Carlos Cereto: até quando vamos passar pano para casos de assédio?

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Carlos Cereto (Foto: Instagram)
Carlos Cereto (Foto: Instagram)

As denúncias de assédio moral e sexual datam de 2013. A condenação saiu em 2019. Mas foi só em 2021 que o jornalista Carlos Cereto deixou oficialmente o quadro de funcionários da TV Globo, onde atuava como comentarista do SportTv. O nome do profissional segue em alta, recentemente, por conta dos relatos que continuam a aparecer sobre a sua atuação na redação do programa - e o questionamento que fica é: por que levou tanto tempo para que algo fosse feito a respeito?

É claro que, acima de tudo, é preciso considerar a investigação e esperar que os órgãos competentes tomem as devidas atitudes a respeito do caso. Mas, ainda assim, o que aconteceu com a equipe de Cereto não é nenhuma novidade e, mais de uma vez, vemos como grandes empresas costumam manter o silêncio a respeito de casos de assédio, principalmente quando as vítimas são mulheres. E, como bem sabemos, esse é o caso em boa parte das situações relatadas.

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Importante notar que o Brasil tem índices altos de assédio sexual no ambiente de trabalho. Uma pesquisa desenvolvida pelo Linkedin em parceria com a Think Eva relatou que 47% das mulheres já sofreu algum tipo de investida inadequada no ambiente profissional - e, dentre elas, 15% pediu demissão depois do ocorrido e apenas 5% recorreram ao departamento de recursos humanos da empresa para relatar o caso.

Esses números são importantes porque mostram a defasagem de proteção quando se fala em casos de assédio. Muito se diz como o assédio moral é uma porta de entrada para o assédio sexual e, em ambos os casos, o ponto-chave é a vítima decidir denunciar o que aconteceu aos órgãos responsáveis. Quando se fala em estupros no Brasil, por exemplo, é válido lembrar que alguns estudos indicam que mais de 50% dos casos não são reportados às autoridades - ou seja, é um crime muito subnotificado.

Relações de poder, mentalidade machista e medo da punição

Citar esses dados é essencial para compreender o porquê, muitas vezes, esses casos acabam indo para debaixo do tapete, outras vezes são esquecidos ou, até mesmo, publicamente ignorados. O que existe por trás disso tudo é a questão das relações de poder e da mentalidade machista, que geram um medo exacerbado da punição.

Funciona assim: os homens, ainda maioria em cargos de gestão e liderança (eles são 97%, segundo um estudo da Bain & Company em parceria com o LinkedIn), são detentores do poder. E isso é válido tanto na esfera profissional quanto na esfera social. Como os principais responsáveis por contratações e demissões e, segundo uma visão ainda vigente de que as mulheres são inferiores aos homens (não à toa, os homens se sentem confortáveis para se candidatarem a uma vaga de emprego quando correspondem à apenas 60% das atribuições solicitadas, enquanto, para as mulheres, esse valor sobe para 100%), seguem a noção de que podem tudo e, quem está abaixo, precisa aceitar o que recebe - principalmente se esse alguém for uma mulher.

Se o homem em questão é, de fato, muito poderoso, falar sobre uma situação de assédio se torna ainda mais complicado - até porque, é comum esses casos virem acompanhados de ameaças de demissão ou de "queimar" o nome de uma profissional na sua área de atuação. Por isso, movimentos como o #MeToo, que marcou Hollywood, se tornam tão poderosos. Foi preciso um grupo grande de mulheres para que homens muito influentes no meio começassem a ser questionados sobre a sua conduta profissional. O caso Harvey Weinstein é um exemplo disso.

O filme O Escândalo, de 2019, retrata um caso real e muito semelhante ao citado anteriormente. Nele, jornalistas da rede Fox News decidem se unir para falar sobre a conduta do presidente da emissora, Roger Ailes, que se afastou voluntariamente do cargo em 2016, após ser acusado de assediar sexualmente a apresentadora Gretchen Carlson. O que o filme exemplifica é que para derrubar um homem poderoso, é necessária a coragem de muitas mulheres. Entretanto, para derrubar profissionalmente uma mulher, basta um homem (e ele nem precisa ser poderoso).

É justamente o medo da punição que mantém muitas mulheres em silêncio sobre a violência que sofreram ao longo da carreira. Vale lembrar, inclusive, a repercussão do caso José Mayer, aqui no Brasil, em que uma figurinista decidiu denunciar formalmente as atitudes do ator - que, depois, se retratou dizendo que foi assim que aprendeu a se relacionar com as mulheres. De fato, a geração de Mayer realmente aprendeu uma forma de relação homem-mulher ainda muito pautada pelo machismo e o patriarcalismo. Isso não isenta comportamentos como o do ator, muito menos a importunação que a profissional sofreu depois da acusação (e o que, muitos dizem, foi o que a fez retirar as queixas).

Os tempos são outros. E por mais complexo que possa parecer, atualizar a mentalidade é essencial para que casos como o de Cereto não aconteçam mais, ainda mais quando se fala em mulheres. Se, nos anos 1990, um Jean-Claude Van Damme excitado ao dançar com Gretchen no "Programa do Gugu" era permitido, hoje em dia, esse tipo de entretenimento nem pode mais ser chamado assim - é humilhante, constrangedor e desrespeitoso. O mesmo vale para assédio no ambiente de trabalho. Seja moral ou sexual, é sempre tentativa de manutenção do poder pelo elo mais forte da hierarquia social. E, vamos combinar, é mais do que hora de equalizar essa balança, mas, para que isso aconteça, é preciso que os panos quentes sejam guardados e inutilizados e as grandes empresas tomem a iniciativa como precursoras de grandes mudanças.

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