Caso Flordelis: 'parece conversa de comadres', diz promotora sobre depoimento de primeira testemunha de defesa

Após serem ouvidas as três últimas testemunhas de acusação, a primeira testemunha de defesa a prestar depoimento é Tayane Dias, de 30 anos, que chegou na casa de Flordelis na favela do Jacarezinho aos 2, junto com cinco irmãos biológicos. ao ser questionada por uma das advogadas de defesa sobre abusos sexuais na casa que seriam praticados por Anderson do Carmos, ela disse que passou a ver o comportamento do pastor de outra forma após o assassinato em 2019. As perguntas feitas pela advogada de defesa foram definidas pela promotora do Ministério Público Mariah Paixão como uma “conversa de comadres".

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A advogada de defesa Janira Rocha questionou sobre abusos sexuais na casa, e Tayane afirmou que presenciou Anderson “batendo na bunda” de Rayane e também a abraçava por trás. E afirma que na época não via maldade, mas passou a ver depois do assassinato do pastor, ao saber sobre outros casos de supostos abusos na casa.

Ao ser questionada pela juíza Nearis dos Santos Carvaho Arce sobre o que sabia de abusos, Tayane se dirigiu à advogada Janira Rocha e questionou se poderia falar. A magistrada interveio e perguntou por que a testemunha estava pedindo autorização para responder à pergunta.

— Eu não queria expor. Porque não é sobre mim — justificou.

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A promotora Mariah Paixão interveio e afirmou que as perguntas de Janira para Tayane pareciam uma “conversa de comadres”. Janira rebateu e pediu que o membro do Ministério Público a respeitasse. Em seguida, Tayane detalhou o que soube na casa sobre os abusos.

— Ele (Anderson) abusou da Rafaela, soube que abusou de outra irmã, a Kelly. A Rafaela estava dormindo, ele entrou no quarto e ele introduziu o dedo nela — afirmou.

Janira pediu a palavra no fim do depoimento da Tayane e pediu que ficasse registrado a insatisfação com a postura da promotora Mariah Paixão.

— Tomo isso como uma tentativa de criminalizar a minha ação como advogada. Eu quero que isso conste. Me senti afrontada, aviltada, com a colocação do Ministério Público — disse.

Convivência em família

Antes, Tayane foi questionada por Janira sobre episódios de violência de Anderson contra Flordelis e contou ter ficado sabendo sobre uma ocasião em que o pastor teria empurrado a ex-deputada da escada.

— Estava todo mundo dormindo. Ouvimos os gritos do quarto deles e soube que ele (Anderson) empurrou ela (Flordelis) da escada. Mas eu não vi. Só ouvi os gritos — afirmou.

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A filha afetiva do casal ainda fez críticas à personalidade de Anderson, afirmando que ele era estressado. Ela acrescentou que em alguns dias, o pastor parecia “estar com o diabo no corpo” e, por isso, sequer chegava perto.

Em seu depoimento, Tayane ainda admitiu que mandou uma mensagem para uma das integrantes da família, Rachel, para que não prestasse depoimento na Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo, mas alegou que pediu apenas que ela não fosse sem advogado. Rachel, neta da ex-deputada federal, foi à unidade policial no fim de 2020 e fez declarações contra Flordelis.

Tayane ainda disse que não soube de tentativas de matar a vítima com veneno e negou que tenha passado mal após tomar um Chamyto na casa. Diversas testemunhas, integrantes da família, relataram que a filha de Flordelis teria tomado a bebida e, em seguida, se sentiu mal. Esse episódio é apontado por pessoas da família como uma das provas de que a vítima estava sendo envenenada.

Tayane relatou, no quarto dia do julgamento, que a mãe biológica não tinha condições de ficar com as crianças e soube de uma mulher, na comunidade, que cuidava de crianças. Tayane foi repreendida pela juíza, Nearis dos Santos Carvalho Arce, por ter entrado no plenário e se comunicado com os réus. Ao ver a filha afetiva, Flordelis chorou. A filha afetiva continua morando na casa da ex-deputada, em Pendotiba, Niterói, onde Anderson do Carmo foi morto.

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Ela confirmou a versão do irmão, Daniel dos Santos de Souza, testemunha de acusação que prestou depoimento nessa quarta-feira, e afirmou que juntos tomaram conhecimento do plano para matar Anderson. A filha afetiva de Flordelis relatou que ambos estavam no carro com o irmão Lucas Cezar dos Santos de Souza, indo para a igreja, quando o rapaz relatou que tinha recebido uma mensagem pedindo para matar o pastor.

— Não dei muita importância porque não acreditava que o Lucas faria isso. Era um menino bom. Minha convivência com ele era boa e não acreditava que ele poderia fazer isso.

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Em seu depoimento, Tayane também confirmou a narrativa de Daniel de que foi chamada por Anderson para falar sobre o plano para matá-lo.

— Eu estava sonolenta. Falei: 'tá bom, tá'. Não dei muita importância.

De acordo com as investigações, o texto de um dos planos para matar Anderson foi escrito por Flordelis e enviado pela filha afetiva Marzy para Lucas, filho adotivo da ex-deputada. Em seu depoimento, Marzy confirmou ter feito a proposta a Lucas, mas negou que a mãe soubesse.

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Questionada por Janira Rocha, uma das advogadas de Flordelis, se já presenciou a ex-deputada roubando crianças das mães, Tayane negou. Ela admitiu, no entanto, que não era “adotada legalmente” e relatou que visitava a família biológica de 15 em 15 dias e nunca foi impedida pela pela.

— As mães sempre vinham para deixar lá (as crianças) para Flor. Nos meus 28 anos vivendo com ela, nunca vi ela roubar nenhuma criança. Era sempre as mães que iam até a Flor.

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