Carolina Maria de Jesus: intérprete do Brasil

Giovana Xavier

13de maio de 2020. Lembro que começou ontem o ciclo de debates da FestaLiterária das Periferias Urbanas (FLUP), que, sob a impecável curadoria deJulio Ludenir, este ano homenageia Carolina Maria de Jesus e o aniversário de60 anos de seu brilhante livro "Quarto de despejo: diário de umafavelada". Com uma programação virtual inovadora, além das discussões abertasao público, o evento conta com o curso de formação “Umarevolução chamada Carolina”, ministrado por 40 ilustresprofessoras. Entre elas: Ana Maria Gonçalves, Ana Paula Lisboa, Eliana AlvesCruz, Mirian Santos, que compartilharão seus conhecimentos com 210 jovensescritoras, selecionadas através de cartas de próprio punho remetidas aCarolina. Tal ideia, por sinal belíssima, foi eternizada pela mestra em Educação Hildália Fernandes em 2014, quando na obra "Ondeestaes felicidade?", lançando mão da escrita criativa, enviou sua missiva à autora.

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Sobre ontem, que momento! Na atualvibe, a vida é uma live, durante duas horas milhares de pessoas acompanharamanimadas o painel digital “Umarevolução em instantes”, onde se deu o diálogo entre a escritora ConceiçãoEvaristo e a professora Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina. A “noite degala”, expressão escolhida pela jornalista e mediadora Flavia Oliveira paradefinir o acontecimento, foi marcada por antídotos aos “perigos da história única”.Aplicados através das narrativas das duas educadoras que, emocionadas,conversaram com o público sobre as muitas versões de Carolina. Mulher. Mãe.Escritora. Migrante. Favelada.

Mantendo a tradição, as mineiras refletiram sobretemas centrais no pensamento feminista negro - cuidado, educação, maternagem,sororidade - sob seus pontos de vista específicos. Oportunidade ainda raríssima,se lembrarmos que apesar de muitos avanços, o pensamento de Carolina Maria deJesus e da maioria das intelectuais negras brasileiras permanece desconhecidopara a maioria do público. Hoje, 13 de maio, quando completam-se 132 anos daassinatura da Lei Áurea, em uma pandemiaglobal que afeta drasticamente a população negra mundial, é oportuno perguntar: por que a históriae a obra de Carolina Maria de Jesus permanecem desconhecidas fora dos circuitosacadêmicos e ativistas? O que nos ensina o fato de que um dos últimos registrosfotográficos da escritora é como catadora de papel na rodoviária de São Paulonos anos 1970?

Há muitos anos dedicando-me às dores edelícias da escrita acadêmica da História de intelectuais negras, pararesponder essas questões, em vez de silêncioou apagamento, penso em desvalorização. Palavra-chave que nos instrumentalizapara analisar a inadequação e falta de tato das elites e ciências hegemônicaspara lidar com a autenticidade, o talento e a criatividade das classestrabalhadoras. Ou, na expressão de Conceição Evaristo, para compreender a “linguagemculta-culta” de Carolina. A mesma gramática reinventada por milhões demulheres que nutrem a tradição intelectual negra chefiando sozinhas lares.Educando crianças, cultuando diários, preenchendo cadernos de receitas e,claro, pagando boletos. Quando a fome de comida é saciada no papel de pãorecheado com palavras, uma tarefa se coloca para as novas gerações: aprender adiferenciar - cientificamente - jeitinho de inventividade:

“Escrevoa miséria e a vidainfausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém.Odiava os políticos e os patrões,porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabiaque ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo deliteratura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade”.

CarolinaMaria de Jesus - Intérprete do Brasil.

Porque não?

Giovana Xavier é historiadora e professora doutora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Este artigo também é publicado pelo blog Conversa de Historiadoras, onde as historiadoras Hebe Mattos, Martha Abreu, Ana Flávia Magalhães Pinto, Giovana Xavier, Keila Grinberg e Mônica Lima compartilham suas reflexões sobre os significados do passado escravista para o país e sobre o papel da disciplina História para a implantação de políticas públicas de combate ao racismo, nos campos educacional e cultural.