Cariocas relatam dificuldade de encontrar AstraZeneca nos postos de vacinação

·13 minuto de leitura

RIO — A exemplo de outros locais do país, o Rio de Janeiro começa a enfrentar a escassez do imunizante da AstraZenecatanto para a primeira quanto para a segunda dose da vacina contra a Covid-19. Moradores da capital relataram dificuldades para encontrar o produto nos postos. Muitos foram informados por atendentes que o imunizante da AstraZeneca está em falta e, paracompletar o esquema vacinal, receberam a segunda dose da vacina da Pfizer.

Vacinação:Rio terá repescagem para adolescentes de 15 a 17 anos neste sábado— Eu tomei a primeira dose em 18 de junho. Hoje (10 de setembro), estava marcada a segunda dose da Astrazeneca.Foi surpresa para mim. Tinha visto na TV que já estava faltando em São Paulo, mas achei que no Rio ainda tinha. A agente da triagem já estava comunicando na entrada que não havia Astrazeneca para a segunda dose hoje. Uma mulher que estava na minha frente desistiu,foi embora sem tomar a vacina dela, que também era segunda dose da Astra — disse a microempresária Andrea Barbosa, que se vacinou em um posto na escola municipal Santo Tomás de Aquino, no Leme, na Zona Sul do Rio. — A agente explicou que, na falta da Astrazeneca,a substituição pela Pfizer era recomendada pelo Ministério da Saúde. Eu já tinha lido sobre a intercambialidade de vacinas, não me preocupei muito. Embora imagino que o ideal seja tomar do mesmo fabricante. Mas em situação de pandemia, o importante é não ficarsem a segunda dose, né? — acrescentou.

Situação parecida viveu um morador da Barra da Tijuca, na Zona Oeste, que foi se vacinar na quinta-feira naCidade das Artes, no mesmo bairro.

— Assim que apresentei a minha a caderneta de vacinação, a atendente veio logo me oferecendo a Pfizer. Eu estranhei,afinal a minha primeira dose tinha sido da AstraZeneca. Ela me explicou que a Astra estava em falta e que a mudança para a Pfizer tinha sido autorizada — declarou ele, que preferiu não ser identificado. — Eu aceitei, queria me vacinar de qualquer jeito. Duaspessoas na minha frente também concordaram com a alteração. Uma mulher chegou a me dizer que estava satisfeita com a mudança e que queria tomar Pfizer desde o início — completou.De acordo com o secretário municipal de Saúde do Rio, Daniel Soranz, há possibilidade de a vacina da AstraZenecaacabar no município até a próxima semana. No entanto, essa possibilidade não deve atrasar os que precisam completar o esquema vacinal, uma vez que o estoque e o cronograma de novas entregas do imunizante da Pfizer bastam, segundo ele, para suprir a demandade segunda dose da cidade. Conforme relatos nas redes sociais e em grupos de informações sobre vacinas, os estoques de AstraZeneca também estavam esgotados em postos como o Jockey Club, o Tijuca Tenis Club e a Casa Firjan.

Imunização:Secretários querem liberação da CoronaVac para crianças e adolescentes, mas Butantan ainda precisa oferecer mais dadosA intercambialidade (mistura de imunizantes) foi aprovada pela Secretaria Estadual de Saúde (SES) e confirmadapela secretaria municipal da capital no mês passado. Em nota, a pasta estadual destacou que a "decisão foi tomada em conjunto com a equipe de especialistas do Conselho de Análise Epidemiológica que assessora a vigilância". Apesar disso, os boletins das corporaçõesnão citam essa possibilidade. A SES não falou sobre a falta de doses nem sobre a previsão de entrega de novas remessas de AstraZeneca ao estado.

A falta de AstraZeneca também está sendo sentida nas polícias Civil e Militar, que, apesar da decisão da SESde autorizar a combinação de vacinas, comunicaram a seus agentes que a vacinação com a segunda dose do imunizante realizada nos batalhões está suspensa no momento. A informação consta nos boletins internos das corporações desta última quinta-feira. Nenhum doscomunicados traz uma data de previsão de retomada da imunização.Segundo o informativo da PM, a paralisação se dá "devido a não chegada dos insumos na Secretaria Estadual deSaúde". A corporação diz que os agentes que já estiverem na data para completar o esquema vacinal com a segunda dose podem buscar por atendimento em postos de saúde fora dos batalhões, e que seja apresentado o comprovante na corporação para atualização do cadastro interno.

