O que se sabe sobre caso do PM morto após 'surto' e ataque a colegas na Bahia

Redação Notícias
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PM "surta" em Salvador e acaba morto - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Um soldado da PM (Polícia Militar) da Bahia foi morto em meio a um aparente surto na noite de domingo (28), na região do Farol da Barra, em Salvador. O desfecho aconteceu após o militar realizar disparos de fuzil em direção a outros policiais do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) que faziam a negociação para que se entregasse.

O episódio repercutiu nacionalmente e tornou-se parte de uma ofensiva da base bolsonarista contra as medidas restritivas decretadas por governadores para frear o avanço da pandemia do novo coronavírus. A narrativa chegou a parlamentares quem apoiam o governo de Jair Bolsonaro e escalou a ponto de defenderem um motim da PM contra o governador baiano, Rui Costa (PT).

ENTENDA O CASO DO PM MORTO APÓS ATIRAR EM MILITARES EM SALVADOR

Quem é o soldado?

O PM Wesley Góes tinha 38 anos, era noivo e trabalhava na 72ª CIPM (Companhia Independente da Polícia Militar), na cidade de Itacaré, onde também residia, ao sul da Bahia, a 250 km de Salvador. 

Ele fazia parte da corporação há 13 anos e, de acordo com a PM, nesse período nunca apresentou comportamentos que dessem indicativo de qualquer problema psicológico. O comando da PM afirmou que Wesley era um policial exemplar e que não respondia a nenhuma infração disciplinar.

Como foi o surto?

O episódio começou por volta das 14h, quando o PM — que estava de serviço em Itacaré no dia — começou a atirar de dentro do carro na avenida Sete de Setembro, no centro de Salvador. Ele passou a ser alvo de uma perseguição policial, fugiu por quase 5 km até o Farol da Barra, um dos pontos turísticos mais icônicos de Salvador, e rompeu as barreiras que isolavam a região. 

Ele teria pego o próprio carro, saído de Itacaré e dirigido até a capital baiana. No Farol da Barra, ele desceu do carro e passou a repetir frases e disparar para o alto. Wesley deu mais de uma dezena de tiros para o alto e gritou palavras de ordem, provocando pânico entre moradores da região. 

O policial estava fardado, armado com o fuzil de serviço da PM e uma pistola de uso pessoal. O PM também estava com o rosto pintado de verde e amarelo

Nos discursos feitos, o PM falava de:

  • Desonra e violação da dignidade dos policiais - "Comunidade, venham testemunhar a honra ou a desonra do policial militar do estado da Bahia"

  • Violação da dignidade e honra do trabalhador - "Não vou deixar, não vou permitir que violem a dignidade e honra do trabalhador"

Às 18h35, o militar inicou uma contagem e disparou com um fuzil calibre 5,56. Foto: Alberto Maraux/Secretaria da Segurança Pública da Bahia
Às 18h35, o militar inicou uma contagem e disparou com um fuzil calibre 5,56. Foto: Alberto Maraux/Secretaria da Segurança Pública da Bahia

A região do Farol da Barra foi isolada e policiais do Bope iniciaram a negociação, que durou cerca de 4 horas.

Os relatos da Secretaria de Segurança Pública da Bahia dão conta de que o homem alternava entre momentos de lucidez e acessos de raiva. Nos picos do surto, ele voltava a disparar. Além dos tiros, Wesley jogou isopores, bicicletas e grades no bar, além de empurrar motos de PMs e uma viatura.

"Enquanto os disparos não estavam oferecendo riscos para a tropa e para as pessoas que circulavam, protegemos a integridade do soldado. Sempre temos esse cuidado, temos expertise de atender ocorrência dessa natureza. Foram utilizadas outras alternativas, porém ele estava com uma arma de grande poder de letalidade e em determinado momento todos os recursos de isolamento e proteção foram esgotados" - ressaltou o comandante-geral da Polícia Militar da Bahia, Paulo Coutinho.

Por volta das 18h50, o soldado anunciou que "havia chegado a hora", fez uma contagem regressiva e iniciou os disparos contra as equipes do Bope que faziam a negociação. Pouco antes de ser atingido, ele disparou com um fuzil contra agentes. O PM foi alvo de, também, pelo menos dez disparos

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Policiais dispararam balas de borracha contra a imprensa

Logo após o PM ser baleado, jornalistas tentaram se aproximar do local e foram atingidos com balas de borracha. Forças policiais queriam afastar os profissionais de imprensa. O Sindicato de Jornalistas da Bahia condenou “veementemente o comportamento dos policiais envolvidos” no episódio.

