Carta a 2021: 'Mais do que antes, é importante conversar sobre recomeços'

José Eduardo Agualusa*
·11 minuto de leitura

Querido 2021, seja bem-vindo!

Entre, a casa é sua.

Se não for pedir demais, nos devolva, por favor, todos os abraços que seu prezado antecessor nos roubou. Queremos também as gargalhadas dos parentes e amigos, o livre sorriso dos desconhecidos, a brisa no rosto. Gostaríamos ainda de ter de volta a alegria das viagens; a tumultuosa euforia dos estádios e dos grandes shows; todas as tardes em que não fomos beber cerveja com os amigos no boteco da esquina.

Não se esqueça de nos devolver aqueles jantares intermináveis, em que discutíamos o fim do mundo e como iríamos recomeçá-lo. Hoje, que sabemos muito mais sobre o fim do mundo, essas conversas antigas me parecem todas um tanto ou quanto ingênuas. Contudo, mais do que antes, é importante conversar sobre recomeços. Trocar sonhos. Debater utopias.

Peço em particular que me devolva os festivais literários — dos quais, em 2019, eu estava até (confesso) um pouquinho enfastiado. Durante o seu reinado, quero muito regressar a Paraty. Não posso perder a FliAraxá, a Flup ou a Flica, em Cachoeira.

Eu, que não sou de futebol nem de carnaval, agora sinto ânsias de me perder entre multidões, gritando, sambando, abraçando, me descobrindo nos outros. Quero dançar sem culpa. Quero poder voltar a abraçar meus velhos pais sem medo de os contaminar.

A maior invenção da Humanidade não foi a roda nem o fogo. Não foi o futebol, a feijoada, o samba, o xadrez, a literatura, sequer a internet. A maior invenção da Humanidade, querido 2021, foi o abraço. Olho para trás e vejo a primeira mãe, acolhendo nos braços o filho pequeno. O nosso pai primordial apertando contra o peito forte (e peludo) a mulher amada; dois amigos se consolando numa armadura de afeto. Depois desses primeiros abraços, alguma coisa mudou para sempre. O mundo continuou perigoso, sim, o mundo será sempre perigoso, mas passamos a ter o conforto de um território inviolável. Foi o abraço que fundou a civilização.

Com elevada estima,

*José Eduardo Agualusa Alves da Cunha (jornalista, escritor e editor)

Que 2021 nos salve de 2020

Num ano que nos privou dos encontros, das risadas na mesa de bar e sobretudo dos abraços, além de ter levado milhares de vias, o início de 2021 é, mais do que nunca, um aceno da esperança. Na retrospectiva da pandemia, cada brasileiro expiou uma dor e abraçou de longe a dor do outro, carrega para a virada um sonho. Um sonho de dias mais solares e menos isolados. Se despedir do ano que passou é deixar para trás uma verdadeira quarentena de afetos.

Mais do que uma revolução na rotina, adultos em home office ou desempregados, jovens fora da sala de aula, ficarão para sempre tatuados na memória os medos, a ansiedade, a solidão gigante do quarto de quem teve Covid e a tristeza sem tamanho por cada morte, próximo ou não, que não foi possível evitar.

Neste fim de ano, 15 brasileiros abriram seus corações — a pedido do GLOBO. O desabafo, que tem produção de Ana Branco e Leo Martins, e reportagens de Carla Rocha, Bolívar Torres, Giuliana de Toledo, Thayz Guimarães, Murício Xavier e Gabriela Oliva, traz os pavores individuais diante de um vírus desconhecido e também o sentimento de sorte de quem chegou ao fim do que ainda não terminou. Eles contam também o que aprenderam e o que esperam para o futuro. Confira os relatos.

João Diamante, 29 anos, chef

'Se não for junto, não vai'

"Eu tenho um projeto social de gastronomia chamado Diamante na Cozinha e o que a gente já vivia diariamente dentro de um projeto social, em termos de dificuldades e desigualdades sociais, ficou mais escancarado. Quem tinha pouco ficou sem nada. Para mim, a mensagem que ficou de 2020 foi muito explícita: que a gente precisa valorizar cada momento e que sozinho ninguém vai a lugar nenhum. Juntos somos mais fortes. Se não for junto, não vai. Economia, medicina, a humanidade, as áreas precisam estar unidas para as coisas acontecerem."

Mara Silva, 55 anos, baiana

'Esperança é que a vacina venha para salvar as pessoas'

"Foi muito ruim esse período dentro de casa. A gente só pôde voltar a trabalhar quase no final do ano. Fiquei sem dinheiro, tive que dar um jeito. Agora voltamos aos eixos. Antes estava empurrando com a barriga para ver onde chegava. Foi muito difícil para todo mundo, mesmo com o auxílio do governo. Esperança é que a vacina venha para salvar as pessoas e aliviar as coisas nos hospitais, que estão cheios de gente enferma."

