Carta é momento mais grave da guerra de Bolsonaro x governadores

Matheus Pichonelli
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Brazil's President Jair Bolsonaro feed a group of rheas at the Alvorada Palace, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak, in Brasilia, Brazil, July 13, 2020. REUTERS/Ueslei Marcelino
Jair Bolsonaro passeia com cartela de cloroquina entre as emas do Planalto. Ueslei Marcelino/Reuters

Assinada por 19 governadores, a carta aberta em resposta a uma postagem de Jair Bolsonaro sobre repasses federais elevou ao ápice a tensão entre União e estados desde o início da pandemia.

Se já era inacreditável pensar que, em quase um ano da crise, os governos federal e estaduais ainda não foram capazes se sentar à mesma mesa e falar a mesma linguagem —no momento em que a comunicação de crise, direta e sem ruído, é tão importante quanto um cilindro de oxigênio — os ataques e contra-ataques em canais oficiais mostram não só por que chegamos até aqui como também por que estamos longe de qualquer saída.

No domingo 28, Bolsonaro publicou em suas redes sociais uma lista com valores enviados pela União em cada estado de 2020. Faltou acusar os donatários de terem gastado a esmola em pinga.

O ataque tem método. É parte da mesmíssima estratégia de deseducar, desinformar e tirar do colo as mortes por coronavírus no país. Isso em um momento em que os gestores estaduais anunciam ou estão prestes a anunciar medidas mais duras de restrições de circulação e enfrentam a resistência não só de parte da população, avessa às medidas impopulares, mas do próprio presidente, principal (mau) influencer para assuntos pandêmicos. É em torno deles que Bolsonaro montou sua trincheira.

Para a plateia militante, Bolsonaro divulga valores de repasses aos estados como quem diz ter feito sua parte; quem falhou foram os governadores, que apesar de tudo não teriam conseguido evitar o morticínio. Eles responderam à altura.

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A postagem de domingo contabiliza majoritariamente repasses obrigatórios a estados e municípios, como os fundos de participação, do Fundeb (educação), do SUS e dos royalties — tratados como “concessão política do atual governo federal”, nas palavras dos signatários.

Os governadores fizeram questão de lembrar que mesmo os repasses do auxílio emergencial foram iniciativas do Congresso Nacional, que reajustaram os valores para R$ 600 quando o governo sugeria R$ 200.

O grupo acusou, com todas as letras, o presidente de priorizar a criação de confrontos em um momento que pede ação conjunta. Praticamente chamaram Bolsonaro de desonesto ao dizer que ele usa instrumentos de comunicação oficial, custeados por dinheiro público, a fim de produzir informação distorcida e gerar interpretações equivocadas.

Na carta, chama a atenção as assinaturas de governadores alinhados ao Planalto, como Ronaldo Caiado (DEM-GO) e Cláudio Castro (PSC). Juntos, eles basicamente descortinam o método bolsonarista já manjado e descortinado por parte da imprensa profissional —igualmente atacada pelo presidente treinado para a guerra e que pena para salvar vidas no momento mais grave da pandemia.

Não foi o primeiro nem será o último incêndio provocado por Bolsonaro contra quem tenta apagar as chamas em seus quintais.

Em 29 de abril, ele já tinha tirado o corpo fora ao dizer que as medidas restritivas estavam a cargo de governadores e desafiou a imprensa a perguntar ao governador João Doria (PSDB) por que tinha mais gente perdendo a vida em São Paulo do que em outros lugares que adotaram medidas menos duras de isolamento. “Não adianta a imprensa querer botar na minha conta estas questões que não cabem a mim”, disse.

No mês seguinte, Bolsonaro escreveu, em suas redes, que o desemprego, a fome e a miséria “será o futuro daqueles que apoiam a tirania do isolamento total”.

Em 11 junho, estimulou seus seguidores a “arranjar um jeito” de entrar em hospitais de campanha, filmar e denunciar se os leitos estavam ou não ocupados. “Tudo o que chega pra mim nas redes sociais, a gente faz um filtro e eu encaminho para a Polícia Federal e para a Abin.”

Em 5 de setembro, chamou os governadores que planejavam fechar estradas e aeroportos de “ditadores nanicos” e se queixou por não ter o “poder de resolver as questões como eu achava que devia resolver”. “Fica de ensinamento essa pandemia aí.”

Apesar da dura concorrência mundo afora, Bolsonaro é hoje o principal símbolo e representante do negacionismo da pandemia. Diante do incêndio, passou os últimos meses dizendo aos bombeiros que não adianta usar água para apagar as chamas que nega serem reais nem impedir a circulação dos moradores nos edifícios prestes a ruir. Fala isso enquanto fura as mangueiras de incêndio. Com o desastre anunciado, corre para dizer que tinha razão ao atacar a estratégia dos possíveis aliados tratados como adversários e, agora, inimigos.

Bolsonaro demorou a admitir a gravidade da crise, demonizou e não fez acordos prévios para compra ou desenvolvimento da vacina, vendeu remédio sem eficácia comprovada como salvação, provocou aglomerações, desestimulou o distanciamento e o uso de máscaras, fritou dois médicos do Ministério da Saúde e defendeu que a pandemia fosse enfrentada como “homens”, como se as mais de 250 mil mortes contabilizadas até aqui tivessem alguma relação com um déficit de testosterona interpretada como comorbidade. Foi um check list de tudo o que um líder não poderia fazer para evitar a tragédia.

Feito o estrago, o líder do governo que apostou que morreria menos gente de Covid-19 do que por gripe comum e que no fim do ano disse que a “gripezinha” estava no “finalzinho” quer os créditos por não ter “errado uma” até aqui. No começo da semana, em encontro com apoiadores, mentiu com a mesma facilidade com quem respira ao anunciar medidas que nunca adotou. É a base do seu método que só agora é respondida à altura pelos governadores a quem prefere declarar guerra.

A carta é um chamado à realidade, mas convenhamos, embora seja missão impossível argumentar, com fatos e bom senso, contra o delírio —ainda mais quando há pessoas dispostas a acreditar e replicar o que seu mestre, ou mito, mandou.

Em tempo. Nem todos têm o que reclamar da crise. Nesta segunda-feira, ficamos sabendo que o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) está de mudança para uma mansão de R$ 6 milhões no Lago Sul de Brasília. A informação foi divulgada pelo site O Antagonista. Nada mal para quem ganha cerca de R$ 25 mil como parlamentar e que nos últimos 16 anos já adquiriu ao menos 20 imóveis. Só com seu salário, seriam necessárias 240 parcelas mensais para quitar seu mais novo empreendimento, mas o filho do presidente não é só um parlamentar bem-remunerado; é também um empreendedor bem-sucedido. Ele enriqueceu vendendo chocolates em shopping center e outros negócios fora do expediente. Como diz o ditado: persevere enquanto eles dormem. Flávio Bolsonaro é um modelo do Brasil que deu certo.