Carnaval 2022: Ligados pelo Império Serrano, carnavalescos Renato Lage e Leandro Vieira falam da expectativa dos desfiles

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Fim de tarde de sexta-feira e cerveja gelada no copo, no barracão do Império Serrano, diante dos preparativos finais para a apresentação de hoje à noite na Marquês de Sapucaí. Foi nesse cenário que o carnavalesco da verde e branco, Leandro Vieira, recebeu outro mestre do ziriguidum, Renato Lage, para mostrá-lo em primeira mão o que será levado à Avenida neste segundo dia de disputa da Série Ouro. No Grupo Especial, Leandro assina o desfile da Mangueira. Renato, o da Portela, junto com sua mulher, Márcia Lage. Mas, no acesso, o Império se tornar mais uma forte ligação entre os dois campeões da Apoteose. Ele foi a escola de Renato em 1983, ano em que nascia Leandro, que faz sua estreia daqui a algumas horas na agremiação da Serrinha.

A história de Renato a partir dali colecionou glórias. Só na década de 1990, foram três títulos pela Mocidade Independente, onde marcou o carnaval com um estilo que muitos chamaram de high tech e que, de fato, parecia à frente de seu tempo. Primeiro, veio o bicampeonato com “Vira, Virou, a Mocidade chegou” (1990) e “Chuê, chuá, as águas vão rolar” (1991). Depois, em 1996, a vitória de “Criador e criatura” — nome de enredo que até poderia descrever o que um artista seria para outro anos mais tarde, já que Leandro passou da infância à adolescência assistindo de casa àqueles desfiles inesquecíveis.

— Era pela TV que o carnaval do Renato chegava a mim. E cresci encantado com imagens como a do feto dentro do globo terrestre (alegoria de 1991) e a do menino jogando videogame (carro de 1993). O Renato foi minha grande inspiração para eu me tornar o artista que sou hoje — diz Leandro.

No Império de 1983, Renato, em seus primeiros anos de Avenida, desenvolveu o enredo “Mãe baiana, mãe”, que terminou em terceiro lugar, mas é aclamado até hoje. Agora, em 2022, Leandro aposta em “Mangangá”, que conta a história do capoeirista baiano Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá, para tentar levar a Serrinha de volta à elite do carnaval. Nesses39 anos que separam os dois desfiles, as profundas transformações pelas quais as escolas de samba passaram foram uma dos assuntos destes artistas, que conversaram e riram de histórias de barracão enquanto bebericavam sentados em blocos de isopor, ao lado de uma alegoria em finalização.

Renato, por exemplo, relembrou dos barracões antigos, dos imperianos de coração que botavam a mão na massa para fazer aqueles carnavais dos anos 1980. E criticou os rumos recentes da politização dos desfiles. Renato ponderou que tudo que se faz é, em alguma medida, política. Mas disse, que, quando é de forma forçada dentro dos enredos, parece apenas uma “lacração”. Leandro — que em 2019 foi campeão na Mangueira tendo, entre outras imagens marcantes, a bandeira do Brasil em verde e rosa e a inscrição “índios, negros e pobres” no lugar de “ordem e progresso” — retrucou.

— Mas você também já foi bem político nos seus enredos. Lembra quando citou o FMI em Macobeba (em referência ao desfile da Unidos da Tijuca de 1981), ali no final do período da ditadura militar? E quer algo mais político do que “Eu Quero” (Império Serrano 1986)? — perguntou Leandro, lembrando de um desfile cujo samba continha trechos como “Quero paz e moradia / Chega de ganhar tão pouco / Chega de sufoco e de covardia”.

Renato tem ainda outra preocupação, esta relacionada à folia fora de época deste 2022. Ele teme que a grande quantidade de enredos sobre a cultura e personalidades afro-brasileiras acabe resultando numa repetição de referências visuais na Sapucaí.

Tanto ele, na Portela, quanto Leandro, na Mangueira e no Império Serrano, concebem desfiles dentro das temáticas do que vem sendo chamado de o “carnaval preto”. O artista da azul e branco de Madureira, porém, garante que, no enredo sobre os baobás africanos, buscará suas saídas para se destacar na multidão. E elogia o desenvolvimento de Leandro para a homenagem a Cartola, Jamelão e Delegado na verde e rosa:

— Gosto da forma como o Leandro está apresentando o enredo. O Leandro é diferente. A gente vê um carnaval dele e sabe que é dele. Isso há muito tempo já.

Renato fala com a propriedade de quem conheceu o artista antes que virasse carnavalesco. Foi ele um dos grande incentivadores para que seu pupilo saísse dos bastidores, quando desenhava para outros artistas, e assinasse seu primeiro carnaval, na Caprichosos de Pilares, em 2015, pela divisão de acesso.

— E essa é outra coincidência entre nós. Quando cheguei à Mocidade, em 1990, eu vinha da Caprichosos. E fui, de cara, campeão. O Leandro também, foi para a Mangueira e explodiu, venceu logo (em 2016) — diz Renato. — A diferença é que eu fui bicampeão — brinca.

E é esse clima que impera entre os dois. Antes de a conversa terminar, aproxima-se deles o diretor de barracão do Império, o Botafogo, para colocar mais lenha na fogueira. Ele chega botando banca, dizendo que quem manda naquele espaço é ele. E diz — obviamente que apenas para esquentar a provocação — que não gosta do trabalho de Leandro.

— Olha o tom marrom daquele carro — brinca Botafogo, apontando para uma escultura do abre-alas do Império.

Renato embarca na onda, e faz piada com a pintura em estilo rústico em parte da alegoria:

— O patrão que deve ter gostado. Economiza tinta.

Após gargalhadas, os dois campeões, então, foram andar pelo barracão, para que Leandro explicasse a Renato os detalhes do que prepara para o desfile que encerra o carnaval desta noite.

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