Carolina Dieckmann volta às novelas em 'Vai na fé', seu primeiro trabalho depois da perda da mãe: ‘Tive crise de choro em cena’

Quem é essa menina de vermelho? A cor intensa usada neste ensaio mostra que Carolina Dieckmann está mesmo chegando com tudo. De volta às novelas (a última foi “O sétimo guardião”, de 2018) e ao seu país, depois de passar uma temporada de seis anos nos Estados Unidos, a atriz desembarca para interpretar Lumiar. Ela será a advogada e professora de Direito de “Vai na fé”, nova trama das sete, que estreia no dia 16. Mas, para a moça por trás das câmeras, vestir esta personagem, no sentido literal, é algo distante de sua rotina. O figurino sério da mulher da ficção e as doses de maquiagem usadas nas gravações e nas fotos desta reportagem não fazem parte do cotidiano da atriz. Na história, a loura odeia o nome que lhe foi dado pelos pais hippies e rechaça esse universo que tanto combina com Carolina.

— Sou muito mais filha dos pais da Lumiar do que ela. Eu me sinto absolutamente à vontade nesse tipo de cenário e vivência. Adoro mato, cachoeira, céu estrelado, mistérios de pessoas que vivem perto da natureza e ter contato profundo com essa espiritualidade. Ela é meu oposto. Não suporta tudo isso — resume a atriz, que completa: — Já eu odeio as roupas da Lumiar. Scarpin, maquiagem, salto e estar emperiquitada... Deus que me livre (usar esse figurino no dia a dia)! Não gosto de me arrumar, só se tiver um propósito. Sou muito desleixada com isso, não no sentido ruim, mas de sempre preferir estar confortável. Só que ao longo da vida aprendi a flertar com isso tudo, porque sou atriz, trabalho com a minha imagem. Quando passo um dia fazendo foto, acho a maior graça, boto maquiagem, a roupa emperiquitada, me sinto poderosa. Mas só porque é de vez em quando!

Na virada do ano, Carolina buscou justamente o universo que curte. Ela passou o réveillon em Araras, Petrópolis, numa das serras do Estado do Rio. Aliás, o nome de sua personagem foi inspirado no mais conhecido distrito de Nova Friburgo, também na Região Serrana.

— Só sinto que estou virando o ano quando estou na natureza. Desde sempre, escolho passar na cachoeira ou no mar. Adoro tomar banho de cachoeira em 1º de janeiro e fazer minhas orações — diz a atriz de “Vai na fé”, que não se considera de uma religião específica: — Fui criada nas rezas católicas e me casei com um judeu. Gosto muito do assunto. Várias religiões me batem, não consigo escolher.

Luto e labuta

Mas, mesmo sem uma igreja para chamar de sua, religar tem sido a palavra de ordem neste momento de sua vida. E a espiritualidade tem se apresentado forte para ela. Este é o primeiro trabalho depois da perda da mãe, Maíra, que morreu em 2019 ao ter um mal súbito. Até então, a carioca de 44 anos nunca tinha vivido o luto de uma pessoa tão próxima. Depois de já ter aceitado fazer este papel, impulsionada pela saudade dos estúdios, Carolina se surpreendeu com aspectos de Lumiar que abordam a relação de mãe e filha.

— Depois da minha perda, fiquei com muita vontade de colocar isso no meu trabalho. Pensei de que maneira iria trabalhar esse sentimento profissionalmente. E a personagem vai ter uma questão com a mãe que ainda não posso contar — adianta ela, que recorda: —Nesta semana, eu tive uma baita crise de choro gravando uma cena. Estou em contato com essa emoção, ela está me acompanhando. Como se fosse um elemento novo, um escape sensorial. Meu luto tem sido muito ligado a minha arte, nas ilustrações que faço, no que eu escrevo, no que quero fazer como atriz, nas músicas que me emocionam. Embora seja triste, é tão bonito sentir a tristeza e ainda assim ver sentido para continuar, viver e estar aqui pela minha mãe, emocionar a mim e as pessoas. Tudo está saindo, não tem nada ficando preso.

Na novela, a mãe de Lumiar é Dora, interpretada por Claudia Ohana. Mas há ainda outro ponto sobre maternidade a ser tratado na história. Casada com o protagonista Ben (Samuel de Assis), a personagem tem certeza de que não quer ter filhos.