Bianca Ramoneda, 48 anos, jornalista e poeta

'Não houve isolamento dos sentimentos'

"Ser escritora já é solitário. Mas quando a lógica inverteu, da solidão, foi esquisito. Antes escrevia quando as pessoas estavam em casa, agora todos de certa forma estão em uma bolha coletiva, e isso é assustador. O mundo está conectado na dor do outro. Não houve isolamento dos sentimentos. Minha sensação é de que o mundo velho já não bastava; com a pandemia, essa realidade escancarou. Adaptar-se a isso está sendo um alongamento de alma. O próximo ano nos ajudará a recompor a vida após as sequelas de 2020."

Caio Vaz, 27 anos, surfista

'Precisamos de uma nova visão de mundo'

"Para um surfista profissional foi complicado, quase não teve competições. Para mim, 2020 foi um ano de aprendizado, de ficar em casa e aproveitar mais a família. Inclusive, decidi morar com a minha namorada e começar uma fase diferente na minha vida. No próximo ano, precisamos de outra visão de mundo, vivendo o presente com mais responsabilidade e pensando nas nossas ações. Hoje está tudo muito rápido, tudo acontece na hora. A natureza não acompanha essa velocidade."

Maria Martins, 55 anos, doméstica

'Desejo fé para todos, porque senão ninguém sai de casa'

"Em casa, a gente ligava a televisão e ficava vendo aquelas cenas das covas abertas. Tem que ter uma cabeça muito boa para não ficar doente vendo isso. Fiquei oito meses parada e faz menos de dois meses que, finalmente, consegui um emprego. Estou acostumada a trabalhar. Trabalho desde os 18 anos. Criei sozinha um filho, que já é adulto e me deu uma neta. Por isso espero que 2021 seja de glórias para todo mundo, porque todo mundo precisa trabalhar. Também desejo fé e coragem para todos, senão ninguém sai de casa."

Bárvarah Pah, 41 anos, drag

'Na virada, o pedido será a volta do abraço'

"O meu trabalho como drag queen é bem diferente do usual, sou representante dos BeesCats Soccer Boys, primeira equipe de futebol gay do Rio de Janeiro que, com a pandemia, ficou estagnada. Em março, migrei as minhas atividades artísticas para o online com um trabalho em parceria com a Companhia dos Atores, o Cabaré Online. Apesar das conexões virtuais, a vivência drag queen precisa do palco para alcançar a plenitude. Na virada, o pedido será a volta do abraço. Nada supera o calor do público num show e o palpitar do coração. No ano que vem, espero não ficar mais à mercê das redes e sim em uma sociedade mais paciente, fraterna e empática."

Fernanda Neves, 17 anos, estudante

'Espero que 2021 seja menos radical'

"Eu já sabia que 2020 seria difícil por conta do vestibular, mas não imaginava que seria tanto. Tive que ter muita disciplina para estudar na pandemia. Passei em Economia e agora estou mais relaxada. Espero que 2021 seja menos radical e que as aulas aconteçam normalmente. Apesar de ter sido muito ruim, 2020 também foi um ano de autodescoberta para mim. Comecei a fazer ioga e meditação online por influência da minha irmã, e isso foi essencial para manter a minha saúde mental durante o período de isolamento. É como se o universo dissesse para mim 'Fernanda, esse é o seu momento. Vai'."

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Stephanie Fleury e Bruna Infurna, 37 e 43 anos, empresária e publicitária

'Olhar e cuidar do próximo se tornou tão óbvio quanto acordar'

"Em um ano desafiador pra todos, onde as relações foram postas à prova no confinamento, nós que tínhamos acabado de começar a morar juntas, nos vimos redescobrindo pequenos prazeres que antes na correria da vida profissional acabávamos sucumbindo. Passamos a cozinhar juntas, jogar baralho, lemos mais livros, nos conectamos mais aos amigos mesmo que virtualmente. E o principal, olhar e cuidar do próximo se tornou tão óbvio quanto acordar. Que no ano que vem a humanidade tenha sabedoria para aprender que só se faz um mundo melhor com empatia e compaixão."

Valentina Januário, 4 anos, estudante

'Em 2021, quero poder ir mais para a escola'

"Em 2020, eu morri de saudade dos meus amiguinhos e também dos meus avós. Por causa do colonavílus (sic), minha escola ficou sem funcionar de março a outubro. Eu não entendia direito o que estava acontecendo. Fiquei muito ansiosa, comecei a gaguejar bastante, não dormia direito e chorava muito.Tive aula online esse ano também. Foi legal no começo, mas não era a mesma coisa. Faz pouco tempo que minha mãe também me deixou visitar o vovô e a vovó, mas só bem rapidinho, porque ainda é perigoso, ela falou. Em 2021, quero poder ir mais para a escola.

