No casamento de Bolsonaro com PL, noivo periga fugir do altar

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Brazil's President Jair Bolsonaro reacts during the ceremony to consolidate the Infralegal Labor Regulatory Framework, at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, November 10, 2021. REUTERS/Ueslei Marcelino
Bolsonaro tanto enrolou o PL que agora periga ficar (de novo) sozinho. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

O vaivém de Jair Bolsonaro para encontrar logo uma legenda e poder disputar a reeleição em 2022 é um curso intensivo de bolsonarismo aplicado. A novela com o Partido Liberal (PL) já é um clássico com fundo educativo e moral da história.

Primeiro o presidente afirmou que estava quase tudo certo para anunciar em breve sua filiação à legenda. Não tinha como dar errado. Até que deu. Como numa antiga música, o quase tudo quase sempre é quase nada na estratégia bolsonarista. Quem acompanha as aventuras e altas confusões dessa turminha do barulho sabe que 1% é sinônimo de emoção até o fim.

A convicção do presidente na hora de tomar a decisão não durou uma saraivada de tuítes. Seu filho 02, o vereador do Rio Carlos Bolsonaro, teria mostrado ao capitão que a notícia pegou mal em sua base. Era hora de recuar. Ou inflacionar o pedido.

A princípio, Bolsonaro e Valdemar da Costa Neto, o dono do partido, acertaram a cerimônia oficial de filiação para o dia 22. Os PhDs em bolsonarismo sacaram que era tempo demais. Era tempo suficiente também para o clã (já que o pai não prepararia as malas sozinho) começasse a apontar detalhes do contrato como quem quer ganhar tempo e espaço antes mesmo da mudança.

Foi quando de repente o presidente se tocou de que o PL estava de namoro com outra pessoa em São Paulo. No caso, a turma do João Doria, governador paulista que quer transformar o vice Rodrigo Garcia em seu sucessor —com o apoio dos liberais. Outras bases do partido no Nordeste flertavam também com outro inimigo, Luiz Inácio Lula da Silva.

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Aí então a conversa mudou e Bolsonaro, já vestido de noivo, passou a dizer que ainda havia muito o que conversar com o pretendente. O que se seguiu parece ser impublicável, e transformou uma madrugada de acerto de contas em troca de tiros.

Resultado: uma semana depois de marcar o casamento, a chance agora de Bolsonaro entrar na igreja com o PL não deve ser maior do que 1%.

Isso diz muito sobre a rigidez das convicções bolsonaristas, mais perdidas que birutas de aeroporto. Diz também sobre sua capacidade do capitão em atrair aliados e produzir inimigos.

Há pouco mais de três anos, Doria, a suposta razão para o fim do casamento com o PL, era seu aliado político em São Paulo. Tinha tudo para ser um relacioamento feliz, mesmo à distância. Um não se constrangeu em emprestar o palanque para o outro na campanha. Até os sobrenomes foram trocados, o que tornou a dobradinha conhecida como BolsoDoria. Até que desavenças e vaidades os tornaram inimigos ferozes.

Bolsonaro foi eleito pelo PSL e saiu de lá atirando, abrindo mão de governar com o apoio unificado da segunda maior bancada da Câmara. Tudo foi por espaço por conta de desentendimentos sobre comando e repartição dos fundos, partidário e eleitoral, com o cacique da legenda, Luciano Bivar.

Bolsonaro chutou o até então aliado dizendo por aí que ele estava “queimado pra caramba”.

Desde então perambula como alma penada em busca de um corpo partidário. Nanicos como Patriota e PRTB até aceitaram os primeiros flertes, mas mandaram o enrosco para casa quando viram que o contrato de inquilinato havia se transformado em pedido de resgate.

Veio então a aliança com o centrão e Bolsonaro fez o que não se deve fazer nem na vida nem nos bastidores de Brasília: namorou mais de um pretendente ao mesmo tempo. No Caso, PL, PP e PTB. Cozinhou tudo em banho-maria e deu esperança a todos. Achou que estava em um leilão e agora corre o risco de ficar sozinho.

Com o pretexto de que o PL ainda não havia dado sinais de que iria se converter de corpo e alma à causa bolsonarista, o que envolve obsessões como o armamento e a pauta de costumes, Bolsonaro, que na vida privada está em sua terceira união civil, e contando, diz agora que o casamento com o futuro partido precisa ser “perfeito”. É um jeito de forçar o PL a recuar nos acordos com Doria e outros desafetos com quem já namorou um dia.

Como favas contadas, Bolsonaro mal casou e já esbarrou na figura do presidente do partido --um spoiler facilmente sacado para quem acompanha sua trajetória. O embate não deu certo no PSL de Bivar. Por que funcionaria agora com o PL de Costa Neto?

Quando fala em “casamento perfeito” Bolsonaro deixa nas entrelinhas que quer o imóvel partidário com porteira fechada. Isso não é união, é relação abusiva. E nela não cabem os egos de dois dirigentes, um deles incapaz de ceder.

Resultado: tudo parece agora voltar à estaca zero. Ou, caso a crise seja agora debelada, nada garante que ela não vai estourar no futuro próximo.

Tudo porque o bolsonarismo é, antes de tudo, uma máquina de moer acordos, desperdiçar oportunidades e gerar inimigos. Os presidenciáveis João Doria, Luiz Henrique Mandetta e Sergio Moro, juntamente com Carlos Alberto dos Santos Cruz, Otávio Rego Bastos e Paulo Marinho, são só alguns dos desafetos que saíram chamuscados de uma aliança cheia de espinhos e que agora prometem complicar o caminho do ex-amigo até a reeleição. O vice Hamilton Mourão é outro que enfrenta em público um calvário de humilhações gratuitas.

Os novos aliados do centrão que se cuidem. Tirando os filhos, não teve quem não abraçou o capitão quando lhe era conveniente e não foi largado na estrada quando deixou de servir. Costa Neto, se o divórcio for confirmado, não terá sido o primeiro. Nem o último. Isso é bolsonarismo na veia.

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