Caso Flordelis: da fama e eleição para deputada à cadeia; relembre a trajetória da pastora

De missionária que acolhia crianças pobres, passando por cantora gospel de sucesso e pastora com milhares de fiéis, até chegar a deputada federal cassada por envolvimento na morte do marido, crime pelo qual é julgada nesta segunda-feira pela Justiça. Marcada pela propagação da fé, a trajetória de Flordelis dos Santos de Souza, de 61 anos, mudou completamente de rumo desde o assassinato do também pastor Anderson do Carmo, em junho de 2019, na residência que o casal dividia com vários dos filhos em Niterói, na Região Metropolitana do Rio.

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Eleita deputada federal em 2018, tendo como uma de suas principais bandeiras a desburocratização da adoção no Brasil, Flordelis ficou conhecida por afirmar ser mãe de 55 filhos, a maioria deles apenas afetivos, sem que tenham sido formalmente adotados. A ex-parlamentar relata que sua história de acolhimento de crianças e adolescentes teve início no início dos anos 1990, quando ela ainda vivia na Favela do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, onde nasceu e foi criada. Flordelis afirma que, em apenas uma noite, acolheu 37 crianças que tinham fugido de uma chacina na Central do Brasil, no Centro do Rio.

Foi no Jacarezinho que Anderson e Flordelis se conheceram. Quando o casal começou a se envolver, ela tinha 30 anos e ele, que também morava na comunidade, 14. Inicialmente, ele passou a frequentar a casa de Flordelis, que já fazia um trabalho com jovens na comunidade, mas acabou se apaixonando por ela. Na época, Flordelis estava recém-separada do primeiro marido.

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Aos 14 anos, Flordelis perdeu o pai e um irmão, mortos em um acidente de carro. Trabalhou como balconista em uma padaria e acompanhava a mãe, Carmozina Motta, em uma rotina evangélica, da qual participava cantando e tocando guitarra.

Encontro de trajetórias

Quando conheceu Anderson, a missionária já tinha três filhos biológicos do primeiro casamento e que viviam com ela — Simone, Flávio e Adriano. Anderson fugia do perfil dos outros jovens acolhidos pela pastora. Eles, em geral, tinham problemas familiares ou parentes envolvidos com o tráfico. Já Anderson, também nascido e criado na favela, vivia com os pais e estava concluindo o ensino médio no Colégio Pedro II de São Cristóvão, uma escola pública de tradição e qualidade. Poucos meses antes, havia conseguido um trabalho como jovem aprendiz no Banco do Brasil.

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Desenvolto e articulado, Anderson tornou-se líder do grupo de jovens da igreja tocada por Flordelis e por dona Carmozina Motta na Rua Santa Laura, no Jacarezinho. A pastora foi sua segunda namorada, de acordo com o relato da mãe, Maria Edna do Carmo. O primeiro namoro foi com Simone, filha biológica de Flordelis, que tinha três anos a menos que ele.

Anderson logo assumira a função de administrador da casa. Era visto, entre os jovens do Jacarezinho que chegaram à casa com ele, como um irmão mais velho, uma liderança, apesar de até ser mais novo que um deles, Carlos. Tinha uma estratégia criativa para levantar dinheiro usando a imagem de pastora de Flordelis.

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Cultos gravados

Com a ajuda de Wadner Andrade Pimenta, o Misael, morador do Jacarezinho que também chegou à casa na adolescência, gravava os cultos ministrados por ela e fazia cópias em CD e DVD para vender nas igrejas por onde passavam. Eles carregavam consigo um portfólio de Flordelis, com matérias de jornais sobre ela.

Anderson saía pelas ruas com uma maleta prateada nas mãos, na qual levava o material das pregações de Flordelis para vender. Os outros familiares cuidavam das tarefas domésticas. Não demorou para as doações começarem a chegar. Um dos dois quartos da casa ficava tomado por elas. Sobrava o outro para que todos dormissem. Mas havia ainda jovens que se espalhavam pela sala e pela cozinha. Foi nessa época que a mãe de Anderson, Maria Edna, insistia, com frequência, para que o filho voltasse para casa. Em resposta, ouvia que ele precisava “se dedicar à obra do Senhor”.

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Fuga da Justiça

Como a situação de muitas das crianças não era regularizada, Flordelis fugiu de diversas fiscalizações da Vara da Infância e Juventude ao longo dos anos 1990 e a família passou por diversos endereços. Na época, dizia que era perseguida. Em 1999, Anderson e Flordelis fundaram sua primeira igreja, no bairro do Rocha, Zona Norte do Rio.

Também fundado na Zona Norte do Rio, o Ministério Flordelis foi transferido no início dos anos 2000 para São Gonçalo. Chegou a ter cinco filiais, além da sede, no bairro Mutondo. O auge da popularidade de Flordelis foi um documentário de 2009 ("Flordelis — basta uma palavra para mudar"), que narrava como ela se tornara mãe de 55 filhos. O filme, estrelado por diversos rostos conhecidos, foi um trampolim para seu lançamento no mundo da música e, em seguida, no meio político.