Covid-19: mesmo com Delta predominante, Rio tem queda nos indicadores, e seis regiões descem nível de alerta para moderado"O Comandante Geral no uso de suas atribuições legais e atendendo proposta da Diretora Geral de Saúde informaque a Campanha de Vacinação contra Covid-19, para ser realizada a administração da 2ª dose da vacina AstraZeneca, realizada pela Equipe do SASP para os policiais militares da ativa será interrompida, devido a não chegada dos insumos na Secretaria estadual deSaúde", diz trecho do boletim da PM.Já no comunicado da Polícia Civil, é avisado apenas que há suspensão da segunda dose e que os agentes serão avisados sobreo retorno da imunização. "(...) Comunica a todos os policiais civis e colaboradores que, por motivos de força maior, está suspensa a aplicação da 2ª dose da vacina AstraZeneca, indicada na carteira de vacinação de cada servidor. Assim que for restabelecidaa vacinação, estaremos informando aos policiais Civis e colaboradores."

A vacinação contra a Covid-19 nos batalhões para agentes de segurança da ativa no Rio é realizada desde 14 deabril, que também ocorreu de forma escalonada por idade.

No mês passado, a Secretaria estadual de Saúde (SES) autorizou o uso da segunda dose da vacina contra a Covid-19da Pfizer em pessoas que receberam a primeira da AstraZeneca. Na época, a pasta destacou que a intercambialidade (mistura de imunizantes) só poderá ser colocada em prática "caso o estado do Rio de Janeiro não receba doses do imunizante Oxford/AstraZeneca emquantidade suficiente para completar o esquema vacinal de quem já recebeu a primeira dose".

Procuradas, as polícias Civil e Militar não retornaram.

Redução de volume de entregas previstoNas últimas semanas, a Fiocruz retardou seu cronograma de entregas da vacina da AstraZeneca para todo o Brasilpor falta do ingrediente farmacêutico ativo (IFA) importados da China. Eles serão necessários para a fabricação do imunizante no Brasil até que a Fiocruz inicie a produção de IFA nacional, o que deve acontecer em outubro. Além disso, já estava prevista a partirde julho uma redução nos volumes entregues mensalmente pelo instituto ao Plano Nacional de Imunizações (PNI), devido ao próprio cronograma de envios estabelecido em contrato diretamente com o Ministério da Saúde.Portanto, a escassez da vacina da AstraZeneca nos meses de agosto e setembro já estava no horizonte dos gestores.Em preparação para o novo cenário, a cidade do Rio de Janeiro chegou a liberar, no mês passado, a aplicação de uma segunda dose de Pfizer em quem tomou a primeira de AstraZeneca. A decisão, anunciada à época com o pretexto de estimular a procura pela segundainjeção, extrapolou para todos os públicos uma orientação da Secretaria estadual de Saúde (SES) divulgada dias antes, segundo a qual, em caso de falta de AstraZeneca no posto, os vacinados com a primeira dose dessa vacina poderiam tomar a segunda de Pfizer.O secretário municipal de Saúde da capital, Daniel Soranz, diz que a vacina da AstraZeneca pode se esgotar nomunicípio até a semana que vem, para a primeira dose e também para a segunda. Mas ressalta que, considerando o estoque atual de vacinas da Pfizer da cidade e as previsões de entregas do laboratório alemão estabelecidas em contrato com o governo federal nospróximos meses, há doses suficientes do imunizante para a aplicação da segunda injeção tanto nos vacinados com a primeira dose da própria Pfizer quanto naqueles que iniciaram seu esquema vacinal com a fórmula da AstraZeneca.

