Caso Flordelis: Delegada diz que pastora não relatou agressões sexuais em depoimentos e que casamento 'era aberto'

Em depoimento no julgamento da ex-deputada Flordelis dos Santos de Souza, a delegada da Polícia Civil Bárbara Lomba, que conduziu a primeira investigação do caso, negou que a pastora tenha relatado à polícia que fora vítima de abusos sexuais ou violência física cometidos por Anderson. Segundo a delegada, no período em que esteve à frente da Delegacia de Homicídios, a ex-deputada foi ouvida pelos investigadores duas vezes. Bárbara disse ainda que o casamento de Flordelis e Anderson era aberto.

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— Jamais, nem que ele tinha nenhuma atitude reprovável. Pelo contrário, falou muito bem. Que tratava todos com muito respeito, com muito amor. E quando levantamos o telefone dele, ele também tinha esse tratamento com Flordelis — afirmou, ao ser indagada pelo advogado de acusação Angelo Máximo.

Em um vídeo divulgado pelo jornal O GLOBO neste domingo, Flordelis narrou ter sido vítima de abusos por parte de Anderson. Flordelis é acusada de ser mandante da morte do marido, o pastor Anderson do Carmo. Também são réus seus filhos Simone, André e Marzy e a neta Rayane.

Bárbara afirmou que não houve confirmação de que abusos sexuais tenham sido cometidos na casa:

— O que se provou é que as relações eram consentidas.

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A policial afirmou que o relacionamento entre Anderson e Flordelis era aberto e não se tratava de um casamento “tradicional”. Ela acrescentou que, em relação a alguns integrantes da família, não havia relação de pai e mãe com Anderson e Flordelis.

— (O relacionamento) Era aberto. As coisas eram abertas lá dentro. Havia um casamento e eles, como pastores, se comportavam como num casamento tradicional. Não estou dizendo isso para julgar. Mas é que isso foi importante para a investigação. A gente desmonta algo que era construído de uma outra forma. Era passado como se fosse de outra forma. Não havia um amor de pai e mãe. Pessoas já tinham tido relações com Flordelis, com Anderson.

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A delegada relatou ainda que havia intrigas e discordâncias na casa e que Anderson tinha uma grande preocupação com a imagem da família, por isso o pastor era extremamente rigoroso.

— Havia intrigas, comunicações não diretas, havia discordâncias entre Flordelis e Anderson sobre rigor em relação a certas coisas. Pelos relatos, Anderson mais rigoroso e Flordelis, mais maleável com os erros. Ele era rigoroso porque era preocupado com a imagem — afirmou.

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Bárbara fez, ainda, uma análise sobre a relação de Anderson e Flordelis:

— Um precisava do outro de alguma forma. Falando muito vulgarmente, ele era o empreendedor e ela, o símbolo.

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Ao narrar parte da dinâmica do crime, Bárbara relembrou que o filho biológico de Flordelis, Flávio dos Santos Rodrigues, já condenado por ter sido o responsável por atirar em Anderson, afirmou que estava com raiva por ter ouvido de Simone que o pastor teria passado a mão nela e abusado de uma de suas filhas. A delegada ressaltou que durante as investigações não foi constatado que houve qualquer tipo de abuso cometido por Anderson.

— Se houve algum tipo de relação sexual, a única informação concreta é de que elas teriam sido consensuais.

Durante o depoimento da delegada, a juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce pediu que Flordelis ficasse em silêncio, pois estava atrapalhando a gravação. A advogada Janira Rocha afirmou que ela estava chorando. A juíza insistiu que ela estava se manifestando e atrapalhava a gravação e perguntou se ela queria uma água. Janira concordou e pediu a água.

— Manifestar é falar — afirmou Janira.

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— Não vou entrar nesse detalhe, doutora. Ela estava murmurando — respondeu a juíza.

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A defesa chegou a pedir que Bárbara não prestasse depoimento no julgamento, o que foi indeferido pela juíza. O advogado Rodrigo Faucz afirmou que a delegada apenas confirmaria a tese do Ministério Público.

— Não há a menor possibilidade de que a doutora se autocriticar, apontar erros na investigação. Ganha maior relevo quando temos no Brasil, um dos poucos países que permitem, que elementos colhidos na fase do inquérito sejam utilizados na fase processual.

O pedido foi comentado pela juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce:

— Me causa espanto. Não sei se é um posicionamento bem recente dos senhores, porque os senhores arrolaram a dra. Barbara.

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No que foi respondido por Faucz:

— Nós a tínhamos arrolado como informante, não como testemunha.

O Ministério Público foi contra o pedido da defesa.

— O MP recebe com espanto o requerimento da defesa. É uma servidora pública, tem fé pública. Até que se prove o contrário, não tem interesse num lado e nem no outro. A defesa traz tese doutrinária, minoritária, que não é uma posição que atende a Constituição, na visão do MP. Vamos deixar a cargo dos jurados, para decidir se uma servidora, que tem fé-pública, tem algum interesse — disse a promotora Mariáh Soares da Paixão.

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