Carmen Maria Machado explora limites do MeToo em livro sobre relação abusiva

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*ARQUIVO* PARATY, RJ, BRASIL, 13-07-2019: Carmen Maria Machado. (Foto: Eduardo Anizelli/ Folhapress)
*ARQUIVO* PARATY, RJ, BRASIL, 13-07-2019: Carmen Maria Machado. (Foto: Eduardo Anizelli/ Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Que o leitor não se engane —a casa dos sonhos que dá nome ao novo livro de Carmen Maria Machado é real. "Tão real quanto o livro que você tem nas mãos, e bem menos assustadora. Se eu quisesse, poderia te dar o endereço para que você fosse até lá com seu carro", diz a escritora americana no primeiro capítulo da obra, lançada agora pela Companhia das Letras.

A casa fica em Bloomington, Indiana, no centro-oeste americano, uma construção rústica, aquecida por fogo a lenha, longe do burburinho da cidade. E serve de cenário para o desenrolar de um relacionamento turbulento entre Machado e outra escritora, uma paixão a princípio avassaladora que aos poucos se revela profundamente abusiva.

Já o alerta de Machado sobre a existência do lugar vem do fato de que "Na Casa dos Sonhos" é menos uma autobiografia convencional e mais uma miscelânea de estilos, referências, gêneros literários, textos em que o limite entre o real e o imaginado se confundem.

Mesmo o título remete a esse "estado de separação entre corpo e mente". "É uma fantasia, um pesadelo, e tudo isso junto", diz a escritora americana, por videoconferência, da Filadélfia, onde mora.

Para escrever sobre si mesma, assim, ela recorre a verbetes de um dicionário de temas folclóricos, memórias da descoberta da sexualidade, análises de casos criminais envolvendo casais lésbicos, ensaios sobre filmes de terror e episódios de "Star Trek". Em um trecho, chega a emular os livros-jogos que, populares nas décadas de 1980 e 1990, deixavam o caminho da narrativa a cargo do leitor —basta avançar para uma ou outra página para descortinar um final diferente.

Verdade que, como afirma uma resenha do livro publicada no New York Times, a mistura de estilos logo soa como "a única forma justa de contar a história de um casal. Que relação só existe em um gênero? Que vida?".

Mas ela faz ainda mais sentido para uma escritora como Machado. Sensação com o livro de estreia "O Corpo Dela e Outras Farras", finalista no National Book Award de ficção em 2017, a escritora de 34 anos exibia desde lá marcas como o diálogo com a cultura pop, o interesse pela sexualidade e a experimentação formal —um dos contos, "Especialmente Hediondas", reúne 272 sinopses de capítulos falsos da série "Law and Order".

"Não me interesso muito pelas hierarquias que as pessoas criam em torno da cultura. Se estou assistindo a algo, jogando videogame, ou lendo um livro ou uma HQ, aquilo se transforma em mim", diz a escritora, completando que os gêneros em que a ficção costuma ser dividida são "só um jeito de falar das regras de um determinado mundo".

Destes mundos, o seu preferido é o terror. Na trama, ele se esgueira pelas paredes da casa do título, e parece assombrar o casal de namoradas nos instantes mais inocentes, bastando que fiquem a sós —uma viagem de carro, uma festa à fantasia.

É um pendor pelo sombrio que Machado compartilha com uma série de outras escritoras contemporâneas, latino-americanas em especial. Questionada sobre o porquê da efervescência do gênero nos últimos tempos, ela responde que ele oferece como poucos a possibilidade de subversão.

"Muito do terror tem a ver com medo e tabu", diz. "Historicamente, muitas dessas histórias eram misóginas e racistas, porque as pessoas que as escreviam o eram e elas refletiam ali seus medos e ansiedades. Mas quando você oferece essa ferramenta de subversão, de confronto com o tabu, a um negro, ou a uma mulher, ou a uma pessoa queer, você de repente consegue subverter o paradigma do que quer que seja."

Mais do que narrar suas próprias vivências nos moldes de um romance gótico, porém, fica claro no livro o desejo de Machado de escrever sobre como o abuso doméstico entre casais homossexuais é não só possível, como relativamente comum. Um tema que, como ela mesma já disse em entrevistas anteriores, pertence às áreas mais cinzentas do MeToo.

"A questão é que as pessoas querem impor travas ao MeToo, o restringindo a casos em que alguém foi estuprado por uma pessoa famosa e enfim pode dizer em público algo que não se sentia confortável em compartilhar antes. Mas e quem foi estuprado por pessoas que não são famosas? E quem não foi estuprado, mas sofreu outros tipos de abuso?", questiona.

"As pessoas se baseiam nos limites da lei. Mas você pode fazer coisas ruins e sexistas que não são ilegais. Me interesso pelas formas como falamos sobre dinâmicas de gênero problemáticas em geral."

Não que a escritora veja o MeToo, aliás, como irreversível —mesmo que reconheça ter se beneficiado da onda de obras feministas que parece ter nascido a partir dele. "É claro que as pessoas se sentem acolhidas, e isso é muito poderoso", diz. "Mas logo depois a cultura voltou atrás e passou a demonizar pessoas trans."

"Estou agora numa batalha contra uma escola no Texas que está tentando tirar meu livro de uma lista de leitura porque um grupo de mães religiosas não gosta do fato de que ele tem personagens gays. Então é claro que vamos adiante. Mas é como dar dois passos para frente e um para trás."

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