Carnaval 2022: capitais da folia planejam festa ainda incerta e articulam comitê com cinco cidades para alinhar decisões

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RIO — Garota dos olhos de prefeitos e governadores após o recuo da pandemia da Covd-19 — à medida em que houve avanço na vacinação —, o carnaval de 2022, a pouco mais de 90 dias da data prevista para o feriado, ainda segue apenas como um vislumbre nas principais capitais do Brasil. A imprevisibilidade do vírus e o sinal de alerta aceso após uma nova onda de casos da doença ne Europa — onde já há lockdown em alguns países — frearam a empolgação das prefeituras e fizeram com que o tom passasse a ser mais comedido.

No estado de São Paulo, mais de 40 cidades do interior já rechaçaram a chance de haver folia. Também esta semana, o prefeito de Recife, João Campos (PSB), resolveu articular a criação de um comitê interdisciplinar conjunto com Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e São Paulo, para que, alinhados, os principais destinos brasileiros da folia decidam sobre a realização ou não da festa, tida como imprescindível para o turismo e à economia, e, também, sobre estratégias de prevenção.

A expectativa é de que, já no início da semana que vem, aconteça uma reunião com representantes dos comitês de Saúde de cada um dos cinco municípios, para que sejam trocadas figurinhas. O primeiro prefeito a concordar com o "intercâmbio" foi Eduardo Paes (PSD), do Rio de Janeiro. Nesta quinta-feira (25), por exemplo, Campos aproveitou um encontro da Frente Nacional dos Prefeitos (FNP), em Aracajú, e almoçou com o prefeito de Salvador, Bruno Reis (DEM). O carnaval esteve entre os principais tópicos da conversa.

A ideia inicial é que estas cidades andem juntas quanto ao planejamento — ou não — da festa. Apesar de toda a indefinição que ainda paira no ar, as prefeituras já se preparam para que, caso a folia seja liberada nas ruas, tudo esteja pronto. Para João Campos, qualquer decisão tomada agora seria prematura.

— Não temos a definição ainda se haverá ou não carnaval. Nós lançamos a parte contratual necessária para o carnaval, porque precisamos garantir que haja, a tempo, capacidade para que o evento aconteça — afirmou o prefeito de Recife. — Nesse momento, estamos buscando diálogo. Inclusive, procurei alguns prefeitos de capitais, como Rio, BH, São Paulo e Salvador, para conversarmos sobre o que eles estão pensando e, juntos, vermos a possibilidade de compartilharmos as melhores práticas. A ideia é subsidiar uma futura decisão. Mas, neste momento, o cenário é de indefinição. Naturalmente, ninguém vai tomar uma decisão irresponsável neste momento.

Em Recife, cobretura vacinal pode ser determinante

Para Campos, cobertura vacinal e uma média baixa de óbitos por conta do novo coronavírus deverão ser decisivos para que o carnaval aconteça. Segundo ele, os notáveis estão debruçados para tentar entender as sazonalidades da doença, com base no que aconteceu ano passado, e também em relação ao novo surto europeu.

— Hoje, por exemplo, temos um protocolo vigente na cidade que exige vacinação completa, de acordo com a idade. Vejo como algo estratégico e não temos como pensar soluções para o carnaval sem contarmos com o avanço da vacinação. Os parâmetros de medição de casos e mortes e da cobertura vacinal serão decisivos nesse momento — acrescentou. — Os números que temos na cidade hoje indicam uma curva positiva, sim. Mas temos que aguardar também o comportamento sazonal da doença. Agora no final do ano, se seguir a tendência do que já aconteceu, pode ser que ela tenha um avanço por Norte, depois Nordeste. Há ainda a questão do que está acontecendo na Europa, que estamos mergulhando para entender melhor.

No fim de setembro, campos criou a Comissão Interna do Carnaval, composta por várias pastas do município, para garantir prazos, protocolos legais, fiscais, contratuais e sanitários, caso a festa ocorra.