— Sempre tive muita vontade de entender esta mulher que não quer ser mãe. Porque eu quis muito jovem — pontua a atriz, mãe de Davi, de 23 anos, do seu casamento com o ator Marcos Frota, e José, de 15, do seu atual casamento com o executivo de mídia Tiago Worcman.

Amor de uma vida

E não é que sua história de amor com o atual marido, com quem está há 19 anos, bem que poderia estar num enredo de novela também? Se na trama de Rosane Svartman, Lumiar vê Ben reencontrar Sol (Sheron Menezzes) depois de 20 anos, Carolina demorou uma década para reencontrar Tiago e finalmente começar um relacionamento. Até então, ele era o menino mais velho do seu colégio que nunca deu bola para ela.

— Acho diferente pelo tempo. Sol e Ben realmente viveram vidas e se esqueceram um do outro no meio do caminho. Para mim, parece que Tiago sempre esteve presente em algum lugar, foi o meu crush de infância da escola até o dia em que a gente se casou — avalia ela, que recorda: — Não é que ele não me dava bola, ele nem olhava na minha cara (risos). E eu lembro de me arrumar para ir à escola, porque ia vê-lo. Nem tinha ouvido a voz dele, a gente nunca se falou. Era só o menino que eu achava o mais bonito. Depois que eu fiquei famosa, nos encontramos algumas vezes, quando nós dois éramos casados. Ele dizia: “Sabe que já me falaram que eu era seu crush de infância?”. E respondi que era mesmo. Foi uma historinha que contaram para ele e ficou. Mas era totalmente compreensível ele não me dar bola. Eu era uma pirralha, tinha 12 anos, e ele namorando as meninas da idade dele, 15 ou 16. Acharia um mico ter uma pirralha achando ele gato (risos).

Justiça

Para além dos momentos românticos, o trabalho vem fazendo Carolina ter contato com outra realidade. Lumiar tem feito a moça estudar o famoso “juridiquês”, que ocupa a maior parte do tempo de sua preparação para a personagem.

— Sempre tive medo disso de advogado, de ação, de Justiça, para mim é uma coisa tão séria. Difícil de entender o jeito que eles falam e como as coisas vêm escritas. Às vezes é só um contrato, mas é tão complicado — pontua ela.

Para ajudar na construção, ela vem assistindo a vídeos da advogada e apresentadora Gabriela Prioli, criminalista como sua personagem, e que faz sucesso nas redes sociais.

— Acho ela muito eloquente, mesmo quando fala coisas difíceis, porque eu acabo entendendo. E sem perder o jeito da advogada e a forma ponderada. Não é que vou ter coisas da Gabriela. Mas é para achar a prosódia, falar aquelas palavras com naturalidade e ficar fluente — explica ela.

A primeira vez que precisou ter contato com esse universo foi ainda nos anos 2000, quando entrou com um processo na Justiça contra o programa “Pânico na TV”, então na emissora Rede TV! Em um dos quadros do humorístico, a equipe perseguiu a atriz e chegou a ir na porta de sua casa com guindaste e megafone.

— Meu trauma com Justiça começa daí. De ter ido contra uma coisa que todo muito estava gostando. Ficaram com ódio de mim. Aquilo não era brincadeira. Estava indo atrás de um direito e estava sendo mal interpretada por isso. Nem sempre quando você tem certeza de que está certa, a sociedade acha também. Hoje, qualquer pessoa que sofra um décimo do que eu sofri teria apoio, esse tipo de coisa já não é mais tolerada — aponta a atriz, que ganhou a causa na ocasião: — Eu processo quando sinto que a pessoa invadiu um limite, seja ele qual for. Quando você se sente desprotegida, invadida e ameaçada, é o momento de buscar a Justiça. Foi muito difícil quando eu precisei, e nunca foi por algo pessoal, como a guarda de um filho ou com alguém que já trabalhou para mim.

Mulher da Lei

Em outro momento, Carolina teve fotos íntimas vazadas na internet. O caso foi emblemático na mídia, por conta de sua fama na TV. Felizmente, em 2012, a então presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei Carolina Dieckmann, que facilitou e regulamentou o processo para vítimas de crimes como esse.

