Caso Flordelis: relembre a história de Anderson do Carmo, que passou de filho a marido da ex-deputada

Durante os depoimentos e interrogatórios no juri que julgou Flordelis dos Santos Souza, os filhos afetivos dela e de Anderson do Carmo - morto em 2019 - revelaram como começou o relacionamento entre os pastores. Durante as oitivas, testemunhas de defesa e as rés relataram sofrer ou saber de abusos sexuais cometidos pelo pastor na casa, com Flordelis, filhas e neta. Testemunhas de acusação negaram saber de episódios de crimes sexuais do pastor, postura também adotada pelo advogado da família. Neste domingo, o Conselho de Sentença do Tribunal do Júri de Niterói concluiu o julgamento e condenou Flordelis a 50 anos e 28 dias de prisão pelos crimes de homicídio, tentativa de homicídio (por tentativas de envenenar a vitima), uso de documento falso (pelo plano de uma carta fraudada) e associação criminosa armada.

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Flordelis foi 'mãe, sogra e esposa', diz MP

Nas alegações finais do Ministério Público, a promotora Mariah Paixão afirmou que Flordelis foi "mãe, sogra e esposa da vítima". Segundo os relatos durante o julgamento, Anderson chegou à casa de Flordelis com cerca de 13 anos e como filho afetivo da ex-deputada. Na juventude, Anderson se relacionou com Simone dos Santos, filha biológica da pastora. Depois, ainda adolescente, ele e Flordelis começaram a se relacionar e se casaram pouco depois que Anderson completou a maioridade.

Simone dos Santos contou em seu interrogatório que o relacionamento dos dois começou ainda quando ela estudava na escola. Segundo Simone, eles estudaram no mesmo colégio dos 11 aos 13 anos e o namoro terminou pela grosseria de Anderson do Carmo.

- Foi na minha infância, escola. Ele frequentava a Igreja Batista. Frequentamos a mesma escola dos 11 aos quase 13 anos. Terminei esse relacionamento porque já bem novo ele era grosso e ignorante. Queria ficar grudado e não queria nem que eu brincasse com meus colegas. Isso porque era um namoro de infância. Ele me procurava, ia na minha casa. Na hora do recreio ia atrás de mim. Era conturbado.

Wagner Andrade Pimenta, o Misael, filho afetivo do casal, contou aos jurados que, após o relacionamento com Simone, o pastor começou, ainda adolescente, a namorar Flordelis.

- O Anderson, meu pai, já tinha uma autoridade e liderança atual. Ele chegou como filho da Flordelis e era visto como responsável. Eu tinha apenas 12 anos quando cheguei achando que seria uma família, uma extensão da igreja. Mas acabei aos 12 anos cuidando de 13 bebês - relatou Misael, que ainda definiu ter sofrido uma “lavagem cerebral” em casa.

Alexsander Felipe Matos Mendes viveu cerca de 15 anos na casa da ex-deputada e cantava na banda da pastora. Considerado filho afetivo do casal, ele relatou que Anderson “era muito administrador e segurava o dinheiro” e gostava de se vestir bem e comprar coisas “do bom e melhor para Flordelis”. Ele reforçou que a família começou a entender Anderson do Carmo como uma figura central da casa após o início do relacionamento do pastor com sua mãe afetiva.

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O fato de Anderson comprar muitas coisas causava descontentamento a outros filhos, principalmente os mais velhos da casa. Segundo Alexsander, até Flordelis se incomodava, mas “empurrava com a barriga”.

— Respeitamos ela primeiro como mãe e depois começamos a respeitá-lo. Sacerdote da casa é o provedor do lar. Aquele que cuida da família. Não tem como eu cuidar da obra de Deus se eu não cuidasse primeiro da minha família — disse ele.

Denúncias de abuso e estupro

Ao depor no sexto dia do julgamento do assassinato do pastor Anderson do Carmo, ex-deputada e pastora Flordelis dos Santos de Souza negou qualquer envolvimento no crime. Ela respondeu a perguntas por cerca de 40 minutos, um dos mais rápidos depoimentos. A ré falou sobre casos de abuso sexual que o marido teria cometido contra filhas e netas e da relação que teve com ele durante os anos de casamento. Em alguns momentos, respondendo com voz trêmula, Flordelis foi questionada por um jurado se o choro dela era real. Ela disse que sim.