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Interessado em negociar a trilha sonora do filme, Anderson procurou o já falecido senador Arolde de Oliveira, dono da gravadora evangélica MK Music. Oliveira abraçou o projeto gospel e acabou sendo o grande padrinho político da pastora. Flordelis passou a integrar o time de artistas da gravadora e fazia turnês no Brasil e no exterior. Tinha uma carreira de artista, não era apenas mais uma pregadora.

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Mentor de Flordelis, Anderson começou a impor uma condição para as apresentações da mulher. Ele teria de fazer a pregação de abertura. Revelou-se um orador articulado, com especial talento quando dava seu testemunho sobre a narrativa emocionada de como o casal se encontrou e se uniu.

Anderson mostrava-se controlador a respeito da mulher, das finanças, da igreja. Escolhia as roupas que ela usava e fazia questão de sugerir até os temas que ela abordaria com os fiéis. Discordâncias causavam desentendimentos. Por vezes, a pastora reclamava. Anderson queixava-se quando Flordelis gastava o que considerava dinheiro demais, principalmente com alguns filhos e netos mais próximos a ela. Ele próprio, no entanto, antes de sua morte, mostrava-se mais perdulário.

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Apesar do jeito “mandão”, endeusava a mulher. Uma das coisas que o deixavam enfurecido era ver os filhos discordando da pastora. Era terminantemente proibido na família. “A mãe falou, está falado”, repetia.

A imagem de mandachuva fazia com que nem todos os filhos enxergassem Anderson como pai. Muitos o viam como um líder e o chamavam pelo apelido de Niel. Já Flordelis era chamada por quase todos de mãe, com raríssimas exceções. Roberta Santos, por exemplo, acolhida ainda bebê, ficara sob os cuidados de dois filhos adotivos que se casaram, Carlos e Cristiane. Roberta os chamava de pai e mãe. Era comum, na casa, o cuidado dos filhos mais novos ser delegado aos mais velhos.

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O xodó do pastor Anderson na casa era Daniel dos Santos, de 21 anos, sempre apresentado por ele e Flordelis como o único filho biológico do casal. A morte de Anderson, no entanto, trouxe outra versão para a história. Maria Edna do Carmo, mãe do pastor, revelou em depoimento à Polícia Civil que Daniel não era filho biológico do casal. O rapaz, no entanto, foi registrado como filho de ambos e nunca houve qualquer processo de adoção.

O crime ainda trouxe à tona outras irregularidades. A primeira criança abrigada por Flordelis, em 1993, na Central do Brasil, também nunca foi formalmente adotada. A menina Rayane dos Santos Oliveira, levada para a casa da parlamentar com poucos dias de vida, ficou sob os cuidados de Simone dos Santos, filha biológica de Flordelis, e foi registrada como sua filha sem passar pelo aval de um juiz. Não há nenhum processo na Justiça sobre a adoção da jovem. Ainda que desejasse adotar Rayane, Simone seria impedida por lei. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que a diferença de idade entre quem adota e quem está sendo adotado precisa ser de, no mínimo, 16 anos. A diferença entre Simone e Rayane é de apenas 13 anos.

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Flávio, que era apenas quatro anos mais jovem que Anderson, nunca o teve sequer como padrasto. Seu relacionamento com o marido da mãe era frio e distante, assim como com outras pessoas da casa. Recentemente, houve uma tardia aproximação. Vendo o filho biológico de Flordelis ser acusado de violência doméstica pela ex-mulher, o pastor resolveu levá-lo para Brasília, na tentativa de afastá-lo de problemas.

Durante o primeiro julgamento do caso, em novembro do ano passado, Flávio foi condenado a 33 anos e dois meses de prisão por ser o executor de Anderson do Carmo.

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Eleita deputada federal

Quando Flordelis foi eleita deputada federal pelo PSD, em 2018, o papel de mentor de Anderson foi reconhecido no meio político. Sua participação era tão ativa que, nos corredores da Câmara dos Deputados, chamavam-no, em tom de blague, de 47º parlamentar do Rio. No início de 2019, foi ao então presidente da Casa, Rodrigo Maia, pleitear um crachá para circular no plenário. Flordelis fez coro ao apelo: disse que não tinha condições de assumir o mandato sem o marido. O pedido foi aceito.

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Anderson articulou os principais compromissos da mulher em Brasília: conseguiu que fosse recebida pela primeira-dama Michele Bolsonaro, no Palácio da Alvorada e pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli. Também foi do pastor a articulação de um seminário sobre adoção na Câmara dos Deputados, realizado pouco mais de duas semanas antes de sua morte. Aos poucos, Flordelis foi ocupando um importante espaço na Casa, algo improvável para uma estreante na política.

Tudo ruiu na madrugada de 16 de junho. Anderson do Carmo de Souza foi assassinado, na garagem da casa da família, em Pendotiba. Para a polícia, o crime foi planejado e executado por integrantes da família. Às 3h25, Anderson e Flordelis chegaram à casa depois de uma noite juntos. A pastora relatou que se dirigiu ao terceiro andar, enquanto o marido permaneceu na garagem. As câmeras de segurança não registraram a entrada de nenhuma pessoa estranha na casa. O pastor foi baleado cerca de dez minutos após ter chegado à casa.

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