Carnaval 2022: após cancelamento de cidades em São Paulo e risco de suspensão da festa em Salvador, a folia no Rio está ameaçada?

·7 min de leitura

RIO — Incertezas rondam o carnaval de 2022 em vários cantos do país. Em São Paulo, pelo menos 70 cidades cancelaram as tradicionais comemorações de rua por receio de que elas resultem num aumento de infecções. Em Salvador, para que as multidões voltem a tomar as ruas nos cordões carnavalescos, 90% da população total da cidade precisará estar com o esquema vacinal completo, de acordo com uma recomendação da Fiocruz da Bahia. E na cidade do Rio, que já recebeu pelo menos 560 inscrições de blocos de rua para a folia do ano que vem? O “maior carnaval da história”, como prometeu o prefeito Eduardo Paes, está ameaçado?

Até agora, tudo indica que não. A Secretaria municipal de Saúde (SMS) acredita que o atual cenário epidemiológico da cidade não traz nenhuma evidência de que as comemorações não possam acontecer. Por isso, de acordo com a Riotur, o edital do carnaval, publicado no Diário Oficial em 6 de agosto, continua valendo, sem qualquer mudança.

Segundo o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, a posição da pasta se baseia no entendimento do comitê científico de enfrentamento à Covid-19 (CEEC), grupo de especialistas que assessora a prefeitura na tomada de decisões sobre a pandemia, sobre o tema.

— Já tivemos duas reuniões do comitê sobre o assunto. Não existe nenhuma evidência científica que diga hoje que uma população com alta cobertura vacinal e com baixo número de casos circulantes tenha que ter qualquer medida restritiva. Hoje, apenas 0,4% das internações da cidade são por Covid-19. Nossos indicadores estão há 14 semanas em queda sustentada. Precisamos ser coerentes com a nossa realidade — afirma.

Já a Secretaria de Estado de Saúde (SES) sinaliza que não pretende, a princípio, contrariar os planos da capital. Segundo Alexandre Chieppe, titular da pasta, o governo estadual só estabelecerá restrições para o período do carnaval caso entenda, a partir da deliberação de seu grupo técnico de assessoramento (equivalente ao comitê científico do Rio), que as festas de rua trarão riscos à população. O assunto, no entanto, ainda terá de ser discutido internamente.

— A tendência é que a gente faça um alinhamento entre os comitês (do município e do estado). Não recebemos oficialmente da prefeitura do Rio ou de qualquer outra prefeitura as propostas de flexibilização que estão sendo feitas. Obviamente a gente vai participar, conversar com o Ministério da Saúde para saber qual sua posição sobre as festas. Vamos fazer essa discussão no âmbito técnico com nossos especialistas, mas ainda não temos nenhuma posição definida, até porque não fomos formalmente questiondos (pela prefeitura) — explica.

Polêmica

A avaliação dos técnicos da SMS não é unânime. Os planos atuais da prefeitura do Rio para o carnaval do ano que vem estão na mira do Ministério Público e da Defensoria Pública, que na sexta-feira passada entregaram ao município uma recomendação conjunta em que pedem que o CEEC reveja seus critérios sanitários para a realização das grandes festas previstas para este verão. Em sua última discussão sobre o assunto, o CEEC liberou a prefeitura para realizar o réveillon e o carnaval normalmente, contanto que a atual situação epidemiológica do município permaneça como está, sem reveses.

Um dos signatários do ofício é a defensora Thaisa Guerreiro, coordenadora de Saúde e Tutela Coletiva da Defensoria Pública, para quem o formato do carnaval de 2022 concebido pela prefeitura pode trazer riscos à população.

— Ontem, a diretora geral assistente da Organização Mundial da Saúde reiterou que a vacinação, de forma isolada, não é suficiente para evitar um novo surto de Covid-19 e que a abertura no carnaval é uma condição extremamente propícia para para o aumento da transmissão comunitária. Ou seja, o consenso científico sobre a necessidade de cautela no momento atual está posto — diz.

O documento do MP e da Defensoria cita um relatório elaborado por especialistas não vinculados à prefeitura que traz uma visão diferente sobre o assunto. A pedido da Comissão Especial de Carnaval da Câmara de Vereadores, Roberto Medronho, professor titular de Epidemiologia da UFRJ, e Hermano Castro, ex-diretor da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Ensp/Fiocruz), propuseram cinco condições epidemiológicas para a realização do carnaval, como O GLOBO noticiou.

