Casa Geyer: após anos de brigas, instituição deve abrir em 2024

Por décadas, o casarão de número 70 da Ladeira dos Guararapes, no Cosme Velho, abrigou Paulo e Maria Cecília Geyer e sua rara coleção de iconografias do século XIX, com ênfase em paisagens do Rio de Janeiro. Eram tantas as obras guardadas no casarão, datado do século XVIII, que algumas telas foram parar no teto de uma sala, cenário famoso que era uma amostra da excentricidade do casal de milionários. Antes de morrerem, Paulo e Maria Cecília oficializaram um desejo: o de que, na ausência deles, o acervo ficasse na residência e fosse apresentado ao público, sob os cuidados do Museu Imperial de Petrópolis. Passados oito anos desde que o imóvel e a coleção foram para as mãos da instituição, o sonho ganha contornos de realidade.

A expectativa é que o espaço, que deveria ter sido inaugurado em 2016, abra as portas até o fim de 2024, com pinturas há muito tempo guardadas, de nomes como Nicolas-Antoine Taunay, Thomas Ender, Johann Moritz Rugendas, Emil Bauch, August Muller e Franz Keller.

As intervenções para transformar a casa em museu devem ter início em janeiro, após aporte financeiro, anunciado este mês, de R$ 5 milhões da Unipar, maior produtora de cloro e soda cáustica e uma das maiores fornecedoras de PVC na América do Sul. A empresa tem como acionista controlador Frank Geyer Abubakir, neto de Paulo e Maria Cecília e que, este ano, notificou extrajudicialmente o Museu Imperial sobre a demora na abertura do espaço. Ele e a direção da instituição petropolitana travaram anos de brigas na Justiça sobre parte do acervo, que chegaram a envolver até a Polícia Federal. O herdeiro argumentava que os Geyer tinham direito a uma parte, por se tratarem de itens de família. A espera pela criação da Casa Geyer azedou mais a relação.

A situação parece pacificada. Diretor do Museu Imperial, Maurício Vicente Ferreira Júnior argumenta que a criação da Casa Geyer se arrastou por tanto tempo devido à falta de recursos. A doação da coleção e do acervo foi firmada em 1999 — Paulo morreu em 2004, e Maria Cecília, dez anos depois. Sobre os conflitos, Ferreira Júnior nem quer falar.

— As notícias são muito boas. Conseguimos no fim do ano passado fechar o projeto executivo. A casa servia como residência, não tem estrutura para receber visitantes como unidade museológica. Hoje, temos dimensionado tudo que é preciso. E o projeto não só foi publicado (no Diário Oficial da União), como já temos aporte de R$ 5 milhões, quase metade dos R$ 11 milhões necessários para obras — afirma o diretor, explicando que o museu deve custar ao todo R$ 23 milhões, sendo que a sua manutenção já consta do orçamento do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

Ele diz que o restante dos recursos pode vir de patrocínios em negociação, sem contar os cofres da Unipar. Apesar das brigas, Frank Geyer foi quem bancou, com R$ 2 milhões, o projeto executivo da casa, além de ter disponibilizado verbas para a exposição “O olhar germânico na gênese do Brasil”, no Museu Imperial, que reúne obras de artistas de língua alemã da coleção Geyer.

— O meu objetivo aqui não é o passado, mas abrir a Casa Geyer e ver o seu acervo bem cuidado, colocado à disposição da sociedade e do Brasil. Essa coleção tem que ser exibida, não pode mais ficar lacrada num porão — destaca Frank, dizendo também que nunca foi intenção dos avós que o acervo ficasse em Petrópolis. Ele não descarta destinar mais recursos para a casa, lugar onde cresceu e viveu até a juventude. Aos 50 anos, o empresário lembra que o seu quarto ficava no torreão do casarão, sede de um engenho de cana-de-açúcar no século XVIII. Seu bisavô Alberto Geyer Sampaio, responsável por importantes doações ao Masp, em São Paulo, acabou adquirindo o banco que pertencia ao dono da casa em meados do século XX. E o imóvel foi parar na família porque seu avô Paulo resolveu comprá-lo para ali viver. A intimidade dos Geyer com obras de arte vem de longa data. E com o Museu Imperial também: a família sempre teve casa em Petrópolis, e Paulo e Maria Cecília já haviam doado à instituição um leque comemorativo da chegada da Corte ao Brasil, em 1808.

— Sempre fomos ligados a Petrópolis e temos uma tradição familiar de mais de cem anos de contribuição para o mundo das artes — diz Frank, ele próprio um colecionador, que hoje mora com a mulher e as duas filhas na Suíça. — Meus avós passaram 50 anos fazendo uma coleção importantíssima: não conheço outra no mundo com esse recorte iconográfico de um período da história de um país. E os dois protagonizaram o ato de doar isso tudo a um museu.

Ferreira Júnior conta que o acervo da Casa Geyer tem exatos 4.255 itens:

— Só de Thomas Ender, são nove obras. É uma quantidade absurda de grandes autores em grande número. Hoje seria impossível formar essa coleção, nem com todo dinheiro do mundo, porque essas obras não estão mais no mercado. Sunqua é um autor chinês, e dele temos três pinturas. Não se acha mais Sunqua.

A coleção é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O casarão, não. O conceito trabalhado agora é o de “casa vivida”: a ideia é mostrar como a família usufruía de todas essas preciosidades. Não há mais quadros no teto da sala, mas lá serão instaladas réplicas. Depois de tanto tempo fechada, a residência não está em boas condições, como afirmam fontes. O Museu Imperial nega que ela esteja em estado precário e, alegando razões de segurança, não autorizou a entrada da reportagem.

O projeto prevê, entre outras intervenções, novo paisagismo para o jardim que será aberto à população, e um prédio extra para serviços como o de reserva técnica.

Antes da pandemia, herdeiros (que foram alvo de buscas da PF por causa de peças que teriam sido furtadas) ganharam na Justiça o direito sobre os objetos em questão. Hoje, o diretor do museu de Petrópolis, inclusive, chama Frank Geyer de “nosso Rockefeller brasileiro”. O acervo sob os cuidados da instituição é avaliado pelo empresário em mais de US$ 120 milhões:

— Não quero nada de volta: só quero ajudar a abrir a casa.