Carioca cria sambateria, método de tratamento da dor que aplica em hospital de Milão, na Itália

Geraldo Ribeiro
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“Quem foi que falou que o meu samba/Não tem o poder de curar/Na certa não sabe o que o samba é capaz de fazer.” A pedagoga carioca Claudia Belchior, de 54 anos, que há 28 trocou a Vila Kennedy, na Zona Oeste, por Milão, na Itália, tem plena consciência dos benefícios que o ritmo brasileiro pode promover na alma e no corpo das pessoas. E, como é mostrado nos versos de Arlindo Cruz e Sombrinha cantados pelo grupo Fundo de Quintal, pode ser também um santo remédio contra melancolia, tédio e até dores físicas.

A brasileira desenvolveu e patenteou na Itália e no Brasil a sambaterapia, proposta para melhorar a qualidade de vida usando sons e movimentos do ritmo brasileiro. O método, que consiste em relaxamento, trabalho das articulações e alongamento, acompanhados de música e dança, é aplicado por Claudia em pacientes de um hospital de reumatologia de Milão.

São pessoas que sofrem de doenças como fibromialgia, artrite reumatoide e esclerodermia (problema na pele que afeta articulações). Ela garante que nos primeiros dias surgem resultados, como melhora no aspecto emocional e alívio de dores. Em até três meses, quem nunca teve contato com o samba é capaz de ensaiar passos básicos e ainda sentir os benefícios à saúde do bom ziriguidum. O grupo atendido já chegou a mais de cem pacientes, mas está reduzido a 27 que fazem a terapia online devido à pandemia.

— O primeiro resultado é no aspecto emotivo, fundamental para encarar uma doença. E o emocional equilibrado é importante para a imunidade — diz.

Ela se inspirou nas Velhas Guardas das escolas de samba, nas quais a longevidade chama atenção. A terapeuta acredita que isso é resultado da alegria e da energia do ritmo. O método de Claudia é reconhecido pelo Centro Internacional de Dança da Unesco, em Paris, na França, tendo recebido a certificação de “Novo modo de dança para a saúde”, e já foi levado para diferentes pontos da Europa e até para o Japão.

A advogada Enrica Pini garante que o método fez diferença na sua vida e no tratamento da artrite reumatoide:

— Sambaterapia é libertação. Eu foco minha atenção não mais na dor, mas no meu movimento — comemora a paciente.

A sessão começa com músicas meditativas e instrumentais brasileiras, que passam a um som mais intimista. Numa terceira etapa entra uma música brasileira de raiz africana, com Clementina de Jesus e Carlinhos Brown. Com o corpo preparado, chega o samba.

— O samba ajuda a destravar o quadril. Vou mostrando por onde passa o movimento da música, trabalhando articulação por articulação — explica Claudia, que receita a pacientes e participantes de workshops Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho e Pixinguinha sem moderação.

A fisioterapeuta Ana Gil, diretora de uma clínica na Barra, concorda que o samba têm propriedades terapêuticas:

— Há estudos indicando que as emoções estão ligadas diretamente à dor, ocupam a mesma região do cérebro. Através do controle das emoções, a gente consegue sanar algumas dores. Além disso, a atividade física, principalmente a dança, diminui a incidência de Alzheimer.