Flordelis e os outros réus não responderam as perguntas do Ministério Público, direito garantido na lei sobre os abusos sofridos por ela. A advogada Janira Rocha conduziu o interrogatório e perguntou quem é o autor do homicídio do pastor Anderson do Carmo, marido de Flordelis. A advogada questionou o motivo do crime:

— É muito difícil pra mim falar, mas foi a ciência, os abusos. Os abusos na minha casa — disse a pastora. — Eu não tinha conhecimento. Eu amava meu marido. Ele era tudo para mim, era minha vida. Houve desconfiança uma única vez, com minha filha Kelly.

A advogada pediu que Flordelis falasse sobre os abusos que sofria e se sabia se outras mulheres da família passavam por isso.

— No início do nosso casamento era muito bom, foi um início muito bom. Quero ressaltar que casei com ele por causa dos problemas muito fortes que tinha na época. Sempre tive costume de assinar documentos sem ler. Depois de casada, começou a me bater. Ele me batia. Depois ele parou com essa prática de me bater. Depois ele se tornou uma coisa assim, muito doída, muito sofrida.

Convocadas pela defesa dos réus, duas netas de Flordelis e filhas de Simone relataram saber de episódios de abuso sexual. Última a depor, Rafaela Oliveira, neta de Flordelis, revelou ter sido estuprada pelo pastor quando ainda era adolescente.

- Estava dormindo e comecei a sentir carinho na minha perna, mas achei era minha mãe . Senti subindo e despertei. Nisso Anderson puxou minha calcinha de lado e introduziu o dedo em mim. Virei de lado rápido e minha mãe levantou. Ele só foi embora como se nada tivesse acontecido - relatou.

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Lorrane dos Santos, neta da ex-deputada, narrou que sofreu episódios de importunação sexual do pastor, mas não contou sobre os supostos abusos sexuais de Anderson do Carmo porque não se sentiu confortável na delegacia com quatro homens. Ela ainda narrou que uma vez o pastor tentou levá-la para um motel. A testemunha é filha de Simone dos Santos e André Luiz, também réus pela morte do pastor.

— Lá em casa era comum acabar a água e o quarto dele era um dos últimos a terminar. Bati na porta dele e ele deixou tomar banho. Quando saí, ele estava vendo vídeo pornô e se masturbando. Depois tentou puxar assunto como se nada tivesse acontecido. Minha mãe falava para não ficar muito sozinha com meu avô, o Anderson. Ela sempre falou isso pra mim. Nunca entendia o porquê até passar por uma situação com ele.

O advogado Ângelo Máximo, que representa a família do pastor Anderson do Carmo, nega as acusações. Durante o julgamento ele questionou o motivo das denúncias tenham sido reveladas durante o juri e não em momento anterior das investigações.

'Flordelis era protagonista, mas Anderson controlava'

Durante os depoimentos, diversas testemunhas apontaram que o pastor era o responsável pela administração financeira e política da carreira de Flordelis. Eles teriam uma divisão sobre os lucros da carreira gospel da ex-deputada: 60% ficaria com Anderson - para custear também a casa, e o restante com a pastora.

Uma dos depoimentos foi do desembargador Siro Darlan. Nos anos 1990 até 2005, ele foi titular da 1ª Vara da Infância e Juventude do Rio. Enquanto juiz, foi o responsável por regularizar a situação das crianças que viviam com Flordelis , quando a ex-deputada era alvo de ações da Justiça. Ao juri, ele relatou que quem comandava a família nos bastidores era Anderson do Carmo. Três dias antes do crime, o pastor ligou para Darlan para convida-lo a uma reunião com Flordelis para discutirem um projeto de lei para crianças e adolescentes:

— Ele me ligou dizendo que queria uma audiência comigo e com a Flor para discutirmos um projeto de lei sobre a proteção de crianças e adolescentes. Mas como estava viajando, falei para marcamos um mês depois. A Flordelis era a protagonista, mas era ele que comandava tudo. No tratamento que tive com eles, sempre os achei unidos — disse.