Cariocas voltam às rodas de samba, agora permitidas pela prefeitura do Rio

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Batucada, chope gelado e o coro que estava engasgado. Aos poucos, as rodas de samba características da boemia do Rio voltam às atividades. Neste sábado (29), em diferentes pontos da cidade, sambistas oficialmente puderam reencontrar o público, seguindo o último decreto desta sexta-feira que flexibilizou as medidas restritivas na cidade contra a pandemia de Covid-19.

As novas regras, como a redução do distanciamento entre as mesas e a suspensão de horário limite para música ao vivo em bares e restaurantes, vigoram pelo menos até o dia 14 de junho. Na roda de samba do Clube Renascença, no Andaraí, Zona Norte do Rio, músicos o público presentes retomaram o compasso.

O evento permitiu a entrada por meio da compra de ingressos online, para evitar filas. Diferente dos eventos que normalmente ocorriam no Renascença, houve uma presença menor de público. Alguns de máscara. O movimento menor neste sábado, para o presidente do clube, Alexandre Xavier, era algo esperado.

— Fazemos o possível para restringir aglomeração, mas voltamos pois a categoria estava precisando. No momento mais crítico da pandemia deixamos de pagar salários e décimo terceiro. Não teve jeito. O clube foi se reerguendo aos poucos com ajuda dos sócios. Alguns deles pagaram mensalidade até 2023.

Xavier chegou à primeira gestão como presidente seis meses antes da pandemia. Segundo ele, com as atividades do clube encerradas em dezembro, precisou se adaptar ao momento de pandemia para custear as despesas e não deixar o clube parado. Xavier realizou projetos para editais da prefeitura, um deles através da Lei Aldir Blanc, de incentivo à cultura.

— A gente fez feiras literárias e lives de dentro do clube para manter em funcionamento o Renascença. Foi um período difícil, até porque, no meu entendimento, as rodas demoraram para voltar. Foi uma surpresa essa liberação.

Para a gerente comercial Fernanda Mattos, de 40 anos, ante aos cuidados necessários que a pandemia impôs, as rodas de samba não se diferenciam tanto de outras atividades que já haviam sido liberadas, como o funcionamento de bares. Segundo ela, as medidas tem elementos contraditórios.

— A gente anda de máscara na rua, senta em um bar, com todos em roda, e tira a máscara. Fica difícil saber o que é o certo. É um outro formato de convivência. Em outros tempos eu estaria lá no meio do samba - afirmou Fernanda, que estava em uma mesa mais afastada da roda.

Pela primeira vez numa roda de samba após o início da pandemia, o jornalista Henrique Moura, que levou consigo um tubo de álcool em gel, acredita ser viável o retorno das rodas em clubes como o Renascença, onde é possível um maior controle do movimento.

— No ano passado, quando estava mais flexível, eu fui num samba no Largo dos Guimarães. Este ano, só agora me sinto seguro em vir em sambas, como aqui. Mas se começar a encher demais eu vou embora.

Wanda Lopes, de 73 anos, frequentadora assídua da batucada em Padre Miguel e na quadra da Portela, esteve longe das rodas desde o início da pandemia. Durante o período, assistiu lives dentro de casa com vizinhos e o marido para espantar a saudade de sambar.

— Sambei muito em casa. Minha família é grande e toda festa precisa ter pagode, então a gente precisou fazer em casa mesmo. Graças a Deus que o samba voltou - disse Wanda, acompanhada do marido.
No anúncio da retomada das rodas, o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, as rodas de samba foram liberadas pois, ao contrário das boates, as pessoas ficam mais separadas e, portanto, fica mais fácil seguir as medidas sanitárias.

— Tem de haver distanciamento, não pode aglomerar. Numa boate, é mais apertado — disse em entrevista à TV Globo.

Até que voltassem à funcionar, músicos e profissionais ligados às rodas seguraram as pontas para não perder o compasso. Em meio à proibição, músicos criaram redes solidárias para auxiliar desde os ambulantes que trabalham nas rodas até os DJs.

Entre as ações de auxílio, a iniciativa de Gabriel da Muda, cantor no Samba do Trabalhador, também no Clube Renascença, e fundador do Samba da Ouvidor, chegou a entregar cestas básicas aos parceiros do mundo do samba mais afetados pela paralisação da atividade no Rio.

Em junho do ano passado, Da Muda começou a distribuir cestas básicas em conjunto com amigos que eram donos de bar. Ele conta que organizou uma ação na qual os donos lhe cediam recheios para empanadas que eram vendidas pelo seu parceiro de iniciativa, o cozinheiro Diogo Homem. Com o dinheiro das vendas, Cavalcante comprava cestas básicas e distribuía pessoalmente aos funcionários de rodas de samba em diversos bairros.

— Foram semanas vivendo em função das entregas, que foram em Bangu, Campo Grande e outros bairros. Foi cansativo, mas muito emocionante ver como uma cesta básica muda a vida de uma pessoa num momento desses — afirmou Cavalcante.

Gabriel da Muda afirma que buscou ajudar diferentes profissionais no circuito das rodas de samba, desde vendedores de cachorro-quente e amendoim, com dificuldades de pagar as despesas de casa, até músicos que estavam em busca de ações beneficentes para se manter durante a pandemia.

— Fiz questão de ir até essas pessoas que são tão importantes na noite carioca e dar um aperto de mão, mostrando que tinha gente do lado dele naquele momento de dificuldade. Foi gratificante ver padrinhos de samba, os quais admiro, nos dar um retorno tão bacana.

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