São Paulo se planeja, apesar de incerteza

A cidade de São Paulo, que vinha numa crescente de público ao longo dos últimos anos quando o assunto era carnaval de rua, também já começa a se mexer para planejar o até então incerto carnaval. Para o secretário das Subprefeituras, Alexandre Modonezi, que está à frente da pasta responsável pela elaboração, só é possível acontecer uma festa como essa, se não houver impeditivos. A pedido do prefeito Ricardo Nunes (MDB), ele irá representar a cidade no comitê reunido por Campos.

— Só dá para acontecer um evento de rua da magnitude do carnaval, e estamos falando aí de uma expectativa de 18 milhões de pessoas, se não houver restrição. O que a cidade está fazendo é investir bastante em vacinação; já temos toda a população adulta com as duas doses e estamos indo às escolas municipais para vacinarmos todos os adolescentes de 12 a 17 anos. O esforço está sendo feito — disse Modonezi.

Segundo ele, já foram acertados detalhes como, por exemplo, quanto à cota de patrocínio, e já há 867 blocos de rua pré-inscritos, que aguardam uma lista definitiva que deverá ser publicada por completo até dezembro.

— A prefeitura está se organizando para, caso o carnaval seja autorizado, tudo esteja pronto. Nós contratamos estudo de plano operacional para os 21 trajetos por onde passam os maiores blocos, o que nunca havia sido feito, estudamos capacidade, o quanto cada rua comporta, melhores rotas de fuga e estruturamos estes 21 polos — afirmou o secretário. — Já começamos a levantar atas de registro de preços das licitações, para casa haja o carnaval. Banheiro, gradil, tapumes, uma série de serviços já foram licitados. A cota de patrocínio ficou em R$ 23 milhões e o patrocinador só paga em janeiro do ano que vem, caso haja a festa. Em relação aos blocos, 867 já se inscreveram para o carnaval 2022 e estamos analisando a viabilidade de cada um. Caso a Saúde decida que não há como o carnaval acontecer, todos os blocos já estão avisados desta possibilidade no ato da inscrição.

'Não quero dar sopa ao azar', diz Kalil em BH

Em Belo Horizonte, o prefeito Alexandre Kalil (PSD) afirmou que já conversou também com João Campos, e que pretende participar da discussão sobre o carnaval com os outros municípios. A prefeitura de BH afirmou que "reconhece o valor do evento para a cidade, dos atores e de toda cadeia produtiva", e que estão sendo feitas análises e planejamentos de perspectivas para que o carnaval aconteça.

No entanto, o prefeito Kalil já antecipou que o município não investirá no carnaval. Segundo ele, serão garantidos apenas os serviços espontâneos — segurança, saúde, mobilidade e limpeza — durante o período, caso a festa aconteça.

— Da mesma forma como quando se vai passear na Pampulha a prefeitura coloca Guarda Municipal, guarda de trânsito, segurança, o que tiver de espontâneo e for da obrigação da prefeitura, a prefeitura vai cuidar da população. Agora, não adianta, a prefeitura não vai investir dinheiro no carnaval. Autorizei que se invista em algum evento posterior. Vamos investir em cultura e eventos, mas, no carnaval, depois que vem praia, réveillon, fazer carnaval... é chamar o azar para o nosso lado, e eu não quero dar sopa para o azar — afirmou o prefeito de Belo Horizonte.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de BH disse que ainda que não é possível prever a situação epidemiológica para fevereiro de 2022, mas que, se o carnaval fosse hoje, não seria possível a realização desse evento na cidade.As flexibilizações em Belo Horizonte são realizadas de acordo com as orientações do Comitê de Enfrentamento à Covid. Entre os dados monitorados pela Prefeitura, estão o Matriciamento de Risco (MR) – medido pela incidência de Covid a cada 100 mil habitantes e sua tendência, a taxa de mortalidade (que implica na pressão sobre o sistema de saúde) e sua tendência –, os índices epidemiológicos da doença, além das taxas de transmissão e letalidade, ocupação de leitos e progressão da vacinação no município.

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