Entre elas, uma ainda não foi alcançada: a meta de vacinação. Segundo os especialistas, para um carnaval seguro, 80% das populações totais do município, do estado e do país terão de estar com o esquema vacinal completo. Na cidade, esse índice é de 76,8%; no estado, de 59,2%; e no país, de 60%.

A proposta vai ao encontro da recomendação da edição de 4 de novembro do Boletim do Observatório Covid-19 da Fiocruz, que sugere a mesma marca de cobertura vacinal para a realização de eventos com grande público. De acordo com os especialistas que integram o observatório, a meta segue as evidências científicas internacionais disponíveis, que consideram o aumento de circulação e interação de pessoas em épocas de férias. O epidemiologista Diego Xavier afirma que a queda nos indicadores percebida nos últimos meses se deve ao fato de que, nesse período, o Rio e o país não tiveram grandes eventos como o carnaval.

— Tivemos queda após a marca de 50% da população com esquema vacinal completo porque estamos em situação de rotina. Países da Europa que se movimentaram nas férias com esse nível com os mesmos 50% tiveram aumento nos indicadores. Ou seja, depende da exposição da população. Chegar a 80% para as férias seria o ideal — pontua.

Na área da Saúde Pública, os pontos mais delicados em se tratando de carnaval são o uso de máscaras e a manutenção do distanciamento social, duas medidas que se provaram eficientes na prevenção do contágio ao longo da pandemia e que são impossíveis de serem respeitadas num bloco de rua tal como o conhecemos. Nos desfiles de escola de samba, a Liesa já concebe exigir o “passaporte da vacina” para os espectadores, o que já confere um bom grau de proteção coletiva; no carnaval de rua, porém, essa fiscalização é mais difícil.

O comitê científico do Rio considera a marca de 75% da população total com esquema vacinal completo (que a cidade já atingiu) suficiente para a queda de diversas restrições contra a pandemia, como o uso de máscaras em locais fechados e a realização de eventos de grande porte. Para o epidemiologista Leonardo Bastos, outro membro do Mave-Fiocruz, a meta se baseia numa estimativa traçada a partir de dados iniciais da Covid-19, quando o vírus SARS-Cov-2 ainda não tinha assumido a transmissibilidade que tem hoje.

Ele explica que o nível mínimo de cobertura vacinal necessário para garantir a segurança da população depende da chamada taxa de transmissão básica do vírus (R0), que indica quantas pessoas um infectado pode contaminar, assumindo que todos os seus contactantes ainda não foram infectados e não estão vacinados. Essa taxa ficava em torno de 2 e 3 no começo da pandemia. Ou seja, um infectado era capaz de contaminar entre duas e três pessoas. Com base nisso, à época, cientistas em geral calcularam que a proporção de cobertura vacinal ideal contra a Covid-19 seria algo em torno de 75% da população total.

Com o passar do tempo e o surgimento de novas variantes, o R0 do coronavírus saltou para 5, o que também elevou a meta de vacinação que garante uma imunidade coletiva satisfatória.

— Aqueles 75% lá do começo da pandemia eram pensandos a partir de uma taxa de reprodução da doença na casa dos 2,5, de vacinas 100% eficazes, e para um vírus sem reinfecção. Hoje sabemos que essa taxa de reprodução é maior do que isso, as vacinas que temos não são 100% eficazes e a reinfecção ocorre. Tudo isso faz com que a cobertura vacinal tenha que ser realmente alta para uma proteção coletiva — explica.

Soranz esclarece que, mesmo sem vacinar crianças de 5 a 11 anos — público para o qual ainda não há vacina autorizada —, o Rio consegue atingir a marca de 88% da população total completamente vacinada. É por isso que o secretário vem investindo em estimular que os adolescentes e jovens tomem a segunda dose logo, caso já tenham completado o intervalo de 21 dias desde a primeira.

No entanto, para ele, a cidade já tem condições de realizar grandes eventos, considerando o cenário atual.

— Já temos grandes eventos, como rodas de samba e eventos em quadras de escolas, acontecendo há algumas semanas. E não notamos aumento nos indicadores, pelo contrário. Cada vez mais temos segurança para dizer que este é, sim, o momento para retomarmos um pouco da normalidade. Vamos manter o nosso monitoramento epidemiológico, que é bem sensível a mudanças, durante o carnaval. Se houver qualquer sinal de aumento de casos, internações ou positividade dos testes, vamos tomar as atitudes para interromper as atividades. O que podemos dizer neste momento é que temos muita segurança de que a alta cobertura vacinal, considerando também as doses de reforço, estão trazendo uma proteção individual e de grupo bastante alta — afirma.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos