Carlos Drummond de Andrade: o Rio que o poeta viu e deixou em forma de crônica e poesia

Itabira, segundo um conhecido verso de seu filho mais ilustre, é “apenas uma fotografia na parede”. Aos 18 anos, o mineiro Carlos Drummond de Andrade trocou a pequena cidade onde nasceu por Belo Horizonte. Depois, em 1934, chegou à então capital federal e nunca mais saiu: passou a maior parte de sua existência no Rio de Janeiro. Morreu aqui, aos 85 anos, em 1987. As comemorações em torno dos 120 anos de nascimento de um dos nossos maiores poetas — a data exata foi 31 de outubro — chamam atenção para sua presença na cidade. As marcas deixadas foram muitas. Vão da estátua em sua homenagem no Posto 6, campeã de selfies entre turistas, a outras lembranças bem mais sutis do que o monumento na orla, com seus 150 quilos de bronze.

— Costumo dizer que Drummond foi um poeta essencialmente mineiro, mas como cronista era, sem dúvida, carioca. A relação dele com a cidade é profunda e fortíssima. É impressionante como ele consegue falar do Rio de Janeiro de uma maneira crítica e ao mesmo tempo amorosa, apaixonada — diz Edmílson Caminha, jornalista e escritor, autor de três livros sobre o poeta.

O próprio homenageado parece concordar com Caminha, no texto “A primeira vez”, quando escreve: “O Rio ainda é o maior e melhor assunto, além de ser o melhor ponto de vista”.

Em território carioca, Carlos Drummond de Andrade ocupou apenas dois endereços, ambos em Copacabana. Morou na Rua Joaquim Nabuco 81, de 1934 a 1962, e depois mudou-se para o apartamento 701 do Edifício Luiz Felipe, na Conselheiro Lafayete 60, fronteira com Ipanema.

Óculos a salvo

Perto dali, sua estátua permanece sentada em um banco de praça há 20 anos.

— Eu queria uma foto ao ar livre para fugir dos registros mais comuns do poeta. Quando chegamos ao banco no calçadão pedi para ele ficar de costas para a praia. Ele sentou, me olhou e disse assim: “Minas não tem mar, como você ousa posicionar um mineiro de costas para a praia?”. Expliquei que era para que o leitor visse a paisagem e ele concordou imediatamente — lembra o fotógrafo Rogério Reis, que em 1983 registrou a imagem usada como modelo, anos mais tarde, pelo escultor Leo Santana.

Nas últimas duas décadas, a estátua de Drummond conheceu o melhor e o pior do Rio. É prestigiada por turistas e locais, mas já virou notícia policial em pelo menos 14 oportunidades, de acordo com a prefeitura do Rio. Ladrões têm surrupiado com impressionante frequência seus óculos de bronze.

As lentes originais, para alívio geral, estão muito bem guardadas em uma sala da Fundação Casa de Rui Barbosa, em Botafogo. A instituição cuida do arquivo do autor, com cerca de 12 mil documentos que vão de boletins escolares à vasta correspondência trocada com amigos como Manuel Bandeira, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Mário de Andrade. O arquivo está aberto a consultas, mediante agendamento por e-mail (consulta.acervo@rb.gov.br).

A escultura da praia não foi a primeira homenagem recebida pelo poeta em Copacabana. Na década de 1990, o prefeito Marcello Alencar promoveu a revitalização da pequena praça no encontro da Avenida Rainha Elizabeth com a Rua Conselheiro Lafaiete. O local foi batizado como Largo do Poeta, em referência ao morador da vizinhança. O Rio foi marcado por Drummond e, ao mesmo tempo, atravessou sua obra.

O Centro tem importância marcante nessa história. O Palácio Capanema, um dos edifícios mais emblemáticos do bairro, foi local de trabalho do poeta durante décadas. Drummond chegou ao Rio para ser chefe de gabinete do amigo Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde Pública à época. E seguiu no Capanema como funcionário da antiga Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN), por onde se aposentou, em 1962.

‘Cronista do Rio’

No artigo “Drummond, cronista do Rio” a professora Beatriz Resende, da UFRJ, conta que o posicionamento do escritor como conselheiro do ministro Capanema foi chave para definir o projeto modernista da construção.

— Não fosse a atuação de alguns conselheiros, entre os quais o Drummond tinha papel relevante, talvez o prédio que conhecemos hoje e que tanto admiramos fosse diferente — diz a professora.

Para Beatriz Resende, ao andar pela cidade e conhecer seus espaços, cafés, restaurantes, pequenas ruas, tudo vai se somando como fonte que vai alimentar a produção literária dele.

Bem perto do Palácio Capanema, em outro prédio imponente, a Biblioteca Nacional, Drummond tinha até lugar cativo: a cadeira 04 do salão de obras gerais, no primeiro andar.

Mais recantos da cidade são lembrados em sua obra. O poema “Canto do Rio em sol” desfia bairros — Tijuca, Urca, Irajá, Pavuna e Maracanã —, enquanto os versos de “A livraria” exaltam uma livraria de verdade, a histórica Leonardo Da Vinci, no Centro. Já “Rio: ontem, hoje, amanhã”, incluído no livro “Viola de Bolso”, vai do Pão de Açúcar às crianças da cidade, passando por macumba, futebol e carnaval (e por falar em samba, a Mangueira sagrou-se campeã no desfile de 1987 com enredo em sua homenagem). O poema não economiza nos elogios: “E quando o sol de ouro irrompe / na ressurreição do dia e da carne, / sentimo-nos puros, pecadores / privilegiados por Deus, que é brasileiro/ ou talvez carioca”.