Moema Carneiro, 73 anos, assistente social

'Ninguém vai sair de 2020 do mesmo jeito que entrou'

"Foi um ano desafiador, um teste de resistência para ver até onde você conseguiria manter a serenidade e o equilíbrio. Estou trabalhando em home office há muitos meses e me sinto como um passarinho engaiolado olhando pela janela. Acho que ninguém vai sair de 2020 do mesmo jeito que entrou. Todos vão sair mais fortes ou mais sofridos. Mas espero que isso tenha servido para as pessoas se tornarem mais humanas, mais solidárias, para que olhem para o outro não como um estranho que não lhe diz nada, mas como uma pessoa que faz parte da raça humana."

João Oliveira, 58 anos, psicólogo

'Atendi pessoas dos Estados Unidos, Cazaquistão, Minas Gerais...'

Darwin não disse que a espécie mais forte é aquela que sobrevive, e sim aquela que se adapta. Perdi cerca de 15 amigos para a Covid-19. Eu e minha esposa fechamos as portas do nosso consultório e nos adaptamos em um espaço menor, com 70% de redução de custos. Em agosto, migramos para o atendimento tele presencial. O resultado foi surpreendente. Atendi pessoas dos Estados Unidos, Cazaquistão, Minas Gerais... Para 2021, espero ampla possibilidade de crescimento para o curso e atendimento. Além disso, almejo que a sociedade utilize as mudanças que aprendemos neste período de forma útil.

Maria Barki Nehring, 10 anos, estudante

'A música e a dança é que me ajudam a ficar mais à vontade'

"Com a escola fechada, meu professor pediu para os nossos pais darem aula, e isso não deu muito certo. Quando a escola abriu de novo, agora no final do ano, é que começou a ficar melhor. Mas a gente não pode brincar de bola no pátio, proibiram muita coisa, então a gente brinca do que dá. Tentamos ficar mais afastados, mas não tem como a criança ficar sozinha, até mesmo os adultos não conseguem. A música e a dança é que me ajudam a ficar mais à vontade. Quando não sei o que fazer, eu danço, e isso parece que liberta alguma coisa dentro de mim. Estou animada para essa tal vacina. E quero começar a fazer aula de jiu-jitsu. É importante a gente saber lutar, né?

Luiz Carlos Amaral, 40 anos, porteiro

'Espero só a cura, está muito difícil fazer outros planos'

"Como porteiro, aprendi a trabalhar sempre de máscara. Ela esquenta, embaça meus óculos, mas não tem jeito. Estou bem ali recebendo quem vem de fora e qualquer um pode trazer o coronavírus. Felizmente, o prédio não foi muito afetado. Na questão do dinheiro também ficou mais difícil. Com essa crise, minha mulher foi demitida. Ela era vendedora, em Madureira, umas das funcionárias mais antigas. Espero um 2021 com mais paz e com a cura para o coronavírus. Só isso. Está muito difícil fazer outros planos."

Júlia Góes Guimarães, 25 anos, médica

'Sai de casa para proteger meus pais, e vi muita gente jovem morrer'

"Me formei em Medicina no final de 2019, então o começo da minha vida médica, em 2020, foi praticamente todo na pandemia. Em março, tive que sair de casa para proteger meus pais, com quem eu morava. Em maio, no dia do meu aniversário, tive sintomas de Covid. Trabalhei 80 horas por semana, entre o tempo no CTI e na residência. Houve momentos muito traumatizantes. Vi muita gente jovem morrer, inclusive um amigo, médico, sem comorbidades, que ficou um mês internado. Foi o maior baque para a equipe. Continuamos a trabalhar em memória dele. Para 2021, não tenho nenhum plano."

Miguel Dias, 27 anos, músico

'Esse ano nos ensinou a valorizar coisas simples'

"Não sei muito bem o que aconteceu este ano, ainda estou desnorteado, especialmente com as novas possibilidades profissionais. Os músicos tiveram que se reinventar para produzir nosso trabalho de outra forma. Temos gravado mais à distância. Também participado mais de lives. O que mais sinto falta nem é da aglomeração dos shows, mas de estar tocando com meus amigos. Esse ano nos ensinou a valorizar coisas simples que agora nos fazem falta, como o convívio social. Mas as lições virão mesmo ano que vem. Tento viver cada dia, aprendendo as coisas no momento."