Cartão de vacinação mostrado por Bolsonaro indica que mãe recebeu Coronavac

Colaboradores Yahoo Notícias
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Jair Bolsonaro durante live nesta quinta, 18 de fevereiro de 2021 (Reprodução)

A mãe do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), Olinda Bonturi Bolsonaro, foi imunizada no último dia 12 contra a Covid-19 com a Coronavac. Embora o chefe do Executivo tenha tentado provar durante sua live que a matriarca recebeu a vacina de Oxford, duas informações presentes no comprovante de vacinação indicam que a idosa tomou a dose do Butantan.

De acordo com reportagem do portal UOL, a data prevista para a segunda dose que está no cartão de vacinação de Olinda, 5 de março, é a recomendada para a Coronavac. Se o imunizante recebido por dona Olinda fosse o de Oxford, a segunda dose deveria ser ministrada entre dois e três meses depois da primeira. Ou seja, apenas de 12 de abril em diante.

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Já a recomendação para a vacina do Instituto Butantan é de que a segunda dose seja ministrada 21 dias depois. Ou seja, exatamente no dia 5 de março, conforme consta no comprovante exibido por Bolsonaro.

Além disso, o comprovante indica um número de lote compatível com o imunizante do Instituto Butantan, não com o fornecido pela Fiocruz. No cartão, constam o nome completo da mãe de Bolsonaro, a data em que foi administrada a primeira dose (12/2/2021), o lote da vacina (200278), o fabricante (Oxford), o nome do vacinador (Walter) e seu registro profissional (317.633). Na coluna ao lado, a lápis, consta a data indicada para a segunda dose (05/03/2021).

Apesar de o cartão exibido por Bolsonaro apontar “Oxford” como fabricante, o número do lote indica que a vacina aplicada é a CoronaVac. No site do Instituto Butantan, o lote 200278 foi um dos dezesseis da Coronavac que receberam autorização emergencial da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em 22 de janeiro.

Já os lotes da vacina de Oxford distribuídos pela Fiocruz para o estado de São Paulo, segundo site do Ministério da Saúde, são o 4120Z004 e o 4120Z004.

Comprovante de vacinação da mãe de Jair Bolsonaro traz informações contraditórias
Comprovante de vacinação da mãe de Jair Bolsonaro traz informações contraditórias

A informação de que dona Olinda havia sido vacinada com a Coronavac foi divulgada pelo portal R7, após cruzamento de dados do SUS e informações da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. A mãe de Bolsonaro, que tem 93 anos, mora em Eldorado, no interior paulista, e foi vacinada em casa.

Segundo Bolsonaro, a carteira de vacinação original continha a informação de que ela teria sido imunizada pela vacina da Oxford/AstraZeneca. Depois, ele retornou à casa de dona Olinda, onde ela havia sido vacinada, com um novo documento, informando que a vacina aplicada havia sido a Coronavac, patrocinada por seu inimigo político, o governador de São Paulo João Doria (PSDB).

“O cara vacinou a minha mãe e foi embora. Duas horas depois, o cara volta lá na casa da minha mãe, todo apavorado, pega o cartão de vacina dela e rasga. E aí entrega para a minha mãe a [carteira de] vacina escrita ‘Butantan’”, declarou o presidente – que, em seguida, divulgou o nome e o registro profissional do enfermeiro que atendeu dona Olinda.

O presidente disse que seus familiares guardaram a carteira de vacinação que teria sido rasgada pelo enfermeiro. “Vem a imprensa fazendo politicagem com a minha mãe com 93 anos de idade”, criticou. “Uma canalhice sem tamanho em cima de uma senhora. Uma covardia.”

Doria chamou de “absurda” a acusação de Bolsonaro: “Considero um absurdo uma colocação como essa. Tivemos essa notícia não pelo sistema de saúde, mas pela imprensa. Não estamos preocupados se as pessoas estão tomando vacinas do Butantan ou da AstraZeneca. Não estamos preocupados se familiares do presidente tomam essa ou aquela vacina. Importante é que todos tomem vacinas. Isso nos preocupa: que todos tenham acesso às vacinas”.

“É totalmente desnecessária essa polêmica. O importante é que a mãe dele foi vacinada, como todas pessoas acima de 85 anos estão sendo vacinadas. As vacinas são boas. Temos que vacinar. Essa devia ser a preocupação do presidente. Não recomendar cloroquina, recomendar aglomerações, intimidar quem usa máscara chamando de maricas ou intimidar pessoas com mais de 60 anos, que ficam em casa, chamando de covardes. Espero que ele siga exemplo da mãe e tome vacina, seja ela qual for”, acrescentou.

Regiane de Paula, coordenadora do Programa Estadual de Imunização de São Paulo, afirmou que, no momento, não tem como saber se a denúncia de Bolsonaro é verdade, porque a lei geral de proteção de dados não permite o acesso a essa informação.

“Todas as informações chegaram até nós via imprensa. Não temos nada formalizado pelo município. O que importa é que é uma senhora de 93 anos, independente de ser mãe do presidente, foi vacinada. Com qual vacina? Só posso informar que, de 2.641 vacinas encaminhadas para Eldorado, 80 eram AstraZeneca. E o restante do Butantan. O importante é que uma senhora de 93 anos foi vacinada”, disse Regiane.

Em nota, a Prefeitura de Eldorado informou que “por motivos de sigilo de dados sensíveis de pacientes, não divulgamos e não iremos divulgar qual imunizante foi aplicado” e que tal dado só pode ser confirmado após autorização expressa da pessoa ou familiares ou por determinação judicial. A Prefeitura ressaltou que órgãos de controle externos têm acesso a esses dados, “para os quais é feita a transferência do dever de preservação de sigilo”.