais consciente de que tanto a criação de um filho quanto os cuidados com a casa são tarefas conjuntas e responsabilidade das duas partes de um relacionamento. É o mínimo que essas tarefas todas sejam, de fato, compartilhadas igualmente.

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