Cartas pró-democracia deixam mesmo Bolsonaro isolado no caminho da eleição?

Brazil's President Jair Bolsonaro reacts during the national convention of the Progressive Party, in Brasilia, Brazil July 27, 2022. REUTERS/Adriano Machado
Foto: Adriano Machado/Reuters

Em março de 2021, quando o negacionismo e a postura anti-vacina de Jair Bolsonaro agravava tanto a crise sanitária quanto a crise política, cerca de 500 personalidades, entre eles empresários peso-pesados, assinaram uma carta com uma espécie de ultimato contra o governo.

“Estamos no limiar de uma fase explosiva da pandemia e é fundamental que a partir de agora as políticas públicas sejam alicerçadas em dados, informações confiáveis e evidência científica. Não há mais tempo para perder em debates estéreis e notícias falsas”, alertaram os signatários.

Para eles, as crises econômica e social causadas pela Covid-19 só seriam superadas quando a pandemia fosse controlada por uma “atuação mais competente do governo federal”.

Foi só então que avançou o programa de vacinação no país.

Um ano e quatro meses depois, Bolsonaro está novamente emparedado por manifestos pró-democracia endossados por juristas, empresários e até banqueiros. Um dos documentos, que inclui apoio de setores do agronegócio, conta com 100 mil assinaturas.

Não é exatamente o tipo de gente que Bolsonaro pode mandar catar coquinho, mostrar dedo do meio ou pedir democracia na casa da mãe.

São grupos que em algum momento da História se tornaram peças-chave para que chegasse onde chegou, seja por meio de vista grossa, ingenuidade ou mesmo empolgação.

O mundo olha com preocupação para o que pode acontecer por aqui antes, durante e depois da campanha. Há preocupação com a escalada da violência e da devastação na floresta amazônica. E também com o ambiente dos negócios.

Essa preocupação, manifestada já em voz alta, pressiona quem hoje alimenta a pira em chama do atual presidente mas teme o dia seguinte de uma eventual derrota. Após dias de silêncio, até o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), agora desobedece o aliado e diz confiar nas urnas.

Convém ouvir as palavras com cautela. O mesmo deputado estava com uma camisa em homenagem ao capitão durante a convenção que confirmou sua candidatura à reeleição.

A mesma cautela vale para o recente pronunciamento do ministro do Superior Tribunal Militar que diz não ver com bons olhos a intromissão das Forças Armadas no processo eleitoral. Pode ser só recuo estratégico.

Um país incendiado em mais de um sentido não é exatamente um atrativo para quem decidirá onde investir seu dinheiro a partir de 2023.

Por isso o ex-presidente Lula fala tanto em “normalidade” em suas manifestações, como demonstrou na quarta-feira (27/7) em entrevista ao portal UOL. Há um ajuste de contas a ser feito caso o petista seja eleito em outubro para seu terceiro mandato. Mas ele evita partir para o confronto, seja com a atual cúpula do Congresso, hoje dominado pelo centrão, seja com as Forças Armadas, a quem acenou com elogios.

“Qual é o investidor estrangeiro que com um presidente maluco desse vai fazer investimento aqui?”, perguntou Lula na entrevista. “Vocês sabem da credibilidade que nós conquistamos, no nosso governo, lá fora. O (Geraldo) Alckmin sabe que eu e ele vamos viajar o mundo aí”.

A citação ao ex-governador paulista, candidato favorito do PIB em 2018 e escolhido a dedo para a composição da chapa em 2022, não é à toa. Lula acena para os grupos que podem mandar prender e soltar com a promessa de que, dessa vez, não tentará a reeleição. Uma forma de ganhar os segmentos hostis ao PT é dizer que ele é parte de uma frente ampla, composta por diversos partidos, e que, caso eleito, será no máximo um “maestro da orquestra”. Faz isso enquanto joga para seu adversário a pecha da violência, da “frente do ódio”, a “frente que quer atirar, que quer matar”.

A estratégia vai ser essa até outubro.

Como aconteceu no auge da pandemia, as lideranças empresariais e jurídicas do país querem um compromisso do atual presidente de que haverá vacinas no país –dessa vez, contra os próprios impulsos golpistas do capitão e seus seguidores. Esse impulso pode até fazer estrago, mas não terá apoio nem antes nem no dia seguinte.

Há alguns anos, esses atores foram fundamentais para pavimentar o caminho de Bolsonaro e seus radicais até o poder. A Fiesp que ontem espalhava patos e mensagens de ordem contra um governo em crise hoje coordena uma campanha em defesa da Justiça e da democracia.

A Faculdade de Direito da USP, de onde saiu a jurista responsável pelo processo que embasou o impeachment de Dilma Rousseff, colhe agora assinaturas para a sua “Carta aos Brasileiros”.

É como um chamado para que os bichos saídos das caixas de Pandora voltassem aos seus aposentos. Eles ainda estão soltos e dispostos a devorar manifestos do tipo com ataques hackers e outros golpes.

Alguns talvez não voltem nunca mais.

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