— Recebo muita mensagem até hoje. Qualquer pessoa ou colega que tenha problema com isso escreve para mim e pergunta como é que faz, qual é a delegacia, que advogado é bom. Eu fico perdida. Tento ajudar, mas hoje em dia a delegacia não é mais como era. Quando tive que fazer, não tinha a lei. Hoje em dia as coisas mudaram. É mais simples. Tem fãs que fizeram monografia na faculdade sobre a lei e me mandaram. Há histórias bonitas. Sempre que postam sobre isso, tento dar atenção e repostar. Vejo como é importante na vida das pessoas, muito mais do que foi na minha. Fico numa alegria enorme quando vejo alguém podendo usar esta lei e fazendo justiça através dela — comemora.

Etarismo

Se muitas coisas mudaram na forma de se combater crimes como os que Carolina já sofreu, outras também ganharam um novo olhar ao longo da sua vida. Há cerca de um ano, a atriz viu um vídeo da colega Andrea Beltrão questionando o costume de as pessoas falarem que alguém “está bem para a sua idade”, como uma forma de tentar agradar ao interlocutor. Na ocasião, Andrea interpretava a Rebeca da novela “Um lugar ao sol”, uma modelo que não via mais espaço no mercado por conta de sua idade. O texto foi certeiro para Carolina, que já estava habituada a ouvir a mesma coisa por décadas.

— Foi uma fichaça que caiu para mim! Porque sempre ouvi isso e considerava um elogio. Não me incomodo, mas entendo porque gera incômodo. Podemos estar bem com a idade que temos, não precisamos aparentar estar mais nova. Estamos aprendendo um monte de coisas e entendendo que não basta ser bem-intencionado. Temos que mudar o nosso discurso, sim — reforça ela, que recorda como esses comentários sempre foram presentes em sua vida: — Com 20 anos, diziam que eu não tinha cara de 20. Com 30, que não tinha cara de 30. Com 40, a mesma coisa.

Exercícios e liberdade

Nada disso significa que ela não tenha cuidados com a aparência. Mas a tônica é sempre se preocupar com a saúde e não se cobrar. No dia da entrevista para esta reportagem, marcada para as 17h, Carolina havia acordado às 3h da manhã para gravar ao nascer do sol na Urca. Horas depois, já estava malhando. Tudo postado em sua conta de Instagram, administrada por ela própria.

— Na minha infância, minha casa pegou fogo e perdi todos os meus registros. Fotografei muito a infância dos meus filhos com câmeras e celular. Gosto de me comunicar através disso. Amo foto, ver e postar — explica Carolina, que costuma publicar curtos poemas escritos por ela na legenda das imagens no seu perfil do Instagram.

Para os exercícios, ela recorda que precisou ser disciplinada quando criança na ginástica olímpica e hoje tem outra visão das atividades.

— Não tenho compromisso com malhar. Não consigo fazer nada se não tiver um prazer. Fiz balé clássico e muay thai por um tempo. Agora, com 44 anos e depois de morar em Miami, onde ficava muito tempo sozinha, eu me dei conta de que gosto de fazer exercícios individuais. Estou nessa onda. É para a saúde, pro meu intestino funcionar, para eu colocar meu coração para bater — conta Carolina, que faz aeróbico (normalmente a escada) e depois o Ice Bath, hábito que também trouxe dos EUA: — É uma banheira próxima a zero grau (um equipamento refrigera a água), onde você fica o tempo que conseguir. É uma maneira muito eficaz de desinflamar o organismo. O efeito colateral é sentir mais energia. Você precisa ter controle mental. Meu recorde é de sete minutos, quero chegar a 11.

Já para quem estava com saudade de Carolina na telinha, ela tranquiliza os fãs e conta que voltou ao Brasil para ficar:

— Antes, tinha muito medo de morar fora e de muita coisa que hoje em dia não tenho mais. Aprendi que a gente não controla muito as coisas. Hoje, não tenho vontade de sair do Brasil

Créditos do ensaio

Fotos de Catarina Ribeiro (@catarinaribeir.o) / Assistente de fotografia: Flávia Paulo

(@_flaviapaulo) / Beleza: Cleide Araújo (cleidearaujo) / Styling: Erick Maia (@erickmaia)