Cientistas alertam para impacto ambiental de muro proposto por Trump

Alex Segura Lozano.

Austin (EUA), 30 mar (EFE).- Cientistas e organizações ambientalistas estão chamando a atenção para a ameaça à biodiversidade da fronteira entre México e Estados Unidos representada pelo muro proposto pelo presidente americano, Donald Trump, que pode ter efeitos "devastadores" para várias espécies animais e vegetais.

"Nossas pesquisas mostram que a construção de um muro ao longo da fronteira com o México afetaria de maneira muito negativa a biodiversidade única da região, tanto por cortar de repente as rotas de muitas espécies que vivem ali como pela alta poluição que a obra provocaria", declarou à Agência Efe Tim Keitt, professor do Departamento de Biologia Integradora da Universidade do Texas.

O cientista garantiu ainda que o impacto da mudança climática em regiões do norte mexicano está obrigando numerosas espécies a migrar rumo aos Estados Unidos, movimentos que seriam interrompidos com o muro idealizado por Trump, que hipoteticamente ocuparia toda a fronteira comum.

A fronteira entre os dois países atravessa diferentes tipos de terrenos, desde áreas desérticas até o entorno do Rio Bravo.

O Vale do Rio Bravo foi classificado pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem (FWS, na sigla em inglês) dos Estados Unidos como uma das áreas com mais biodiversidade dentro do território americano e como um dos ecossistemas mais ameaçados da América do Norte.

Segundo a diretora adjunta da associação Conservação Natural (TNC, em inglês) do Texas, Vanessa Martin, esta região inclui uma "excepcional diversidade" de plantas e animais, alguns dos quais não são encontrados em nenhum outro lugar do território americano.

"Grande parte dos habitats ribeirinhos e terrestres nativos únicos do Vale foram fragmentados ou destruídos pela ação humana, por culpa de atividades como a agricultura, a expansão de cidades e povos e a crescente pressão do setor energético e da segurança fronteiriça", lamentou a cientista.

Algumas das espécies que se encontram atualmente em perigo de extinção nesta zona fronteiriça com os estados mexicanos de Tamaulipas e Nuevo León são a jaguatirica, o falcão-de-coleira e o jaguarundi, parente próximo do puma.

Sobre esta área, a Associação de Vida Selvagem do Texas (TWA, em inglês) denunciou em um documento enviado à Efe que um muro representaria "uma condenação" também para a propriedade privada e interromperia o acesso à água do Rio Bravo para proprietários e o gado, além dos animais selvagens.

A TWA afirmou que é "lógico" que existam barreiras físicas em lugares estratégicos, como nas área metropolitanas, mas sugeriu ao Departamento de Segurança Nacional (DHS, em inglês) que desenvolva e utilize outros métodos que não sejam barreiras físicas em lugares em que possam prejudicar à biodiversidade da área.

No território conhecido como o Velho Oeste do Texas, uma região que compartilha uma extensa fronteira com os estados mexicanos de Chihuahua e Coahuila, variedades como o urso-negro, o gato montês, o leão de montanha e o veado-mula, entre outras, poderiam extinguir-se caso o muro fosse erguido em sua totalidade.

Até agora, mais de mil quilômetros do limite contam com uma série de cercas e muros, de diferentes estruturas e alturas, que segundo apontam os cientistas "fragmentam o habitat vital nesta área e cortam um corredor importante de migração da fauna".

No entanto, Trump assegurou que seu muro ocuparia toda a fronteira, ou seja, dois mil quilômetros a mais.

Os pesquisadores lembraram neste sentido que a sobrevivência de uma espécie depende de sua capacidade para deslocar-se para encontrar alimento, buscar proteção para salvar-se dos predadores, criar seus filhotes e encontrar companheiros sexuais com os quais procriar.

"Se queremos evitar a extinção das espécies únicas desta região, devemos proteger, restaurar e conectar o pouco que resta de habitat, não destrui-lo", destacou Martin.

Ambientalistas e grupos de conservação indicaram que o muro fronteiriço comprometeu os esforços do governo federal para proteger as espécies vulneráveis, colocando o Departamento de Segurança Nacional, encarregado de evitar a entrada de imigrantes ilegais, em rota de colisão com o Serviço de Pesca e Vida Selvagem.

O porta-voz desta última agência, Gavin Shire, disse à Agência Efe que qualquer avaliação dos impactos potenciais de um muro fronteiriço na vida silvestre em perigo seria feito através do processo formal de consulta sob a Lei de Espécies Ameaçadas.

"Neste momento não recebemos uma solicitação de tal consulta de nenhum departamento e não faremos avaliações especulativas fora desse processo", esclareceu Shire. EFE