Carnaval pós-restrições da pandemia é apoteose da folia, dizem historiadores

RIO DE JANEIRO, RJ, 18-02-2023: Foliões aproveitam o bloco Céu na Terra, pelas ruas do bairro Santa Teresa, no Rio de Janeiro, durante o Carnaval carioca 2023. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
RIO DE JANEIRO, RJ, 18-02-2023: Foliões aproveitam o bloco Céu na Terra, pelas ruas do bairro Santa Teresa, no Rio de Janeiro, durante o Carnaval carioca 2023. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto milhões de brasileiros aproveitavam as últimas horas da terça-feira de Carnaval de 2019, o então presidente Jair Bolsonaro usou sua conta oficial do Twitter para publicar um vídeo em que tentava associar a festa mais popular do país à depravação.

A publicação do vídeo do "golden shower" foi um dos primeiros de muitos ataques públicos que Bolsonaro faria ao longo de seu mandato contra atos, manifestações e grupos, que segundo ele, feriam os costumes da família.

Depois dos ataques e suspenso por dois anos seguidos por causa da pandemia de Covid, o Carnaval voltou em sua plenitude às ruas do país como um grande expurgo de tudo o que o ameaçou.

Para historiadores que pesquisam o tema, o contexto favorece para que a festa deste ano tenha ainda mais um caráter político e de libertação para grupos minoritários.

"O Carnaval sempre foi um ato político, ele está longe de ser uma festa da alienação. Mas estamos diante de circunstâncias que estimulam um Carnaval mais engajado. As pessoas têm o desejo de ir para a rua não só pela festa, mas para ocupar esse espaço que foi negado a elas", diz o historiador e professor Luiz Antonio Simas.

A importância do Carnaval deste ano já pode ser sentida pela projeção que diversas capitais fizeram de receber número recorde de foliões.

Para os especialistas, a consolidação da festa nos blocos de rua também é uma conquista coletiva já que municípios e estados têm dado mais apoio aos cortejos e desfiles, ainda que com falhas.

"O Carnaval não é uma festa do consenso, existe um Brasil que odeia o Carnaval. Há quem não aceite que o Carnaval inverta a lógica do uso da rua, que acha que ela só deve ser usada para ir e voltar do trabalho. Conquistar esse espaço para fazer uma festa, com apoio do poder público, já é uma vitória", diz Bruno Baronetti, historiador e pesquisador da cultura popular brasileira.

O caráter de manifestação mais aflorado também já foi visto nos blocos de pré-Carnaval, com muitas pessoas usando fantasias e roupas com símbolos e mensagens políticas.

"O Carnaval nasceu das classes subalternas, que encontravam na festa um espaço para falar, satirizar e ironizar a política. Vivemos recentemente um momento de muita polarização e tensão no país, o Carnaval é, como sempre foi, o local para dar vazão a essas demandas reprimidas", afirma Baronetti.

Os dois historiadores também destacam que o Carnaval é um espaço de liberdade e expressão para grupos minoritários. Por terem sido alvo de diversos ataques nos últimos anos, esses grupos, segundo os historiadores, encontram na folia um local para extravasar a tensão.

É no Carnaval, por exemplo, que as mulheres desafiam o machismo ao usar menos roupa e mostrar mais o corpo. Ou que grupos LGBTQIA+ e negros levam multidões a seguirem seus blocos pelas ruas.

"O Carnaval quebra um padrão de normatividade que é a regra durante todo o ano. É nesse momento que os grupos mais vulneráveis se sentem mais livres para exercer toda a sua diversidade", diz Simas.

Para ele, o Carnaval de rua tem a importância e grandiosidade no país graças à diversidade de quem o promove e aproveita. Por isso, avalia que, depois de tanto tempo com fantasias guardadas, os foliões este ano estão mais dispostos a celebrar essa diversidade e a liberdade política.

"Aldir Blanc escreveu um verso que é a síntese mais bonita sobre o Carnaval: 'fantasia é um troço que o cara tira no Carnaval e usa nos outros dias por toda a vida'."