A instituição avalia que não havia “qualquer necessidade de agir daquela maneira pois os jornalistas estavam trabalhando e não representavam.

Atendimento médico, intubação e confirmação da morte

Após os disparos, Wesley foi levado para o HGE (Hospital Geral do Estado) e ficou intubado. No fim da noite, por volta das 22h30, o major Hosannah Santos Rocha, da 72ª CIPM, informou que o PM não resistiu.

“O Batalhão de Operações Policiais Especiais adotou protocolos de segurança e o policial militar ferido foi socorrido imediatamente pelo SAMU. A corporação tomou conhecimento ainda de um vídeo do momento em que a imprensa acompanha o fato e é interpelada por um policial militar. A instituição ressalta o respeito à liberdade de expressão e ao trabalho dos jornalistas. O fato será devidamente apurado”, informou a PM em nota.

O comandante do Bope, major Clédson Conceição, afirmou que "buscamos, utilizando técnicas internacionais de negociação, impedir um confronto, mas o militar atacou as nossas equipes. Além de colocar em risco os militares, estávamos em uma área residencial, expondo também os moradores."

Como foi a repercussão do caso?

Investigação da Polícia Militar

Um inquérito policial militar foi instalado para apurar as circunstâncias da morte do soldado.

"Ocorrências críticas possuem muitas motivações e só podem ser esclarecidas após a abertura do processo investigativo. Mas ali foi um típico caso de um indivíduo que estava passando por um transtorno mental e estava desconectado da realidade. As imagens falam por si só", disse o comandante-geral da PM, Paulo Coutinho.

Após a morte, militares protestam: 'A PM parou'

Logo após a confirmação da morte do soldado Wesley, um grupo de policiais militares fizeram um protesto e entoaram gritos como "ôôôôôôôô, a PM parou". 

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Policiais ligados à Aspra, associação que representa soldados e praças, convocou um protesto para o Farol da Barra na manhã desta segunda. Líder da associação, o deputado estadual Soldado Prisco (PSC), que já liderou greves da PM na Bahia em 2012 e 2014, conclamou os policiais a aderirem a um novo motim.

Em vídeos gravados em frente ao hospital para o qual Soares foi levado após ser baleado, Prisco aparece acompanhado de outros agentes de segurança sem farda pedindo orações por Soares, convocando protestos e afirmando que "a hora é agora." Registros feitos em frente ao hospital também mostram um grupo gritando "a PM parou". É possível ver no vídeo diversas pessoas com camisetas da Polícia Civil baiana.

É possível encontrar também manifestações de apoio ao soldado morto em outros Estados. "Wesley representa policiais que estão sendo obrigados a atender os desmandos do Governo, porque a desobediência gera prisão, demissão e custa até a vida! Não é nada fácil! Vidas policiais importam!", escreveu Sargento Reginauro (Pros), vereador de Fortaleza.

Comandante-geral da PM da Bahia, Paulo Coutinho, afastou a possibilidade de motim por parte da corporação após o episódio. (Foto: Reprodução)
Comandante-geral da PM da Bahia, Paulo Coutinho, afastou a possibilidade de motim por parte da corporação após o episódio. (Foto: Reprodução)

O comandante da PM descartou uma possível greve dos policiais: "Não há possibilidade de grave. Prestamos um serviço extremamente essencial para a comunidade", afirmou.

Na cúpula do governo baiano, houve preocupação de que o caso desencadeasse uma onda de hostilidade contra os governadores em âmbito nacional, amparada por uma narrativa baseada em informações falsas. A avaliação é que houve uma tentativa de uma base mais radical, ligada a Bolsonaro, de politizar o caso e nacionalizar o seu impacto, com estímulo de ações mais radicais típicas de regimes totalitários. 

"O final de semana foi de ataque a mim e a governadores e prefeitos do Brasil inteiro, mas não iremos nos intimidar com mentiras e ameaças", afirmou o governador Rui Costa, em vídeo divulgado nesta segunda.

Narrativas bolsonaristas

Textos compartilhados em redes insinuam, sem provas, que o PM morto teve um surto psicótico após se negar a cumprir ordens do governo da Bahia relacionadas ao fechamento de comércios como parte das medidas de restrição à circulação de pessoas. 

Ao menos 15 mil pessoas morreram pela doença na Bahia, onde a ocupação dos leitos UTI chega a 87%.

Bia Kicis incentiva motim da PM e apaga postagem

Na madrugada desta segunda (29), a deputada federal Bia Kicis usou suas redes sociais para se manifestar sobre o caso. Bia Kicis, inicialmente, usou suas redes sociais para defender o soldado.