— Em todo o Brasil, temos agora uma quebra da produção da vacina da AstraZeneca, anunciada pela própria Fiocruz.A previsão é de que aconteça uma interrupção de três semanas nas entregas, e já estamos recebendo quantidades muito menores. Já sabíamos que faltaria a AstraZeneca para a segunda dose, e isso vai acontecer em muitos locais. Por isso, há cerca de quatro semanas autorizamosa segunda dose da Pfizer em quem tomou AstraZeneca. Não há nenhum problema no Rio com essa interrupção, já que a combinação dessas vacinas é segura e tão ou mais eficaz — explica Soranz.

Ele lembra ainda que uma nova remessa da vacina da AstraZeneca está programada para chegar às instalações doMinistério da Saúde na próxima semana.

Previsão de novas dosesEm nota, a Fiocruz informou que recebeu, na última sexta-feira, mais um lote de IFA suficiente para a produçãode 4,5 milhões de doses. Segundo o instituto, a remessa, somada às duas anteriores recebidas no mês de agosto, comporá as entregas ao Ministério da Saúde no mês de setembro. "Com o novo lote, já estão asseguradas para este mês cerca de 15 milhões de vacinas.O quantitativo de doses a ser entregue em setembro poderá ser reajustado conforme a chegada de novas remessas de IFA", diz o comunicado.

Responsável pela produção das vacinas, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz)afirma que tem capacidade de produção superior à de disponibilização do IFA e aguarda a confirmação das datas para a chegada dos próximos lotes do insumo ainda no mês de setembro.

Como as remessas de IFA previstas para agosto só chegaram ao país no fim do mês passado, entre os dias 25 e30, as entregas do mês de setembro estão programadas para se iniciar apenas na semana que vem, informa o instituto. Afinal, todo o processo desde a chegada do insumo até a entrega da vacina leva cerca de três semanas, incluindo o período de controle de qualidadedas vacinas. "Todas as doses relativas ao lote de IFA recebido em 25/08 já foram produzidas e estão na etapa de controle de qualidade. Parte do lote recebido em 30/08 também já foi produzida. Neste momento, há 6,1 milhões de doses na etapa de controle de qualidadee o restante em produção", escreve a Fiocruz.O instituto pontua ainda que a farmacêutica AstraZeneca "tem garantido entregas mensais de lotes de IFA, conformeacordado. No entanto, a Fiocruz tem buscado acelerar o envio das remessas junto à farmacêutica de forma a garantir entregas semanais ininterruptas".

Situação epidemiológica Embora a variante Delta corresponda a 95,8% dos casos de Covid-19 no Rio de Janeiro, a cidade registra quedanos indicadores da pandemia, provocada, na avaliação da prefeitura, pela vacinação. A Secretaria municipal de Saúde (SMS) também atribui o panorama às próprias características da nova linhagem, que no Rio, segundo a pasta, causou quadros mais leves do que asoutras cepas, apesar de ser mais transmissível. O anúncio foi feito nesta sexta-feira, na divulgação do 36° boletim epidemiológico da cidade.

Nesse novo contexto, o município resolveu descer o nível de alerta em algumas Regiões Administrativas (RAs)de alto para moderado. Além disso, a prefeitura publicou no Diário Oficial um decreto que mantém as medidas restritivas em vigor na cidade, mas reduz o distanciamento obrigatório em academias, lojas e pontos turísticos. O novo documento, em vigor a partir deontem, é válido até o dia 20 de setembro. O texto ainda cita a solicitação para a realização de eventos-teste.

As seis RAs onde o nível de alerta está moderado são Zona Portuária, São Cristóvão, Penha, Ilha de Paquetá,Santa Teresa e Barra da Tijuca. Anteriormente, todas as 33 RAs estavam com nível alto de risco de transmissão de contágio. As demais regiões continuam com risco alto. Pelas últimas cinco semanas, todo o município permaneceu classificado com alto nível de probabilidadede contágio.

Nas internações por síndrome respiratória aguda grave (SRAG), a redução foi de 26% entre o total da semana passada(semana epidemiológica 35) e o total de duas semanas antes (semana epidemiológica 33). No período mais recente, foram novas 488 hospitalizações em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) do município; no período anterior, esse total ficou na marca de 660 novasnotificações semanais.

