Casarão do Museu Internacional de Arte Naïf, maior coleção do conceito no mundo, tem destino incerto

Perto da Casa Geyer, a solução para outro museu fechado parece distante. O imóvel na Rua Cosme Velho 561 foi vendido em dezembro de 2021 e deixou um acervo único no mundo, de seis mil obras de artistas de 120 países, sem casa. No começo do mês, a museóloga Jacqueline Finkelstein, filha do fundador do Museu Internacional de Arte Naïf (Mian), o joalheiro francês radicado no Rio Lucien Finkelstein (1931-2008), assinou a doação para o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) do painel de 24 metros de comprimento “Brasil, cinco séculos de luta”, de Aparecida Azedo. A obra, maior tela de arte naïf do mundo, ocupa agora lugar de destaque no Museu Histórico Nacional, como queria Jacqueline.

O restante da coleção está armazenado em um apartamento alugado em Copacabana. A herdeira revela que separou três mil obras, as mais importantes, para negociação em conjunto. O risco desses quadros deixarem o Rio e até mesmo o país é real. Entre os muitos artistas de destaque com telas encaixotadas estão os cariocas Heitor dos Prazeres e Lia Mittarakis, o português Cardosinho e o alagoano Miranda. A palavra naïf (ingênuo, em francês), considerada por muitos pejorativa, designa a produção de artistas sem formação acadêmica.

— Existem interessados no Brasil e de fora do país para a compra da coleção como um todo. Eu quero manter essa coleção junta para que possa ser exposta como o grande acervo que é, o maior de arte naïf do mundo — afirma a museóloga, que ainda doou ao Ibram mais de 500 obras, que seguem sob sua guarda pela falta de museus de arte naïf no país.

Empreendimento de caráter privado, o Mian, aberto em 1995, fechou as portas de vez em dezembro de 2016, após amargar longa crise financeira. Pagar a folha de funcionários tinha virado um pesadelo para Jacqueline, que antes comprou o casarão ao lado para expandir a instituição. Os dois imóveis do século XIX acabaram colocados à venda: o principal por R$ 4 milhões, e o vizinho, em ruínas, por R$ 2 milhões. A museóloga não revela o nome da empresa compradora e, apesar das dificuldades, mantém uma ponta de esperança de ver o museu reaberto em outro lugar:

— A esperança é a última que morre. Trata-se de uma coleção muito importante, e tem muita gente querendo partes, o que dificulta as negociações. Quero manter juntas essas três mil obras, que seriam o núcleo base da coleção.