A parlamentar, presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça da Câmara), é investigada no inquérito das fake news e no que apura atos antidemocráticos. Assim como Bolsonaro, é crítica do isolamento social para evitar a propagação do novo coronavírus.

"Soldado da PM da Bahia abatido por seus companheiros. Morreu porque se recusou a prender trabalhadores. Disse não às ordens ilegais do governador Rui Costa da Bahia", escreveu. "Esse soldado é um herói. Agora a PM da Bahia arou. Chega de cumprir ordem ilegal!". 

Na manhã desta segunda, a deputada voltou às redes sociais para apagar o post e justificar a decisão. Bia Kicis afirmou ter sido informada na madrugada que o PM morto durante o surto havia atirado para o alto e foi baleado por colegas. "As redes se comoveram e eu também. Hoje cedo removi o post para aguardarmos as investigações. Inclusive diante do reconhecimento da fundamental hierarquia militar", afirmou.

A reação inicial da deputada gerou fortes críticas de colegas parlamentares e governadores

  • O senador Angelo Coronel (PSD-BA) afirmou ser um "absurdo uma parlamentar querer politizar um fato dessa natureza". Ele disse ainda que a presidente da CCJ faltava com a verdade ao dizer que a PM parou. "Precisamos nos unir em busca de salvar vidas imunizando o povo brasileiro com mais celeridade. O momento não comporta factoides em busca de clicks", escreveu. 

  • Líder da minoria na Câmara, o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) criticou a parlamentar. "A extremista Bia Kicis, presidente da CCJ, que já discursou a favor da intervenção militar dentro do parlamento, agora estimula um motim da PM na Bahia. Mais uma vez utiliza o cargo para pregar a violência contra o Estado de Direito e a Democracia. É um crime contra a Constituição? , escreveu em uma rede social. Para Freixo, Kicis e demais deputados bolsonaristas "querem alimentar o caos" usando a PM para provocar guerra com governadores e "justificar o golpe". "O Congresso Nacional precisa reagir imediatamente." 

  • O vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-AM), também criticou as declarações feitas por Bia Kicis durante a madrugada. Segundo ele, a condição de parlamentar não dá aval a que se incite o cometimento de crimes. "A condição de presidente da CCJ, menos ainda. O respeito a hierarquia é elemento essencial para as PMs e um parlamentar estimular motins é algo muito grave", disse. 

  • Já o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ) analisou o episódio da seguinte forma: "De onde você menos espera é que não sai nada mesmo." "Não se pode esperar nada de uma pessoa desequilibrada. Como já disse: viramos um hospício", afirmou em uma rede social.

Eduardo Bolsonaro sai em defesa do PM morto

Filho 03 do presidente Jair Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) também defendeu o PM morto pelos agentes do Bope. 

"Aos vocacionados em combater o crime, prender trabalhador é a maior punição. Esse sistema ditatorial vai mudar", disse. "Protestos pipocam pelo mundo e a imprensa já não consegue abafar. Estão brincando de democracia achando que o povo é otário. Que Deus conforte os familiares do PM-BA."

Roberto Jefferson pede criação de milícia

Outro aliado do presidente, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) também defendeu em uma live realizada no domingo (28) a criação de milícias para agredir fisicamente os guardas municipais que reprimem a abertura de comércio em cidades que estão sob lockdown por ordem dos governadores.

Reação dos governadores vem por meio de carta

Governadores de 16 estados divulgaram nesta segunda-feira (29) uma carta em que manifestam indignação contra uma onda de agressões e disseminação de fake news que tenta, segundo eles, criar instabilidade institucional nos estados e manipular policiais contra a ordem democrática

A carta pede que Bolsonaro, os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Luiz Fux, tomem providências para coibir atos ilegais e imorais. 

"Os estados e todos os agentes públicos precisam de paz para prosseguir com o seu trabalho, salvando vidas e empregos", dizem. "Estimular motins policiais, divulgar fake news, agredir governadores e adversários políticos, são procedimentos repugnantes, que não podem prosperar em um país livre e democrático." 

Além de Rui Costa, assinam a carta os governadores dos estados de: 

  • Maranhão, Flávio Dino (PCdoB); 

  • Pará, Helder Barbalho (MDB); 

  • Pernambuco, Paulo Câmara (PSB); 

  • São Paulo, João Doria (PSDB), 

  • Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), 

  • Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM); 

  • Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB); 

  • Ceará, Camilo Santana (PT); 

  • Paraíba, João Azêvedo (Cidadania); 

  • Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB); 

  • Piauí, Wellington Dias (PT); 

  • Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT); 

  • Sergipe, Belivaldo Chagas (PSD); 

  • Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PSDB), 

  • e Amapá, Waldez Góes (PDT)