— Nos atendimentos de rede de urgência e emergência, temos tido uma redução dos atendimentos. Essa redução continua,pois já tínhamos mostrado na semana passada — explicou o subsecretário de Vigilância em Saúde, Márcio Henrique Garcia. — A queda se confirma também nas internações. Comparando a semana 35 com a 33, tivemos 26% de queda nesse indicador. Antes tínhamos 10%, entãoa redução vem aumentando. Nossa fila continua zerada, e ontem chegamos a ficar com menos de 700 pessoas internadas.

Segundo Garcia, os números de casos confirmados por semana epidemiológica dos primeiros sintomas seguem a mesmatendência. No contexto da predominância de uma variante mais contagiosa, esse índice é especialmente relevante para a projeção do futuro cenário epidemiológico da cidade, devido a um possível impacto no número de mortes. Mas ele também é mais suscetível a imprecisõescausadas pelo atraso nas notificações.

— Depois de várias semanas de aumento importante, tivemos uma queda. E, no gráfico de óbitos, depois que vimosum aumento e depois uma estabilização nesse aumento, a tendência começamos a observar também uma redução. Seguimos com muita atenção para o perfil epidemiológico das próximas semanas.

A prefeitura também informou que a variante Delta correspondeu a 95,8% dos casos do Rio em agosto. Ela já foiidentificada em 249 amostras de sequenciamento genômico e provocou oito mortes. A Secretaria municipal de Saúde (SMS) reforçou que o aumento de casos provocado pela nova linhagem não se refletiu, não ao menos na mesma intensidade, no número de mortes.— É importante, quando a gente olha para o mapa da Delta, a gente (dizer que) já sabia que ela seria predominante.Hoje, quase todos os casos da cidade são da variante Delta. E quando a gente olha a relação entre o número de casos identificados da Delta e o número de óbitos, a gente tem uma letalidade na cidade muito menor do que a gente tinha anteriormente. Claro que issopode ser efeito da vacinação, mas temos uma taxa de letalidade muito menor com a variante Delta, que tem causado casos mais leves — disse o secretário Daniel Soranz.

Na análise do pesquisador Marcelo Gomes, membro do grupo de Métodos Analíticos em Vigilância Epidemiológica(Mave) da Fiocruz e um dos responsáveis pelo boletim InfoGripe, a pandemia de fato se abrandou no município, mas isso não pode servir de argumento para uma flexibilização súbita e radical. Para ele, o movimento de reabertura que a cidade esboça, se não forfeito com cuidado, pode puxar os números de volta para cima.

— O que a gente tem visto nas últimas atualizações é uma estabilização nos indicadores. Há uma tendência muitoclara de interrupção da tendência de crescimento observado entre julho e agosto. O cenário nos permite comemorar essa mudança, já que todo aquele medo diante da variante Delta não se materializou, as projeções mais pessimistas não se concretizaram. Mas os valoresainda são expressivos. Estamos numa situação ainda distante dos melhores momentos do ano passado, por exemplo. Temos uma série de medidas pouco restritivas e isso pode levar a um novo aumento de casos. Se avançarmos com as flexibilizações, podemos retomar atendência de agravamento. Uma das razões para a Delta não ter avançado mais no município foram justamente as medidas de proteção à vida e o esforço de combate ao contágio daqueles que se preocuparam — avalia.

Ele destaca ainda que a redução no número de casos precisa se confirmar nas próximas semanas, já que esse indicadoré mais propenso a atrasos causados pela demora nas atualizações:

— A prefeitura se baseia no número de novas internações semanais, um índice que tende a ser mais preciso, masnão está disponível para consulta. É um dado interno.

Para Leonardo Bastos, que também integra o Mave e participa da elaboração do boletim InfoGripe, cautela é oque deve nortear o posicionamento dos gestores daqui para frente.

— Acho que, nesse momento, as flexibilizações aqui no Rio são precoces. Os indicadores da prefeitura indicamqueda nos casos graves e os indicadores do InfoGripe indicam interrupção de crescimento, o que é consistente com a vacinação do município na qual toda população adulta já foi oferecida ao menos uma dose. Embora reduzam internações e mortes, as vacinas não reduzema transmissão, que ainda é alta. As medidas de flexibilização são desejadas, mas no estágio atual de transmissão seria mais adequado aguardar um pouco mais para confirmar a queda nos indicadores — pontua.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos